quarta-feira, novembro 24, 2010

Cicatrizes

(Versão da resenha originalmente publicada na seção Reviews do Universo HQ)


Histórias autobiográficas estão na moda. É bacana produzi-las, é bacana lê-las. Marjane Satrapi e sua Persépolis, Alison Bechdel e sua Fun Home, Craig Thompson e seus Retalhos... É uma lista grande. Lendo esses livros alguém pode pensar: “será que além de histórias autobiográficas, ter tido uma juventude difícil também está na moda?”.

Nas primeiras páginas de Cicatrizes a impressão que se tem é que lá vem mais uma historinha de “eu cresci numa família complicada e tive uma adolescência difícil”. Mas então acontece.

E o que acontece?

Bem, digamos que David Small merece o título de “sobrevivente” bem mais do que seus colegas citados acima. Digamos que o título “Cicatrizes” serve muito bem à obra, assim como o original em inglês, “Stitches”. Contar mais que isso estraga a história.

Aliás, o maior problema dessa publicação da editora Barba Negra, se é que se pode considerar isso um problema, é justamente o fato desse “acontecimento” ser contado logo na orelha do livro. Por isso um conselho importantíssimo: não leia o texto da orelha.

Lógico que a narrativa não se limita apenas a esse “acontecimento”. Há toda uma riqueza de detalhes e contextualizações que amplificam muito mais o impacto do episódio sobre a vida de Small.

Daí vem o aspecto técnico da obra. Small é um ilustrador que trabalha com livros infantis e ilustrações editoriais. Seu trabalho pode ser conferido no site davidsmallbooks.com. A arte de Cicatrizes é feita com traços de bico de pena e pincel e tons de cinza produzidos por aguadas de nanquim. O estilo de desenho dos personagens é feito de maneira simplificada, estilizada, com um traço expressivo. Olha só esse painel aqui, da página 211. Belíssimo, não?



Small tem seu ponto forte na arte e na narrativa sequencial. Os blocos de textos são curtos e há sequencias de diversas páginas sem palavra alguma. Isso torna a história muito ágil, mas de maneira nenhuma superficial. A riqueza do trabalho de Small não está em longas elucubrações descritivas sobre a psicologia de seus pais, mas na força expressiva dos desenhos, na economia de recursos que comunica a informação necessária e deixa espaço para o leitor trabalhar na construção do significado.

Além disso, há outras pequenas surpresas narrativas... Fique atento para o Coelho Branco, Neo. ;-)

Ah, a tradução fica por conta do Cassius Medauar, que foi responsável pela saudosa Pixel Magazine.

Parabéns a editora Barba Negra por esse lançamento. A capa é belíssima. Só mais cuidado na elaboração dos textos para não estragar boas surpresas da obra. Uma obra, aliás, recomendadíssima.

Possivelmente um dos top five do ano.

Super recomendo.

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