terça-feira, março 22, 2011

Surpreendentes

Lá pelos idos da década de 1980...

(pôta, lá vem uma daquelas histórias de velho...)

... tinha uma revista em quadrinhos chamada Superaventuras Marvel, que era publicada pela editora Abril. Histórinhas de super-heróis, sabe. Tinha muita coisa boa: Demolidor (a fase do Frank Miller), Pantera Negra, Conan. Era tudo coisa fina. Eu era guri e viajava nas páginas, ia longe com gente estranha de roupa esquisita que soltava raios pelas mãos e brigava com maníacos deformados.

E no meio desse mix, também tinha os X-Men.



Tempestade, Ciclope, Colossus, Garota Marvel, Noturno. E o Wolverine, é lógico. Eu vibrava. A galera no colégio vibrava. Era muito divertido, a gente se empolgava demais. E não foi só no colégio. Um pouco mais tarde, no segundo grau, galerinha saia pra festar de noite, bebendo todas, tocando o horror e daí, sentados no meio-fio, no finzinho da madrugada, às vezes a gente começava a falar da Saga da Fênix.

Acontecia que os X-Men, ao contrário dos outros grupos de super-heróis, não se mantinham unidos apenas pra "combater o mal". O lance é que eles eram mutantes: tinham nascido com seus poderes e eram vistos como aberrações e odiados pelas pessoas "normais". Os X-Men se mantinham juntos pra sobreviver num mundo que os odiava. Era uma história sobre preconceito, intolerância. Mas principalmente eram histórias sobre pessoas que encontravam amparo e amizade dentro de sua turminha. Pessoas que tinham umas às outras.

Essa questão da "turma", da cumplicidade, era o que batia forte na gente. Éramos adolescentes vivendo nos anos 80 e tínhamos toda aquela ladainha de pseudo-problemas: deslocamento, busca de identidade, necessidade de reconhecimento, confusão, rebeldia e blábláblá. Nos encontrávamos nas saídas pra bebedeiras, na curtição do rock, nas amizades que fazíamos. E de certa forma, os X-Men eram um alter-ego da turma. Deslocados, marginalizados, contando uns com os outros pra sobreviver.

Nessa época quem produziam as histórias eram Chris Claremont (roteiros) e John Byrne (desenhos). Foram eles os responsáveis pela tal Saga da Fênix. A mocinha Jean Grey tinha poderes telepáticos e telecinéticos. De repente, depois de uma sucessão de eventos, seus poderes tornaram-se praticamente ilimitados. "O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente". Era essa a ideia da Saga de Fênix: a mocinha Jean lutando pra não sucumbir ao seu lado sombrio, a Fênix Negra. E seus amigos, X-Men, a seu lado, dando suporte a cada momento.

Na época uma amiga nossa, da nossa turma, teve problemas com drogas. Ela não sobreviveu. Quando penso nela, quando pensava nela e em nossas conversas, eu sempre lembro da Saga de Fênix. No final, incapaz de lidar com suas próprias sombras, Jean Grey se suicidava. Mesmo com toda a ajuda de sua turma, ela não conseguiu.

Histórinhas de gente fantasiada e escapismo o cacete. Naqueles dias X-Men estavam muito mais próximos da nossa realidade do que nos dávamos conta.

Bom, o tempo passou, a adolescência também (eu acho) e os X-Men foram mudando. Surgiram novos personagens, novas tramas, tudo foi ficando maior e maior e mais confuso. E menos interessante. Novamente, os X-Men pareciam ser um reflexo da minha própria trajetória pessoal. A turma original se afastou. Embora a amizade permaneça, as coisas nunca mais foram como antes.

Perdi o interesse.

Isso sem contar que a Jean Grey ressuscitou. Essas coisas de gibi, sabe. Uma desculpa mirabolante e os personagens ressuscitam. Parando pra pensar agora, talvez eu tenha me desiludido muito com isso. Jean tinha voltado. Minha amiga não. Acho que foi aí que acabou o encanto e eu deixei os X-Men de lado.

Até que...

Em 2008 eu topei com uma encadernada chamada Surpreendentes X-Men, escrita por Joss Whedon e desenhada por John Cassaday. Depois de uma fase seguindo uma proposta mais adulta e sombria, pós-atentados do 11 de setembro, a série dos X-Men recebeu essa dupla com uma ideia bem ousada: dane-se o realismo e os problemas do mundo real, vamos nos divertir! Whedon foi o responsável pela série Buffy, a Caça-Vampiros. Daí queria ver qual era o lance.

E realmente me surpreendi. No melhor sentido possível.

A primeira coisa que Whedon propõe é o time se assumir como super-heróis. Daí saem os uniformes de couro, que lembravam o filme, e voltam os colantes coloridos. Outra coisa que Whedon faz muito bem é escrever ótimos diálogos, definir muito bem as personalidades de cada personagem e ganhar nossa simpatia. Diabos, Whedon consegue fazer a gente se empolgar e torcer pelo Ciclope!

Se você não conhece, o Ciclope é o cara do óculos vermelho, que dispara raios pelos olhos. Ele era o namorado de Jean Grey e sempre fez o papel de bom moço, líder da equipe, cara certinho. A maioria das pessoas que conheço acha o Ciclope um chato de galocha.

