quinta-feira, julho 21, 2011

Coisa de Criança

Uma ideia que voltou à baila nessa Gibicon foi a ideia de que quadrinhos são coisa pra crianças.

Sim, eles são. Também. Assim como o cinema e a literatura. Existem filmes para crianças, existem livros para crianças, e eles são ótimos.

Mas quando você diz que gosta de cinema ou de literatura, ninguém te olha com um sorriso engraçadinho e diz: "nossa, mas você já não tá bem crescidinho pra isso?".

E vamos lá explicar que além da Turma da Mônica e de Pato Donald, também existem nos quadrinhos Maus, Asterios Polyp, Três Sombras, Kiki de Montparnasse, Retalhos, Cicatrizes, Umbigo Sem Fundo, Cachalote, Ordinário, Fun Home, Parker, Corto Maltese... e posso seguir com a lista bem além, sabe?

Ainda assim, há uma insistência nessa abordagem de certos jornalistas e da mídia. São muitas as matérias que começam dizendo "quadrinho não é coisa de criança" como se fosse uma grande novidade.

Outro dia eu estava lendo uma matéria sobre a Flip e o sujeito fazia seu balanço pessoal, dizendo o que tinha sido bom e o que tinha sido ruim no evento. Ao comentar que considerou constrangedora a apresentação do autor James Ellroy, esse cronista mencionou que achava os leitores de romance policial e de histórias em quadrinhos "imaturos".

Afinal, a verdadeira e elevada literatura é algo que requer maturidade psicológica e espiritual, enquanto que quadrinhos e romances policiais são coisinhas divertidas, mas indignas da atenção "adulta". Certo?

Essa é a ideia que certas pessoas tem a respeito não só de quadrinhos, mas de muitas outras formas de expressão.

Esse é o tipo de coisa que está mudando, é o tipo de ideia e mentalidade que está sendo deixada pra trás.

A última mesa de discussões da Gibicon reuniu uma série de editores que trabalham com quadrinhos no mercado brasileiro. Entre eles: André Conti (Companhia das Letras), Sidney Gusman (Maurício de Sousa Produções), Guilherme Kroll (Balão Editorial), Sergio Chaves e Lidia Basoli (Café Espacial) e Claudio Martini (Zarabatana Books).



Uns estão bem consolidados no mercado, outros estão trabalhando com as chamadas publicações independentes, focados em nichos de público bem definidos. Todos concordam que a procura por histórias em quadrinhos está maior e mais estável do que nunca. Todos concordam que não é uma tendência passageira e que dificilmente teremos uma reversão nesse quadro.

Adultos estão comprando e lendo histórias em quadrinhos. Quadrinhos vendidos em livrarias, em volumes únicos, ao lado de outros livros. Como entretenimento, como cultura, sobre os mais diversos temas, com as mais diversas visões e perspectivas. Instigantes, curiosos, cheios de energia. Quadrinhos.

Trata-se de uma linguagem que ainda tem muito a ser explorada. E eu acho empolgante o momento atual, em que tantas pessoas interessantes estão descobrindo essas possibilidades.

Em determinado momento, na Gibicon, um amigo me perguntou: "Fala pra mim, por que as pessoas têm que ler quadrinhos?".

Na verdade, as pessoas não têm que ler quadrinhos. As pessoas não "têm" que fazer nada. Elas não "têm" que ler Machado de Assis, nem Guimarães Rosa, nem Paulo Coelho, nem Daniel Galera, nem Harry Potter. Pessoas não "têm" que assistir filmes de Godard, Hitchcock ou Michael Bay. Pessoas não "têm" que ter determinada opinião ou gostar disso ou não gostar daquilo.

Mas acho que as pessoas não deviam se privar de pelo menos experimentar ter contato com novas ideias, novas linguagens.

A gente tem muito pra viver e curtir nesse mundo.

Cheers.

3 comentários:

Kiara disse...

Foi muito bom assistir a esse debate! Realmente, o momento está ótimo para os quadrinhos. Lê-los ou gostar deles não é uma questão de "ter que", mas um prazer. Temos que celebrar o crescente número de pessoas descobrindo esse prazer.
Bom post! :)

liber disse...

É isso aí! =)

Obrigado pela visita e comentário!

Abs!

Leleca disse...

Eu tou meio atrasada nesse comentário e, na verdade, só vim aqui me repetir, hahahaha. O problema desse povo quadrinho-é-coisa-de-criança é que eles se levam a sério demais. E esquecem que, no fim, o que importa mesmo é a diversão. Amadores.