sábado, abril 16, 2011

Sobre o Tempo


Você já teve a impressão de que está perdendo tempo? Aquela ansiedade fodida de que não vai conseguir terminar tudo o que tem pra fazer?

Pior ainda: aquela sensação de que você está gastando tempo demais em alguma coisa completamente inútil? Você se sente como se estivesse preso a algo que não tem a menor importância pra sua vida?

O problema não é falta de tempo. O grande problema é o conflito de vontades.

De um lado a vontade apaixonada de fazer coisas "inúteis": escrever posts pro blog, textos aleatórios, desenhar sem compromisso, ler livros do Douglas Adams e do Philip Pullman, sair com os amigos entornar cerveja, passear por aí a esmo, garimpar vídeos e sites de ilustração, ler gibi, estudar cinema e animação, cochilar depois do almoço. E por aí vai...

Do outro lado, a obrigação de cumprir com nossos deveres. Alguns são totalmente razoáveis e justos (preparar aulas, corrigir trabalhos), mas tem aquelas coisas que a gente tem que fazer e nego fica se perguntando "como diabos entrei nessa?". Preencher formulários burocráticos, fazer intermináveis tarefas mecânicas estupidificantes e coisas assim. Coisas "úteis" que parecem não fazer a menor diferença pra ninguém, mas que se apresentam como "imprescindíveis".

Nesse vídeo bem interessante, o René de Paula explana sobre o tal tempo. Como aproveitá-lo? Como conseguir produzir mais?

De Paula fala sobre aproveitar o tempo em grau de minutos. Separar 10 minutos pra fazer um texto, por exemplo. Ou aproveitar as viagens de carro para gravar um vlog ou ouvir podcasts. Não qualquer podcast, mas podcasts bacanas, com conteúdo, "úteis".

Segundo ele, ninguém pode dizer que não tem tempo, afinal quantos minutos/horas as pessoas não gastam por dia com youtube, tweeter e facebook? Ele até sugere um programinha que ajuda a computar e controlar justamente isso. E se esse tempo fosse aplicado de outra forma?

O que eu acho mais interessante do discurso de De Paula é quando ele comenta sobre as noções circular e linear de tempo.

Basicamente, uns cinco séculos atrás, a noção de tempo predominante era circular. Amanhece, anoitece. Primavera, outono. Colheita, plantio. Coisas assim.

Daí veio alguém com a brilhante ideia do progresso. Ao invés de "ficar andando em círculos sem sair do lugar", vamos "andar em frente". De Paula fala sobre conflitos entre culturas mais "estacionárias" e culturas mais "expansionistas, progressistas".

Isso me lembrou de textos que li no mestrado sobre a origem do trabalho. Um deles falava sobre a dificuldade de se implementar a jornada de trabalho de segunda a sábado.

Antes das indústrias, a coisa funcionava mais ou menos assim: vamos dizer que você fazia sapatos. Então, você e toda sua família se juntavam e faziam sapatos alucinadamente durante três dias, dormindo pouco, trabalhando à noite sob luz de velas e tal.

Feitos os sapatos, você ia vendê-los. Com o dinheiro, você passava quatro ou cinco dias comendo e festando. Quando o dinheiro acabava, começava tudo de novo. Era assim que as coisas funcionavam.

Então um grupo de pessoas imaginou que isso tudo não fazia sentido. Oras, você trabalhava e gastava. Andava em círculos. Um círculo sem fim. Essas pessoas imaginaram que se você trabalhasse seis dias e folgasse um, ia gastar menos e ganhar mais. Acumular bens, riquezas, dinheiros. Progredir.

Essas pessoas perceberam ainda que se conseguissem convencer outras a fazer isso junto com elas, iam acumular mais riquezas ainda. E a ideia ficou mais bacana quando essas pessoas de espírito empreendedor perceberam que se conseguissem convencer outras pessoas a trabalhar POR elas, daí sim ia ser um esquema maravilhoso. Elas entravam com a "visão" e o "espírito empreendedor" e os outros entravam com a força de trabalho.

Sabe aquela frase "o trabalho dignifica o homem"? Pois é. Quem você acha que inventou essa frase: um patrão ou um empregado? Aliás, de onde você acha que surgiram todas as frases do gênero? "Deus ajuda quem cedo madruga", "O ócio é a oficina do Diabo" e outras.

Só pra constar: houve época em que "trabalho" era considerado um castigo dentro da Igreja Católica.

O fato é que houve um longo processo de educação e transformação cultural que ocorreu na Europa durante os séculos XVII e XVIII antecipando a tal Revolução Industrial. E daí começamos a compreender o tempo como "algo a ser gasto". Daí saímos do círculo e começamos a andar em linha reta.

Uma linha reta pra onde, gente?

De Paula comenta que há pessoas que perdem muito tempo em redes sociais e com bobagens na internet. Para ele, o conceito de "passar" o tempo não faz sentido. Oras, como assim ficar duas horas jogando playstation?

Meu ponto é o seguinte: não é só uma questão de vontades, acho que é uma questão de tipos e tipos de pessoas.

Tem as pessoas que são lineares sim. Objetivas, organizadas, persuasivas. Elas montaram o mundo pra se adequar ao seu estilo de ser. Elas estão sempre procurando algo mais, nunca estão satisfeitas. Aliás, para elas um sujeito "satisfeito" com o que tem é um sujeito "acomodado".

