sábado, julho 10, 2010

Kiki



Uma vida.

É sobre isso que uma biografia supostamente deveria ser. Uma vida. Mas na maioria das biografias que li, a pessoa parece que se perde por trás dos fatos, datas, documentos. A gente vê só um pouquinho aqui e ali em trechos de cartas, diários, fotografias. Não dá pra conhecer a pessoa de verdade. Ela se foi. A gente só pode imaginar como ela era.

O grande mérito dessa longa história em quadrinhos é me fazer acreditar que conheci essa moça Kiki.

Eu a vi nascer num vilarejo, vi a menina crescer criada com carinho pela avó e sentir a ausência do pai, que teve outra família e não a reconhecia como filha. Esses amores recebidos e negados se espalham por todas as páginas. É assustador e maravilhoso.

Ela foi para Paris, passou miséria, trabalhou, curtiu a noite, tornou-se modelo de jovens pintores. Ela cantou, dançou, pintou, virou pintura, virou fotografia. Dormiu com quem quis. Ela inspirou pessoas. Modigliani, Man Ray, Hemingway, Jean Cocteau... Às vezes, não teve dinheiro pra comer, às vezes, ganhou uma soma astronômica nas artes e gastou tudo, da noite para o dia, em roupas e festas.

Ela viajou, envolveu-se com drogas, foi presa, foi solta. Viveu a II Guerra Mundial.

Ocupou-se mais em viver do que em ter. Nunca teve casa própria, nunca ficou rica. Não teve só um grande amor da vida, mas vários e não segurou nenhum. Quis, mas não teve filhos.

A simplicidade do desenho de Catel mostra a menina crescer, tornar-se mulher, amadurecer. Do começo ao fim. E o fim vem em 1953. Inchada pela hidropisia e abusos do álcool e entorpecentes, Kiki vive da generosidade de amigos. Ainda alegre, cantarolando, ela é uma menina vivendo no corpo de uma mulher de 52 anos. Linda.

Bobagem minha, mas tive uma vontade danada de estar lá pra poder abraçar essa dona gorducha, que conheci só por uma história em quadrinhos.







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