domingo, junho 12, 2011

Sobre viver

Ontem minha sobrinha recebeu alta do hospital.

Eu agradeço muito a todos que dedicaram um pensamento, uma oração pelo restabelecimento dela. Muito obrigado a todos vocês.

E também gostaria de explicar o que significou tudo isso.

Um dia passei na casa da família e a Gabi não estava respirando direito. Tinha sido diagnosticado pneumonia, mas a pediatra disse que não era grave, era assim mesmo, dava pra cuidar em casa.

Pneumonia não é grave?, pensei. Mas a mulher é pediatra e eu sou quadrinista e cada um sabe das suas coisas.

Eu sei que dois dias depois fiquei sabendo que a Gabi tinha sido levada de urgência pra uti do Pequeno Príncipe. E mais tarde fiquei sabendo que já tinha passado muito da hora dela ser internada.

Em um primeiro momento fiquei tranquilo. O Hospital Pequeno Príncipe é um dos melhores, a melhor equipe, o melhor equipamento. A menininha estava no lugar certo.

Daí passaram duas semanas e ela continuava na uti. E eu continuava tranquilo. Achava que era questão de tempo.

Um sábado de tarde meu irmão me ligou e disse pra eu correr pro hospital, que a menina estava sangrando. E estava. Hemorragia nos dois pulmões.

Encontrei meu cunhado, minha mãe. Uma sensação de irrealidade, uma angústia grande demais pra ser descrita no rosto dos dois. Sei lá como, entrei na uti e vi a Gabriela.

A Gabi tem um ano e cinco meses.

A cor dela era a cor que eu tinha visto nos mortos da família, deitados em seus caixões. Foi exatamente isso que eu pensei na hora que olhei pra ela. Mas ela estava de olhos abertos, olhos esgazeados, virando de um lado pra outro, olhos de quem tenta respirar e não consegue. A cabeça, os braços se agitavam. Mas os braços estavam amarrados na cama com faixas de gaze. A barriga estava inchada demais. Duas enfermeiras em volta literalmente bombeavam o sangue dos pulmões. Uma bolsa de sangue pendurada tentava repor o que a menina perdia. E o monitor, um daqueles monitores famosos da série do House, fazendo barulhinhos e tudo, e o que me chamava atenção era um número que diminuia devagar: 45, depois 42, 40, 38... Mais tarde eu descobriria que essa era a quantidade de oxigênio no sangue e que se estiver abaixo de 90 já requer cuidados imediatos. Uma enfermeira pediu pra eu sair.

No corredor, meu cunhado conversava com uma médica. Uma doutora novinha, cara de moça, dessas que eu vejo nas aulas todos os dias. Cara de moça assustada. Não lembro mais do que ela falou, lembro do que ela não falou. Ela não disse que a Gabi ia ficar bem. A moça, a jovem doutora tinha na cara a expressão da pessoa que não tem absolutamente nada de bom pra dizer. Aquela expressão de aflição e impotência, que com a experiência ela talvez perdesse ou aprendesse a esconder. Basicamente, a Gabriela estava morrendo.

Minha irmã não conseguia chegar no hospital. Meu cunhado sentou nas escadas chorando. E eu imaginava o funeral, o nome escrito na lápide, como diabos a gente seguiria em frente depois dessa. Você não faz ideia da sensação de impotência, você não faz ideia do que aconteceu lá. Não cabe em palavras.

Há pessoas que não acreditam em Deus. Eu mesmo gosto de me definir como agnóstico. Ou gostava.

Minha mãe disse que tinha uma capela no quarto andar. Subi, me ajoelhei e rezei. O desespero, aquele desespero de verdade, é uma situação única e muito interessante na vida. Sua cabeça funciona de um jeito completamente diferente. Tudo parece ter uma dimensão diferente. Eu poderia descrever toda minha experiência religiosa naquele momento, mas isso é coisa minha.

Oras, como alguém pode ter certeza de que existe alguma coisa lá em cima e que essa coisa pode ouvir e talvez atender nossos pedidos em uma hora de desespero? É ilógico. Não faz sentido.

E, no entanto, minutos depois veio a notícia de que a hemorragia tinha parado. Os pulmões pararam de sangrar.

Passei uma noite de vigília na capela.

A situação da menina continuou gravíssima por mais uns dias. Assim, de repente, ela podia morrer. Quando se é um idoso, acho que dá pra aceitar isso melhor. Mas uma menina que nem sabe falar direito... doía muito imaginar que ela não ia brincar, crescer, sair. Poder reclamar das mesmas coisinhas bestas que todo mundo reclama no twitter.

Minha irmã comentou que as enfermeiras se envolvem e criam laços com os pacientes. Mas tomam cuidado de se afastar dos casos mais graves, pra que os falecimentos não sejam tão sentidos. Por um tempo as enfermeiras se aproximavam da Gabi só pra fazer os cuidados necessários, mantendo a "distância segura".

Aos poucos ela foi se estabilizando. Pequenas melhoras.

