quarta-feira, janeiro 26, 2011

Quadrinhos que levaram prêmios de literatura

Dia desses reprisaram um programa sobre a Rio Comicon na Globo News. Apesar de bacaninha, o programa já começou com uma afirmação no mínimo polêmica: "As histórias em quadrinhos são um gênero literário".

O fato é que literatura e quadrinhos são linguagens diferentes. Usam signos e técnicas narrativas diferentes. Sua leitura é diferente. Isso não implica que quadrinhos tenham menos ou mais valor do que literatura, ou que não tenham sua própria poética. Apenas são coisas diferentes. Por isso dizer que "quadrinhos são um gênero literário" é um equívoco.

Ainda assim, essa é uma discussão que dá muito pano pra manga. Querer que uma história em quadrinhos concorra em uma premiação literária é como inscrever um filme em um festival de teatro. Linguagens diferentes. Entretanto, há diversos casos de premiações literárias que foram para histórias em quadrinhos. Aqui eu fiz um apanhado de algumas que achei mais interessantes.

Vamos lá...



Em 1991, Neil Gaiman (roteiro) e Charles Vess (desenhos) ganharam um World Fantasy Award pela história em quadrinhos Sonho de uma noite de verão (A Midsummer Night's Dream). Essa história foi publicada na edição número 19 da famosa série Sandman e narrava a primeira apresentação da peça homônima de Shakespeare. O destaque ficava com a plateia, composta pelas criaturas fantásticas citadas na peça.

A premiação dada a Gaiman e Vess causou polêmica porque argumentava-se que uma história em quadrinhos não poderia ganhar na categoria de Short Fiction (história curta). De fato, desde sua primeira edição em 1975, o World Fantasy Award prestigia autores de ficção científica e histórias fantásticas em diversas categorias, a maioria voltada para o formato "literário". E por formato literário, entenda histórias narradas através de sentenças escritas, dispensando o uso de imagens.

Os críticos do caso "Gaiman-Vess" argumentavam que existia (e existe) uma categoria do World Fantasy Award chamada Special Award - Professional (Premiação Especial para Profissionais) que contempla as histórias em quadrinhos, assim como animação, filmes e outros formatos relacionados à narrativa de temas fantásticos.

No fim das contas, Gaiman e Vess receberam o prêmio de melhor história curta e nos anos seguintes os quadrinhos passaram a ser enquadrados na categoria Special Award.

Anos mais tarde, em 2006, houve outra polêmica, agora envolvendo a indicação de American Born Chinese para o National Book Award, uma das premiações literárias de maior prestígio dos EUA.



Publicado no Brasil com o título O Chinês Americano pela Cia das Letras, a história em quadrinhos feita por Gene Luen Yang mistura mitologia chinesa e autobiografia, brincando com a narrativa e passeando por referências que vão do mangá aos sitcoms. O tema do trabalho são as diferenças culturais e sociais e a dificuldade de ser aceito e de se aceitar, mas o modo como Yang passa essa mensagem é muito criativo e estimulante. Uma obra que vale a pena ser conhecida.

Entretanto, Tony Long, da revista Wired, achou que a indicação de O Chinês Americano à categoria Young People's Literature do National Book Award foi inadequada. Em outubro de 2006 ele escreveu:

"Eu não li Chinês Americano, mas tenho certeza de que é bom. Provavelmente desgraçado de bom. Mas ainda assim é uma história em quadrinhos. E histórias em quadrinhos não deveriam ser indicadas ao National Book Awards em qualquer categoria que fosse. O prêmio deveria ser exclusividade de livros que fossem... feitos só com palavras".

Você pode ler na íntegra o texto (em inglês) de Long aqui. Embora escreva que não quer menosprezar as histórias em quadrinhos e que elas tem seu valor também, fica claro que, para Long, não se trata apenas de uma questão de linguagem, mas também de status: "livros de verdade" tem mais valor que "quadrinhos". Afinal, fazer um romance e, mais ainda, fazer um romance que seja digno que ganhar um NBA, é uma coisa "muito difícil".

Foram essas considerações infelizes de Long que despertaram toda a polêmica. Ao invés de focar na questão da forma e linguagem, a discussão descambou pro "valor" dos quadrinhos. O que passa a se discutir é a ideia de que "literatura é mais difícil, mais séria, portanto melhor que os quadrinhos que são naturalmente uma coisa mais descompromissada e pueril".

Diversas pessoas escreveram defendendo a participação do livro de Yang na premiação e criticando o texto de Long, entre elas o editor americano do quadrinho, Mark Siegel e o próprio Neil Gaiman.

Mark Siegel argumenta que a preocupação com o "formato" da obra acaba encobrindo o fato de que ela é um "VEÍCULO" e, portanto, o que importa é a "HISTÓRIA", o trabalho dos "AUTORES". Isto é, o que realmente conta é a qualidade do conteúdo veiculado. Para Siegel, embora existam diferenças entre as linguagens dos quadrinhos e do texto escrito, não são os aspectos formais que devem ser considerados, mas sim características como roteiro, personagens, narrativa...

Já Neil Gaiman diz que se Long está tão incomodado com a indicação de quadrinhos para prêmios de literatura, ele deveria arranjar uma máquina do tempo para poder mudar a História e impedir que Maus ganhasse um Pulitzer ou que Watchmen fosse incluído pela revista Time em sua lista com os 100 melhores romances do século XX. Mas se a gente olhar esses casos mais de perto...


