quinta-feira, junho 24, 2010

Até o dia em que o cão morreu


É tudo a mesma coisa. Isolado ou mergulhado numa multidão, no trânsito, no trabalho, a solidão é sempre a mesma, com exceção daquelas poucas, raras pessoas em cuja a presença a solidão some, mesmo que não seja o tempo todo.

Essas raras pessoas.

Falta alguma coisa, sabe? Está tudo no lugar, está tudo certo, mas às vezes me bate uma impressão de que algo não saiu do jeito que deveria. Alguma coisa deixou de acontecer. Ou talvez seja só um desejo de plenitude, talvez de coerência, que me assalta nessa jornada plena de incoerências, incertezas e coincidências assombrosas.

E daí me cai esse livro na mão. Feito luva.

Em uma cidade, um homem está imerso em apatia. Apatia total. Esperando um dia passar após o outro. Por essas coisas de roteiro e da vida, surgem um cão e uma mulher. Parece sinopse de filme romanticuzinho, mas não se engane.

Até o dia em que o cão morreu é seco, árido.

Crianças fitando bem nos olhos de ovelhas de garganta cortada e sangue escorrendo, observando atentamente para perceber o momento exato em que a vida deixa de existir. É disso que estou falando. De cidade, prédios cinzentos, sexo e desencontro. Um cão dando voltas diante do prédio do rapaz, olhar perdido, sem saber se pode se aproximar, sem saber se vai ser bem recebido, sem entender, sem coragem, sem escolha. E a mulher, repetindo, consciente ou não, exatamente as mesmas voltas do cão.

Demora muitos anos pra gente descobrir o que é estar sozinho de verdade.

O livro de Daniel Galera é extraordinariamente bem escrito. Na minha opinião, uma pequena obra-prima. Daqueles raros livros que a gente encontra no momento certo e saboreia cada palavra e consegue chegar ao final um pouco melhor do que quando começou.

Um pouco mais confiante de que talvez a tal plenitude seja alcançável.

Ou não.

Nenhum comentário: