terça-feira, março 15, 2011

Faz de conta

Ela fingia que era outra pessoa.

Falava palavras que não eram suas, falava cheia de desespero para ninguém, encarava com os olhos cheios d'água o vazio. Tremia, chorava sozinha, nua e fulgurante na escuridão.

Tudo mentira. Exceto pela nudez e escuridão.

Depois de palavras e palavras sobre dor, incerteza e desamparo, ela perguntou sobre a própria sina e encarou o vazio, esperando uma resposta.

E daí nossos olhos se encontraram, fixos, fundo um no outro.

Dois estranhos que se encontravam, uma sensação súbita de intimidade e assombro. A pausa entre as falas pareceu mais longa do que deveria. Como se chama isso? Dois estranhos se encontrando no meio de uma ficção?

E ela virou o rosto, retomou o personagem e seguiu com as palavras, nua.

Continuei sentado, fingindo que não estava lá, junto com os outros. Nós éramos o vazio em torno daquela moça, compactuando com ela.

E depois as luzes se acenderam pálidas, apagaram e finalmente se acenderam de novo, plenas, e o ritual acabou com aplausos.

Saímos todos juntos, fomos nos dispersando pelo calçadão, até ficar sozinho, caminhando para casa, pensando no vazio ao meu redor.

Um comentário:

Sil disse...

A melhor descriçao que me leva a imaginar um pesadissimo e incrivel monologo.
Sempre bom, sempre bom.