sexta-feira, abril 22, 2011

...you're older / Shorter of breath and one day closer to death

Engraçado é você deitar no sofá pra ler um gibi e de repente dar de cara com a sua própria mortalidade.

Hellblazer: Pandemônio.


No Iraque ocupado, um terrorista é capturado logo após um atentado sangrento. Ele é levado para interrogatório, mas as coisas não saem bem como o esperado.

Suportando toda uma dolorosa técnica de extorsão de informações, o criminoso não responde a nenhuma pergunta. Pior que isso, o cabra fede. Fede como uma carcaça podre, fede de um jeito impossível, um cheiro tão ruim que suja a alma de quem está em volta. Seus inquisidores enlouquecem, se suicidam, arrancam os próprios olhos.

Então, decidem entupir o terrorista de tranquilizantes e trancafiá-lo numa sala isolada. Percebem que pra interrogar esse sujeito, vão precisar de alguém com qualificações especiais. Alguém escolado em loucura e no horror inexplicável que brota da escuridão.

John Constantine, minha gente.

Esse cara é um dos meus personagens favoritos. Ele é como um investigador paranormal que anda por aí se envolvendo com os casos mais escabrosos. Demônios, fantasmas, serial killers. Magia negra da grossa.

Mas o mais legal com John Constantine é sua personalidade. Imagine um Bukowski que lidasse com exorcismos num mundo em que o diabo existisse de verdade. Malandro, cínico, inescrupuloso, vadio, beberrão, mulherengo e solitário. Fumante inveterado. E, ainda assim, bem lá no fundo, um sujeito muito gente boa. Íntegro.

Existe mais uma coisa bacana sobre John Constantine: ele envelhece em tempo real. Ao contrário dos outros personagens de HQ, os anos passam para ele no mesmo ritmo que passam para nós.

E eu estava lá, deitado no meu sofá, lendo o gibi Pandemônio (que, pra ser sincero, não é lá grande coisa), quando o Constantine visita o Museu Britânico e comenta: "Vinte anos desde a última vez que estive aqui... estudando sobre os dinka. No fim, acabei derrotando Mnemoth, a entidade da fome. Matei meu velho companheiro Gary Lester no processo."

Ei, eu me lembro disso! Eu estava lá! Essas coisas de fã, sabe. Você cata uma referência e sabe do que o carinha tá falando. Aquele orgulho que te faz sentir todo especial. Daí me dei conta de duas coisas: um, eu realmente estava lá e dois, isso faz vinte anos. Vinte anos.

(Eu me lembro da quantidade de pessoas que ouvi dizer "ah, fiz 25 anos, tou velha". HAHAHAHA!)

Mais de vinte anos atrás. Era dezembro de 1990. Era a primeira história solo de John Constantine, que saiu aqui na velha revista do Monstro do Pântano, pela editora Abril.

Gary Lester era um junkie viciado em drogas. Antigo conhecido de Constantine, Lester também conhecia um pouco de magia. Acidentalmente, acabou libertando o tal Mnemoth, o demônio da fome, na cidade de Nova York. A entidade fez uma série de vítimas até que Constantine conseguiu detê-la. O problema é que pra isso ele tinha que fazer um ritual que exigia um sacrifício. Alguém teria de servir de prisão e suportar o demônio até que ele consumisse a si próprio e seu hospedeiro. O escolhido foi Lester.

Gente, vou te contar. Essa história, Fome, ainda é uma das melhores que já li. O desenho, o texto, os eventos. Tudo era muito sombrio, tudo era deliciosamente medonho.

Dezembro de 1990 e eu estava lá.

Como eu disse, Constantine envelhece em tempo real. Ele nasceu nos anos 50. Teve uma banda punk nos anos 70. Mergulhou de cabeça no sobrenatural nessa época e a partir dos anos 80 começou a viver uma história de terror atrás da outra. Algumas memoráveis, outras completamente dispensáveis. Mais ou menos como certos dias e momentos da vida da gente, né?

Nas páginas de Pandemônio, Constantine tem 56 anos.

Fiz as contas e percebi que na história Fome ele tinha mais ou menos a mesma idade que tenho hoje.

E daí bate aquela sensação sombria de que o tempo está passando rápido, sabe. Ontem você estava no segundo grau, hoje já passaram 20 anos. Como naquela letra do Pink Floyd. ...you're older / Shorter of breath and one day closer to death.

Os garotos cabeludos que andavam comigo estão carecas, gordos, preocupados com as besteiras que seus filhos cabeludos estão começando a aprontar. Talvez ter filhos seja uma boa maneira de trapacear a morte. Continuar vivendo neles, quem sabe. Simbolicamente pode funcionar. Pra efeitos práticos, você vira adubo de qualquer jeito.

E naquela tarde, sentado num sofá, com um gibi na mão, eu me dou conta de uma maneira clara e assustadora que toda história tem um começo e um fim.

Felizmente, nossa cabeça nos protege. A sensação desaparece logo. Esqueço. Bebo, saio, ando por aí. Rio.

O riso pra combater as coisas frias que saem da escuridão.

3 comentários:

Anônimo disse...

...e cada vez o negócio acelera mais rápido.
O esquema então é aproveitar também na mesma velocidade! :-)

Abraços!
Rodrigo Stulzer
transpirando.com

José Aguiar disse...

Confrontar a própria mortalidade é algo estranho mesmo. Ainda mais quando descobrirmos que aquele momento passado não foi ontem. Foi ha mais tempo. Mas não deixa d ser um processo divertido. Com filhos ou não. Com cabelo ou não.:-)

liber disse...

É isso aí, gente. Vocês tem razão. O negócio é a diversão. Live, love, laugh. And fast! hehe!

Obrigado pela visita e comentários!

abraço!