Maus é escrita e desenhada por Art Spiegelman, apresentando a quadrinização de entrevistas que o autor realizou com seu pai, um sobrevivente de Auschwitz. Um dos aspectos mais marcantes de Maus é a antropomorfização dos personagens: judeus são representados como ratos, alemães como gatos, americanos como cães. Com certeza, é um dos trabalhos de quadrinhos mais impactantes de todos os tempos. Foi republicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2005 (a primeira vez foi pela editora Brasiliense em 1987).

E Maus ganhou um Pulitzer.

Realizada pela Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, o Pulitzer é uma premiação destinada aos trabalhos de destaque nas áreas de jornalismo, literatura e música. Há uma categoria especial chamada Special Awards and Citations, voltada para trabalhos de excelência, mas que não se enquadram nas categorias tradicionais. E foi nessa categoria que Art Spiegelman e sua obra foram homenageados em 1992. Pra ter uma ideia, já receberam essa homenagem Bob Dylan (2008) e Ray Bradbury (2007).



Watchmen é possivelmente a mais complexa e melhor história de super-herois já feita. Esqueça o filme, leia o quadrinho. E, em 2005, quando a Time lançou sua lista de 100 grandes livros da língua inglesa, Watchmen estava lá. E se você visitar a página ALL TIME 100 Novels, vai perceber que na lista geral há lá no fim um tópico chamado "graphic novels", onde estão listadas outras obras, como Blankets, Bone e Jimmy Corrigan: The Smartest Kid on Earth. Entretanto, de toda a lista de graphic novels, só Watchmen figura junto aos "livros de palavras". A razão disso é algo que só quem montou a lista poderia explicar.

E, no fim, é assim que funciona. Apesar de determinarmos parâmetros para um concurso ou uma premiação, o que determina o resultado final é a palavra de seus "juízes". A arbitrariedade ainda pesa bastante.

Ainda assim, quadrinhos não são um gênero literário... muito embora possam se apropriar de elementos literários e da linguagem cinematográfica. Mas isso é outro assunto...

7 comentários:

Juliana disse...

Acho que o equívoco se deve ao uso da linguagem escrita. Anyway, equívoco. Eu acho. Não consigo ter certeza absoluta. Concordo, mas fico pensando, por exemplo, nos dramaturgos que ganham Nobel de literatura. Porque não deixa de ser uma outra linguagem, mas já se convencionou chamar, e isso sem polêmica alguma, o registro escrito do texto de teatro de 'literatura'. Será que tem diferença? Será que já era um equívoco? E se uma obra de HQ pode ser considerada como literatura, ou as peças de teatro, por que não um roteiro de cinema? Ou ainda o próprio filme - que se for legendado passa a ter o mesmo tipo de registro verbal escrito? Fato é que os estudos Culturais já estudam tudo isso junto, mas julgar, como no caso de um prêmio, é complicado... Porque por mais que definir fronteiras às vezes seja pouco importante, julgar uma obra com base em parâmetros aplicados a uma outra linguagem pode levar a julgamentos ainda mais equívocados do que julgamentos já podem naturalmente ser. E como já diria o médico/filósofo/jogador de futebol/irmão do Raí, eu só sei é que nada sei.

Lídia disse...

mas que texto bacana, liber. =D
parabéns. gosto de pensar essas diferenciações tb.
maus foi um dos melhores livros de quadrinhos que li...
um beijo

liber disse...

Juliana

A verdade é que por mais que tenhamos estabelecido definições e parâmetros, sempre aparece alguma coisa nova, alguma coisa híbrida que vai bagunçar nosso coreto.

Eu tinha já pensado nessa questão da peça de teatro escrita. Mas daí eu é que não sei responder: teatro pode ser só a peça escrita, ou teatro é a peça, o texto, o ator, o diretor, o cenário, o conjunto todo?

Enfim... pensando sobre o que escrevi, tentar definir demais alguma coisa pode ser perigoso. Mas ainda acredito que quadrinhos e literatura não são a mesma coisa.

Bjs!

liber disse...

Lidia

Bom te ver por aqui! Maus, Watchmen, Sandman, tem tanta coisa bacana em quadrinhos... Eu adoro a área. Vamos ver se fazemos algumas coisas juntos. Parabéns pela Café Espacial.

Bjs!

marília disse...

Acho que o problema de ver coisas tão híbridas como o teatro - ou quadrinhos - dentro de parâmetros tão estritos é que você perde o detalhe mais legal dessas linguagens, que é exatamente essa capacidade de comunicar a mesma coisa de tantas formas.
Isso me faz lembrar Sarah Kane, uma dramaturga que eu amo, mas nunca tive a chance de ver uma montagem de um texto dela.
Ler o texto de uma peça é completamente diferente de vê-la montada, mas são duas experiências distintas que você pode aproveitar totalmente. Já Watchmen, por exemplo, depende de todo o pacote para uma experiência completa: você precisa do texto maravilhoso, daquela experiência visual linda, de todos os detalhes que o fazem ser uma coisa tão incrivelmente foda e, principalmente, o equilibrio perfeito entre tudo.
Acho que no fim é aquela coisa de saber escolher bem os critérios...

Buhler disse...

DAe liber, eu estou lendo atualmente varios quadrinhos :D

li primeiro o MAUS e é sem duvida mto foda!

outro que deveria estar na sua lista, é o Persepolis, que virou curta ano passardo se nao me falha a memoria

Buhler disse...

Ah sim li "Coisas frageis" do Neil Gaiman tem mais 3 livros dele, na estação da leitura do pinheirinho q vou pegar... logo q o fdp q os pegou os devolver =/

roubaram um dos livros do mochileiro das galaxias de la ¬¬ agora nao posso terminar de ler o a continuação até acahr um outro lugar q tenha o livro