segunda-feira, julho 26, 2010

No hope, no fear

Escrevo essa aqui pra moça que não lê super-heróis. Ela é esperta demais pra isso e fica me perguntando porque deveria ler uma história sobre um cara que se veste de vermelho e sai batendo nos bandidos em histórias maniqueístas e rasas.

Vamos lá...

Matt Murdock é um advogado que fica cego quando criança em um acidente envolvendo isótopos radioativos. No mundo dos super-heróis a radiação não te mata, mas te dá super-poderes. No caso do menino Murdock, ele desenvolve um tipo de radar que o ajuda a se orientar, além de audição, tato, paladar e olfato super-humanos. Ele não enxerga e nem precisa. Por alguma razão que eu não consigo entender, ele cria uma fantasia e sai à noite fazendo justiça e enfrentando bandidos. Talvez algo que ele não conseguia fazer direito como advogado. Isso é engraçado, né?

A moça suspira. Ela me dá aquele olhar que significa "estou sendo paciente, não abuse. Por que eu deveria ler essa coisa?"

Veja, nos EUA os super-heróis são lançados ininterruptamente todos os meses. O Demolidor é publicado desde 1964. Isso é tempo pra caramba e também é uma enorme quantidade de páginas desenhadas. Óbvio que nem toda a história dele é bacana. Mas no meio de toda essa quantidade, um dia surge algo que realmente vale a pena ser lido.

A Queda de Murdock é essa história que vale a pena.

Ela foi publicada nos EUA pela primeira vez em 1986. Aqui saiu na finada Superaventuras Marvel #62 a #67 entre agosto de 1987 e janeiro de 1988. São seis partes. E ela é boa demais.

"Por que ela é tão boa assim?"

Ela começa com a ex-namorada do Demolidor/Matt Murdock. A moça tinha sumido das histórias fazia já uns anos. Todo mundo pensava que ela tinha virado atriz de cinema, mas achamos a moça numa decadence total. Viciada em heroína, prostituída, atriz de filminho pornô de quinta categoria. E apenas 25 anos. Tão na fossa, tão na fossa, que ela vende o segredo da identidade secreta do herói por um pico. Isso acontece na primeira página da história.

Acontece que o segredo vai passando de boca em boca até que chega a Wilson Fisk, o gangster fodão maioral do crime da costa leste americana. O Demolidor era uma pedra no sapato de Fisk. Tipo aquela história de arqui-inimigos, sabe? Mas quando descobre o nome verdadeiro do herói, Fisk não manda ninguém matá-lo ou sequestrar parentes ou coisa parecida. O que ele faz é "testar a informação".

E usando influências, fazendo subornos e chantagens, silenciosamente, ao longo de meses, ele vai fodendo com a vida de Matt Murdock. E quando digo fodendo, quero dizer fodendo meeeeeeesmo. Em meses ele tira todos os clientes do advogado e leva sua firma à falência. Forja uma acusação diante do pessoal do Imposto de Renda e consegue que bloqueiem todos os bens do cego. É um processo lento, mas Murdock, que era um advogado rico e bem de vida, caminha inexoravelmente para a miséria. E sem ter a menor ideia de por que isso está acontecendo.

Essa ideia de tirar pouco a pouco tudo que o homem tem é que torna essa história sensacional. Desesperado, Murdock acaba se isolando, separando-se de seus amigos, sem saber em quem pode confiar. Acaba indo dormir nas ruas, junto dos mendigos. Chega à beira da loucura. Da morte.

E daí...

Daí vem o título da história em inglês, Born Again. Não se trata da queda do homem, mas sim de como ele faz para se reerguer. E não pense que ele consegue tudo de volta, porque não é assim que termina. O que temos é um sujeito privado de tudo e que tem que achar outras razões, outros motivos pra continuar vivendo. É obrigado a se reinventar, a superar as dificuldades de sua nova condição e ainda assim continuar íntegro e honesto consigo mesmo. É sensacional. Irresistível. Impossível não ser cativado.

O texto é do Frank Miller e é bem escrito, bem trabalhado, sem os excessos e diálogos toscos que ele cometeria anos depois em Sin City e 300. Aparecem diversos personagens coadjuvantes e eles são muito bem construídos. O desenho é de Dave Mazzuchelli, na época um novato. Depois ele se tornaria uma referência com seus trabalhos em City of Glass e Asterios Polyp (falo mais sobre isso outro dia).

Além do texto, da narrativa, da arte, a história é cheia de pequenos detalhes interessantes. Por exemplo, as páginas de título de cada capítulo mostram sempre Matt Murdock deitado, primeiro em sua cama confortável, depois em um quarto de hotel vagabundo, depois na rua junto dos mendigos e por aí vai... Repare como ele vai sendo espremido contra o canto do quadrinho à medida em que a história avança e sua situação piora.





O super-herói fantasiado fica em segundo plano durante toda a história. Só no último capítulo que... bom, você vai ler né?

A história foi republicada recentemente pela Panini, num volume luxuoso, de capa dura, páginas couché e o caralho a quatro. Caro, obviamente. Mas se você tiver paciência e sorte, pode garimpar nos sebos e achar as publicações anteriores. Talvez ache a especial em "formatinho", que eu também tenho.



"Formatinho" era o tamanho reduzido em que eles publicavam as histórias durante os anos 80 e 90. Tinha todo um trabalho de edição em cima do formato original. Eu tenho as duas edições e pude comparar. A antiga, em formatinho, tem todo um charme. Como o desenho foi reduzido, em algumas páginas os detalhes de texturas borraram e a arte ficou mais escura, mais sombria. Mais expressiva.



O tamanho era menor, mas as letras dos balões eram maiores (!). Então os textos da versão em formatinho eram mais curtos, muitas vezes sem trechos do texto que aparecem no "formatão" (chamado "formato americano"). Entretanto, o pessoal das antigas tomava umas liberdades de exagero nas falas, como na imagem abaixo. Esse exagero pra mim tem o charme das antigas dublagens da sessão da tarde (você sabe que eu só assisto meu dvd de Curtindo a vida adoidado com a dublagem da sessão da tarde, né?)




Enfim, quem se interessou, pode comprar a nova edição da Panini ou fazer uma busca nos sebos. Vale a pena.

Sorte sua, Xuxu, que você conhece alguém com uma vasta coleção de sonhos em papel, além de um mestrado em quadrinhos. Aproveite.

;-)


3 comentários:

Anônimo disse...

Eu li esta na época que saiu, na Superaventuras Marvel e deveria ter entre 16 e 17 anos. Lembro que gostei muito, mas seu relato reavivou os sentimentos! :-)

Só não sei se gostaria de ler de novo. Acho que é melhor que ela fique na minha memória de adolescente, fervilhando como tantos outros quadrinhos fizeram :-)

Abraços!
Rodrigo Stulzer
transpirando.com

liber disse...

Rodrigo

Tem coisas que marcam a gente e quando vamos conferir de novo, anos depois, acabamos nos decepcionando. A memória prega peças. Mas no caso dessa história, fiquei muito feliz de lê-la novamente. Ela realmente tem qualidade e ainda descobri uma ou outra coisa bem legal nessa nova leitura. Vale a pena.

Obrigado pela visita e comentário.

Grande abraço

Anônimo disse...

ler todo o blog, muito bom