sábado, maio 29, 2010

O blues de Valéria

Eu sou um trouxa sentimental.

Sempre fui assim.

Às vezes, caminhando pela cidade, vejo um anúncio de “VENDE-SE” na porta fechada de uma loja em que entrei uma única vez e fico triste, como se tivesse falecido um conhecido. É como se uma parte do mundo que eu conheço deixasse de existir. E, pensando bem, é exatamente isso que acontece.

Eu me apego às pessoas, aos lugares, aos momentos. Fiquei deprimido quando terminei o segundo grau. Fiquei mais deprimido ainda quando terminei a faculdade. Olha, eu fiquei deprimido até quando terminei o cursinho de inglês.

E esse lance todo de apego transforma o fim de namoro em pesadelo. Só tive duas namoradas de verdade na vida. Uma delas ainda me faz acordar chorando. Mas o tempo cura tudo. A fila anda, como se diz.

E o tempo não só cura, como transforma. As minhas calças parecem mais apertadas , o cabelo parece mais ralo. Sei lá, me olho no espelho e parece que a vida passou e eu perdi alguma coisa e não sei o que é.

Enfim, sempre me disseram que solidão não é um problema e não é nada difícil achar alguém pra partilhar as cobertas. Na verdade, meu colega tanto insistiu nesse tópico que afinal entrei lá no tal GP: um fórum de debate sobre Garotas de Programa. Com classificação do desempenho das moças, comentários dos clientes, fotos e tudo. Parece o Guia Pokémon das Putas.

Fiquei meio noiado de chamar uma puta. Tipo, uma estranha na minha casa. Coisa mais esquisita. Sei lá. E tinha o medo de que acontecesse uma coisa tipo você telefona pra moça e quando ela te visita tu descobre que ela não tinha nascido com boceta. Crendiospadre.

Mas acontece que solidão é coisa braba. E um dia, meio que de saco cheio de mim e dessa merda de auto-comiseração, entrei no GP. Valéria era o nome da moça. Rabão e peitão. Gostosa do caralho. E uma ótima classificação por parte do pessoal.

Liguei pra moça. Era minha primeira vez com uma profissional e eu tava nervoso, abobado, como um guri que compra a primeira revista pornô. Mas no fim é tudo muito simples. Muito comercial. Sabe quando você telefona pela primeira vez pra uma garota que você tá a fim? O nervosismo, a ansiedade? Pois é, com puta é completamente diferente.

Fiquei desconcertado com a moça, com a maneira como ela falava, sensual, oferecida, objetiva. Ela guiou toda a negociação, marcou o horário, definiu as regras. Terminou a conversa, desliguei o telefone, nervoso, trêmulo, boca seca. Me olhei no espelho do banheiro. Tu é um idiota, um idiota. Uma vergonha de mim mesmo por um monte de coisas, mas ao mesmo tempo uma expectativa, uma euforia. Aquela noite seria A Noite. Alguém para partilhar as cobertas. Alguém profissional.

Era sábado.

Ela chegou e era linda linda linda demais. Como eu disse, era minha primeira vez com uma puta e eu não sabia direito o que fazer. Por isso fiz um jantar. E conversamos e tomamos vinho e fomos assistir TV. E acabamos trepando no sofá e ela foi maravilhosa e fomos pra cama e ela foi sensacional.

Foi o dinheiro mais bem gasto da minha vida.

Ou melhor, TERIA sido o dinheiro mais bem gasto da minha vida.

Na manhã seguinte acordei e ela ainda estava ali, deitada do meu lado, dormindo. Tinha o quê? Uns 20, 22 anos? Fiquei ali olhando pro rosto da moça. Ela tinha transado comigo por dinheiro. O nome dela era falso e provavelmente tudo que ela tinha me contado sobre si era uma mentira. Tudo era falso, menos aquele momento. Ela dormindo ali. Sei lá porque senti um carinho enorme por ela.

E ela acordou.

Falou em ir embora, mas era domingo de manhã e, profissional ou não, eu não ia deixar ela sair da minha casa assim. Fiz um café da manhã caprichado e rolou um papo bacana, contei sobre mim e os desenhos.

Ganho a vida desenhando histórias em quadrinhos. Pra editoras dos EUA. Já fiz o Hulk, o Capitão América e um punhado de heróis. E tomamos o café e comecei a falar, falar, mostrei pra ela o quartinho que servia de estúdio, a coleção de gibis, os cartazes, as fotos da primeira viagem pra Nova York, ano passado. E ela me ouviu, fez perguntas, falou que gostava do Homem-Aranha e que achava uma palhaçada o lance do Mefisto e o fim do casamento com a Mary Jane.

E, quando vi, bateu a fome e era duas da tarde. Ela quis ir, convidei ela pro almoço. Insisti e como ela não tinha mais nada pra fazer aquele dia, ficou. Eu fiz um almoço caprichado. Ela adorou. Depois do almoço fomos pro sofá, assistimos mais uns filmes. Rolou uns beijinhos e mais uma transa.

Às oito da noite ela foi embora. Fui pegar o dinheiro, mas ela não aceitou. “Não. Eu gostei de você. Você não precisa pagar. E quando quiser, me liga”. Bejinho e tchau.

Uau. Fiquei me sentindo dopado uma semana. Ainda assim, eu sabia que romance com puta não era coisa de dar certo. Roxanne é uma das canções que eu sei a letra de cor. Ainda assim...

Chamei ela no outro fim de semana e ela veio. E a coisa foi andando. Tinha vez que ela não podia e não rolava nada, tinha vez que ela me chamava. Fui com ela em restaurante bacana, cinema, passeio no parque de mãozinha dada.

Ela me contou seu nome de verdade.

Minha namoradinha puta.

Durou mais ou menos uns dois meses. Foi num domingo de tarde, sentado com ela no sofá, dando um beijo, que veio o estalo. No meio do beijo, num segundo, de repente me perguntei quantos paus ela tinha chupado aquela semana e vi uma imagem de filme pornô, a moça e um monte de caralhos porrando na cara dela.

Náusea total.

“Que foi?”. Nada não. Acho que o almoço não me caiu bem.

Não conseguia tirar a imagem da cabeça. Não conseguia. Ela saiu lá de casa e toda vez que eu pensava nela pensava em porra branca transbordando pela boca escancarada, escorrendo pelo rosto, cabelo e pescoço. Crendiospadre.

Parei de ligar. Ela telefonou umas três vezes. Eu sempre estava ocupado.

Daí, ela também parou.

E a vida continuou.

5 comentários:

José Aguiar disse...

Caramba! Lindo texto!

liber disse...

Obrigado, Zé.

E se ficou na dúvida sobre o que é fato e o que é ficção, então estou fazendo meu trabalho direitinho.

;-)

Abração!

José Aguiar disse...

Daria um boa novela. Não das televisivas, claro! Você já tem a estrutura da história. Seria desenvolver...

Anônimo disse...

Muito boa a historia!
E a pergunta que nao quer calar: afinal é fato ou ficção??

abs!
=)

liber disse...

Vamos desenvolver... temos ideias.

E não existem fatos. Existem versões.

;-)

Obrigado pelas visitas e comentários!
Abraços!