domingo, maio 08, 2011

Vida

No leito ao lado um tumor cerebral começa lentamente a brotar pelos olhos do paciente. As perspectivas não são boas.

Todo o sofrimento do mundo, toda a mais absoluta crueldade do Universo parece estar contida naquele pavilhão.

Mas de quem é a crueldade? Quem, afinal de contas, aponta o dedo e diz: "Você: câncer. Você: degeneração neurológica progressiva. Você: alguma coisa ruim que ninguém diagnosticou ainda." De quem é esse dedo?

De ninguém, eu acho. As coisas simplesmente acontecem.

Causa e efeito, ordem no universo, justiça cósmica. Acho que tudo isso é invenção nossa. É crença arraigada. Pode até ser verdade, sabe. Tipo, "o que tiver de ser será", destino, sina e coisas assim.

Mas quando a gente olha uma criança que é paciente terminal... fica difícil acreditar que exista alguma inteligência por trás disso, entende? Só pode ser acidente, uma fatalidade. Porque, se não for, se houver um grande plano cósmico que envolva a morte agonizante de crianças...

Bom.

Independente de toda a dor, lá fora faz sol. Os carros passam na rua, as pessoas fazem suas tarefas apressadas.

Ainda é necessário entrar no trabalho na hora certa, conversar com os colegas, cumprir com as obrigações. E isso alivia, tira o hospital da cabeça, mesmo que por um momento.

Daí a gente sente satisfação por um trabalho bem feito ou conhece uma pessoa nova, linda, e de repente se pega sorrindo e sente uma certa culpa por isso.

A verdade é que crianças, mulheres, idosos e pessoas de todo o tipo, todo o sangue e cor, sofrem o tempo todo de todas as maneiras e o mundo não para.

Curiosamente, fantabulosamente, independente de toda a dor, a vida continua.

Um comentário:

camiLLa disse...

Sabe, isso me lembrou um filme com algo sobre isso (Love and Other Impossible Pursuits), de ir além pq a vida continua.. mesmo que algumas coisas pareçam não ter sentido durante ela.. o mundo não para [2]

E sabe, acabou lembrando algo que Caetano já cantava por aí -
"cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é [..]"