O outro momento tenso e decisivo foi uma cirurgia, uma semana e meia depois da hemorragia. Uma parte do pulmão da menininha estava necrosada e precisava ser removida. A cirurgia durou quatro horas. Tudo correu bem e a partir daí ela começou a melhorar de forma gritante.

No trigésimo nono dia de uti, ela saiu. Foi para um apartamento. 44 dias depois de entrar, ela saiu do Pequeno Príncipe.

Por isso, quando eu digo obrigado a todos vocês, eu realmente quero dizer obrigado.

Olha o cartazinho que fiz pro pessoal do Pequeno Príncipe:



Durante todo esse tempo eu aprendi um monte de coisas.

Tem coisas sobre as quais a gente realmente não tem controle nenhum. Podemos estar aqui agora e amanhã podemos não estar mais. Esse é o tipo de coisa que todo mundo sabe, mas não sente de verdade até passar por uma situação dessas. Aí se percebe que a vida humana é frágil demais.

Saber algo não é o mesmo que sentir algo.

E, principalmente, nós não estamos sozinhos, nós não somos especiais. A todo momento, ao olhar para o lado lá no hospital, eu via gente numa situação igual ou mesmo pior que a nossa. Às vezes uma criança morria e a gente podia sentir a dor da família. E a força também. Conversas de corredor, histórias impressionantes... nunca me senti tão próximo das pessoas quanto lá.

Quando fui ao hospital ontem, ia alegre, ia pensando "que bom, a Gabi tá saindo". Mas já na calçada, vi e passou por mim uma mulher. O jeito como ela chorava, sem soluçar, só limpando as lágrimas e os olhos, aquela sensação de dor, de desamparo. Outra criança, outra história.

Tem muitas coisas vividas desses dias. Muitas pessoas que conheci e que talvez eu nunca mais veja. Espero um dia poder trabalhar com isso, produzir alguma coisa sobre tudo isso.

E a vida continua. Daqui a pouco vou lá almoçar com a família, ver a Gabi sentadinha na cadeirinha dela na cabeceira da mesa. :)

A vida continua, mas espero que eu consiga guardar algo do que aprendi. Espero que tudo isso me ajude a dimensionar melhor as coisas. Talvez viver melhor.

Quem sabe?


12 comentários:

Simão Augusto disse...

Liber, fiquei sem palavras depois de ler seu texto. Uma mistura estranha de sentimentos.. Ainda assim, a intenção era a de dizer palavras bonitas e confortantes.
Tenho acompanhado seus posts desde a primeira notícia desse problema, e cá estou eu agora podendo comemorar também!
Parabéns para a Gabi que venceu essa batalha, e parabéns à todos da família (e do hospital) que a ajudaram a lutar. Valeu Liber.

Gheysa disse...

Fiquei muito feliz em saber da boa nova! Com certeza a família foi abençoada e uma luz voltou a brilhar no mundo.
Hospitais são lugares tristes.
Se puder aproveitar o momento de fé, que ainda deve estar presente, envie um pensamento positivo, ou uma oração pro meu afilhado também, descobrimos há duas semanas que ele está com insuficiência renal (o caminho é hemodiálise e transplante). Ele não é tão criança, mas tem apenas 22 anos e uma vida toda pela frente.
Obrigada!
Abraços!

Leleca disse...

Ó, você não pode fazer isso com uma grávida cheia de hormônios, tá entendendo? Porque sempre fica meio jacu quando a gente chora lendo coisas na internet.

Fiquei muito feliz pela mocinha Gabi. :)

Karina disse...

Amigo, chorei bicas ao ler seu texto. Felicidades para a Gabi.

Um beijo no seu coração,

K.

liber disse...

Muito obrigado, gente.
De coração.

Anônimo disse...

Parabéns Liber, lindo texto!

E vida longa à Gabi!

Abraços!
Rodrigo Stulzer
transpirando.com

Rô(saninha) disse...

Que bom que deu tudo certo!
Curta muito a sobrinha fofa agora :D

bjao

Marília Ribas disse...

Que a sua sobrinha tenha uma vida feliz ^^

M. disse...

FELIZ! de verdade :)

beijo!

glauber gorski disse...

Não temos finais felizes em nossas vidas. Nunca. Ainda mais quando não é a nossa própria vida. Mas podemos ter um "intermezzo" bem longo e agradável - que o fim da tua sobrinha seja muito depois do nosso, mais velhos que ela. Ao menos assim poderemos nos sentir num mundo mais justo. Abraço.

Filipe Malafaia disse...

E aí, Liber! Descobri seu blog por acaso, em uma pesquisa de imagens pelo cartaz de Sucker Punch e acabei ficando e lendo outros posts. Este me chamou a atenção já pelo título, e fiquei muito tocado por suas palavras. Graças a Deus que houve um milagre na vida de sua sobrinha. Se algo de bom você pode tirar dessa situação, é o dar valor à vida, a tudo o que a cerca e que a torna algo digno. Parabéns pelo blog!

liber disse...

Olá!

Mais uma vez, muito obrigado a todos pelas palavras.

Abraços!