quinta-feira, junho 03, 2010

Xampu


Ontem foi dia de festa e Guinness no Slainte.

Hoje foi um dia frio, cinzento e preguiçoso. Lindo pra passar a tarde gateando no sofá, curtindo a ressaca. Melhor ainda se tiver um gibi bacana pra dar uma lidinha entre um cochilo e outro.

Fiz o sacrifício de sair de casa pra andar 2 quadras e chegar na Itiban. Daí comprei esse álbum aqui, o Xampu: Lovely Losers.

O livro é todo feito pelo Roger Cruz, desenhista de HQs que anda por aí há tempos, dando aulas na Quanta e desenhando supers lá pros EUA. Uns anos atrás, lá por 1999, o Roger publicou, na extinta revista Metal Pesado, a primeira versão de Xampu.

Era uma historinha de três páginas, com um estilo de desenho que me lembrava um pouco o Laerte e às vezes o Bruce Timm. Não era nada mirabolante, era mais uma daquelas histórias de relacionamentos e boemia. O que me conquistou era a sinceridade e simplicidade do texto, o modo como as coisas eram apresentadas.



Minto.

O que me conquistou é que parecia uma história minha e dos meus amigos, parecia algo que poderia ter acontecido com um de nós. Uma memória das coisas que vivemos, da nossa turma e nossos dias. Era uma história autêntica, viva. O tipo de história que eu gostaria de ter escrito.

E agora, mais de 10 anos depois, Roger Cruz lança esse Xampu, retomando e desenvolvendo as ideias originais.




Simplesmente adorei o álbum.

Ele é impresso com uma cor de sépia, muito bonita, que me lembra os livros do Will Eisner. Cruz redesenhou a historinha de 1999. Pra isso, fez uma série de estudos pra desenvolver uma linguagem de desenho que atendesse suas próprias expectativas. Esses estudos estão numa "faixa" de extras do álbum.

Aliás, a capa desse álbum de quadrinhos é ilustrada com a imagem de um vinil. E nesse "vinil" há sete "faixas": Xampu Generation, O Sombra, Tiras, Max & Nicole, Raquel, Max, Alô Nicole? e a "faixa bônus" de extras, que traz os estudos.

É um trabalho bem bacana e é muito interessante ver os rascunhos, as experiências com materiais, tintas e estilos na busca pelos personagens. Você pode ver bastante desse material no blog de produção de Xampu.

A produção gráfica e os desenhos são ótimos, afinal Cruz é um profissional. Mas o que mais mexe comigo é a história.




Sabe, há muitas maneiras de você contar as coisas vividas. E tudo sempre dependerá da sua formação, de que tribo você é. De que buraco você saiu.

Os 10 Pãezinhos de Fábio Moon e Gabriel Bá e a Menina Infinito de Fábio Lyra contam umas histórias muito bacanas e líricas, que eu curto, mas acho "limpinhas" demais. Eu sempre fui mais de terminais sujos. Não é uma questão de visual, mas de espírito, entende?

Xampu de Roger Cruz é assim: privado de glamour, feioso, sujão, mas ainda assim fascinante. Ao nos mostrar o apartamento do edifício número 78, onde se desenrolam as "faixas" do álbum, o narrador comenta:

"Era o canto onde todos os malucos e malucas que conhecíamos vinham se mocosar nos finais de semana. Chegavam trazendo bebidas e muita erva pra queimar no ar viciadíssimo do apertamento já recheado de bitucas, latas vazias e cinzeiros lotados. Por incrível que pareça, aquele ambiente altamente desaconselhável atraía garotinhas de quinze aninhos, puras e inocentes, cheias de curiosidade, buscando fortes emoções".

Tem muito nesse álbum do que eu vivi com meus amigos há anos atrás. Quando a gente ainda era um bando de piás. Os shows, as bebidas baratas e vagabundas, a grana curta. As nossas baladas regadas a marginalidade. As mocinhas lindas. As figuras extraordinárias que conheci e os finais nem sempre felizes de suas histórias.

Xampu tem um ar danado de nostalgia. Ele mostra um pessoal que vivia antes da web, antes do celular, antes do facebook. Finalzinho dos anos 80. Pelos desenhos a gente acha uma série de detalhezinhos: cartazes nas banquinhas, posters na parede dos quartos, capas de LP. Mas não é só isso que dá um ar de lembrança pro álbum. A história não conta apenas um momento, ela segue em frente. Vemos as mocinhas se tornarem mulheres, vemos os garotos tornarem-se gente grande. O tempo não pára. Para o bem ou mal.

Como dizem, "a chama que brilha com mais intensidade é a que se apaga primeiro", não?

5 comentários:

Roger Cruz disse...

Liber, meu caro..
Parece até que foi você quem escreveu a hq.
Era exatamente o que eu pretendia transmitir.
Então, fico muito feliz por ter conseguido "conectar" corretamente.

Obrigado pelo post.
Já valeu para mim.

Abração,

Roger

liber disse...

Roger, eu que agradeço a visita. Mandou muito bem no álbum. Reverências! E grande abraço!

Renato Faccini disse...

O Liber é muito bom em fazer a gente comprar HQs. Acabei de vir da Itiban com o meu Xampu.

maTch disse...

muito bom!
eu vinha "acompanhando" a pira toda la do blog do Roger Cruz, e lendo isso tudo me deu uma puta vontade de comprar!
parabens Roger pelo quadrinho, parabens Liber pelo texto!
.M

liber disse...

M

Vai lá que tu vai curtir pra caramba esse Xampu.

E obrigado pela visita e comentários.

Abraço!