Eu acho que a grande maioria das pessoas é circular. Gostam de entrar no facebook porque gostam de fazer contato com outras pessoas. Como nas vilas de mil anos atrás, que você escapava das tarefas do dia pra prosear com os vizinhos e ficar vendo formas nas nuvens. Completamente inútil, mas totalmente humano.

Daí outro videozinho que caiu na minha mão. O filósofo Mário Cortella numa palestra falando sobre "a importância de quem somos nós". Que, considerando tudo, é basicamente nenhuma.



Por uma extraordinária coincidência, no mesmo dia em que assisti o vídeo do Cortella eu estava relendo o Mochileiro das Galáxias de Douglas Adams. A sintonia entre os dois é fantástica.

A gente se preocupa, consome-se em ansiedade com prazos, trabalhos e mil coisas. E quando olhamos pra trás, com uns dois ou três anos de distância, quantos desses trabalhos deixaram um significado real em nossas vidas? Quantos realmente fizeram a diferença?

O que é fazer a diferença?

É muito fácil se perder hoje em dia.

Mas cada um tem o seu caminho, seja linear, circular, espiral ou senoidal. Ou completamente irregular.

Quem pode dizer o que é certo na (sua) vida?

Os vídeos aqui apresentados (De Paula, Cortella e Johnson) foram encontrados nos meus momentos de vadiagem pela internet que, pra ser sincero, vão muito além de duas horas por dia. Achei algumas coisas no facebook e outras no google reader.

O vídeo do Steven Johnson fala sobre a questão das ideias. Aquelas tais ideias que transformam mundo e aquelas menos pretensiosas mesmo. Todas elas precisam de um tempo pra se fazer, pra madurar. A grande maioria delas não surge de um único e brilhante pensador, mas do trabalho de várias e várias pessoas.

A geração de ideias e o processo criativo não são coisas que podem ser enjauladas dentro de um cronograma.

Cada pessoa tem seu ritmo.



E mesmo quando você escreve um texto, um livro ou faz um desenho você não está trabalhando sozinho. Ali naquelas palavras ou traços está um bocado do que outras pessoas fizeram antes e que você guardou consigo.

Não estamos sozinhos.

E é isso.

Obrigado pelo seu tempo.


8 comentários:

HIroWatanabe disse...

Este texto me deixou com um sorriso no canto da boca.

Pois tive contato com todos esses vídeos, talvez ao mesmo tempo que você, mas não fiz absolutamente nada a respeito, a não ser dar um "RT" no Twitter ou "Share"no gReader.

Eu poderia ter escrito um texto sobre eles, na verdade cheguei a cogitar isso, mas acabei deixando de lado. Não foi por falta de tempo.

Pessoas lineares e circulares. Pró-atividade e preguiça são coisas naturais, inerentes so ser humano, ou conceitos artificiais herdados dessa visão progressista?

liber disse...

Obrigado, Hiro.

Inclusive, acho que alguns desses vídeos caíram na minha mão por sua causa. Então, obrigado em dobro.

O fato é que é difícil definir o que é útil ou inútil porque isso varia das intenções e do modo de ver o mundo de pessoa a pessoa.

É aquela velha história das diferenças e tal.

Acho que pró-atividade e preguiça podem estar numa mesma pessoa sim. Acredito que é tudo uma questão de ciclos.

Mas é coisa pra conversar horas e horas...

Grande abraço!

Rosana disse...

hehe, fiquei com preguiça de ver os videos, mas li o texto. Acabei descobrindo q eu e meu irmão somos meio antigões... A gente conversava sobre o tempo ideal de trabalho pro tempo de folga, como trocava facil trabalhar 10h/dia de segunda a quinta e folgar na sexta, ao invés das tradicionais 8/dia, e daih a conversa evolui pra trabalhar durante 20h segunda e terça e folgar o resto da semana. Trabalhar alucinadamente durante 2 dias, pra folgar 5. No caso do trabalho chato e burocratico dele faz sentido. Ja animar nesse ritmo não sei se rende... ;)

Anônimo disse...

Uma vez, quando era criança, vi um artigo numa Ele&Ela. Só vi mesmo, pois estava interessado em outras coisas, rsrsrs.

O título era "Pela Dignidade do Ócio". Engraçado que aquela frase nunca me saiu da cabeça, mesmo eu não sabendo o que significava "ócio".

Eu também quero me convencer que ficar vagando horas na Internet vai me trazer algo a mais para a minha vida. Não sei se terei resposta, mas vou curtir com dignidade estes momentos :-)

Abraços!
Rodrigo Stulzer
transpirando.com

Line!! x3~~ disse...

Maldita agonia quando você percebe que passou a hora de dormir e a lista de coisas a fazer não diminuiu o suficiente.

E sobrou menos tempo ainda para as coisas aleatórias que gostaria de fazer por você.
Só queria fazer minha mão ou começar minhas tirinhas... aquelas que tenho pensado já algum tempo. Mas não deu. De novo.

E amanhã tenho que levantar cedo para trabalhar. De novo.

:(

Mas a gente vai levando lol

Carol Capellani disse...

poxa, nem me fale em tempo. Eu aqui com a sua pagina aberta esperando ter um tempo pra comentar seu post, que por sinal muito bom! beijos

Jan disse...

Excelente post!

Jonas Lupus disse...

Professor...

Esse post foi fantástico!
Me ajudou bastante!
Muitissíssimo obrigado!

\o/