Nas histórias de Whedon, Jean Grey está morta (de novo) e Ciclope tá de namoro com Emma Frost, a Rainha Branca. Na época de Claremont e Byrne, a Rainha Branca fazia parte do Clube do Inferno, inimigos dos X-Men. Hoje ela luta com os mocinhos da história, mas carrega muito da personalidade "malvada". Aliás, tem uma pá de inimigos dos X-Men que depois se tornaram aliados: Magneto, Vampira, Dentes-de-Sabre, Fanático...

Daí que vem outra sacada do Whedon, a minha favorita: as referências constantes às histórias da década de 1980. Você não precisa ter lido essas histórias pra curtir o trabalho da dupla, mas é muito bacana encontrar ecos, homenagens, referências. Vou abrindo um sorriso atrás do outro e não é só a nostalgia que me faz feliz: Whedon pega o que tinha de melhor naquela época, refina, reaproveita. É uma remixagem muito feliz.

Por exemplo, no segundo volume da série, os X-Men são capturados e a única que escapa é Kitty Pryde, que é dada como morta. Lógico que a garota sobrevive. A história termina com ela num rio subterrâneo, determinada a dar a volta por cima e salvar seus amigos. O quadro é idêntico ao final de outra história, de trama exatamente igual, onde quem escapava era o Wolverine. Uma história publicada aqui no Brasil pela primeira vez lááá em novembro de 1984.




Além da nostalgia, esses X-Men também surpreendem por extrapolar nossas mais alucinadas expectativas. Por exemplo, privado de seus poderes, humilhado, completamente neutralizado, o "bom moço" Ciclope vale-se de métodos nada convencionais para um super-herói:


Ele enfrenta os caras na bala. O Ciclope enfrenta o Clube do Inferno sozinho. Na bala. MEU! Cara, é difícil dizer o quanto fiquei empolgado com isso. O Whedon cria toda uma situação, todo um conceito, toda uma empatia pelo personagem e de repente o joga numa situação desesperadora e surpreende totalmente. Empolgante. A mesma sensação que eu tinha quando era moleque sentado no meio-fio, comentando com os camaradas sobre como o Wolverine era foda, como a Saga da Fênix tinha sido sensacional.

E talvez nada disso seja grande coisa afinal. Nada genial como Watchmen ou Asterios Polyp. Ainda assim, é uma delícia. Um prazer que me faz lembrar de um monte de coisas, de pessoas, de uma outra vida.

Todos esses quadrinhos, todo esse papel colorido, todas aquelas canções bobas ganhavam outro significado entre risadas e delírios no asfalto da madrugada. O futuro era uma realidade alternativa, uma possibilidade assustadora e empolgante. As coisas pareciam fazer mais sentido, sabe?

É...

Hoje vou sair pra beber.

8 comentários:

José Aguiar disse...

Num mundo mais simples eles eram mais complexos. Naquele tempo eles viviam as aventuras por nós. Dá uma pitada egoísta de quando esses personagens eram só "nossos",quando cada aventura daquelas era um universo de possibilidades infinitas. Confesso que eu sempre achei o Ciclope um bom personagem. MAs os roteiristas sempre preferiram o Wolverine. Ele é mais fácil de escrever.

Anônimo disse...

Eu tinha este número do Superaventuras Marvel. Na verdade tinha desde a primeira que publicaram os Novos X-Men. Também me divertia horrores, naquele mundo de super-heróis.

Depois de uns cinco anos saí da adolescência, cresci (cresci?) e perdi o interesse pelos gibis mais convencionais. Atualmente ainda leio alguma coisa, mas só os alternativos.

Como disse o Zé, tenho saudades daquela época onde o complexo eram eles, e não o mundo que vivíamos.

Vida longa à Saga da Fênix Negra e aos X-Men, quando eles eram só nossos. :-)

Abraços!
Rodrigo Stulzer
transpirando.com

Carol Capellani disse...

Eu queria ter lido mais quadrinhos quando mais nova. Comecei depois de velha e mesmo assim nao li muita coisa. E confesso que prefiro mangás aos hq's. Mas tbm não conheço muito portanto não posso falar nada.

liber disse...

Carol

Pode falar muita coisa sim. O importante é ler e ter uma opinião. Pensar e gostar. Ou pensar e não gostar também tá valendo. ;-)

Obrigado pela visita e comentário!
abs!

liber disse...

Rodrigo e José

Um brinde, camaradas, aos bons e velhos tempos! Há!

Abraço!

Anônimo disse...

Salve Velho Amigo,

Eu nunca li muito gibi.

Mas, qdo assisti o filme Watchman, passei a gostar da parada.

Tô esperando para assistir o tal filme "The Priest", acho que vc já falou sobre o personagem.

[]´s
---
LVR

Ale disse...

Mto bom.
E seguem alguns pontos:
- Jean Grey morreu de novo (e ainda não voltou) no final da fase do Grant Morrison. A coisa segue mais ou menos a partir daí.
- O trabalho do Whedon é mesmo fenomenal, a melhor fase de X-Men nos últimos anos, ele tinha que voltar a fazer isso.
- Sempre gostei do Ciclope... ele é um personagem ótimo, mas nos anos 90 a maior parte dos escritores não conseguiu captar os meandros pitorescos da personalidade do personagem e ele foi virando cada vez mais esse "chato de galocha" que todos pensam. Whedon em seus 'surpreendentes' não mudou o personagem apenas resgatou o que já existia de bom nele dos tempos de Claremont e Byrne e trouxe a tona de novo. E fico mto feliz com isso.

José Aguiar disse...

Grande Liber, precisamos brindar dsobre eesa era antiga! Valia até gravar um podcast nostálgico sobre os "Xismeim"!