sexta-feira, julho 22, 2011

A Gibiteca de Curitiba

Em 2009, o diretor argentino Juan José Campanella dirigiu um filme espetacular chamado El Secreto de Sus Ojos. Em um dos diálogos mais inspirados da obra, o personagem Sandoval (interpretado por Guillerme Francella) destaca-se ao falar sobre “paixão”. “Um homem pode mudar tudo”, diz Sandoval. “Pode mudar sua própria cara, seu endereço, pode mudar de família, de partido, de religião. Mas tem uma coisa que o homem não pode mudar: sua paixão”.

E paixão é uma palavra importante para entender a Gibiteca. Paixão e, obviamente, quadrinhos.

A ideia de uma biblioteca dedicada exclusivamente às histórias em quadrinhos era novidade na época. A Gibiteca de Curitiba foi a primeira do tipo no Brasil, inaugurada em 15 de outubro de 1982. Bem antes disso, ainda em 1976, cartunistas, desenhistas, colecionadores e fãs de quadrinhos já tinham lançado a ideia e buscavam alguma maneira de concretizá-la, junto à prefeitura da cidade. Os arquitetos Key Imagire Jr., Domingos Bongestabs e Abrão Assad elaboraram projetos de possíveis sedes para a Gibiteca, que por razões orçamentárias não foram concretizados. A princípio, a Gibiteca foi abrigada numa loja da antiga galeria Schaffer e mais tarde, em 1988, transferida para o Centro Cultural Solar do Barão, onde se encontra até hoje.

Mais do que um local de leitura de histórias em quadrinhos, a Gibiteca tornou-se um ponto de encontro, um espaço público onde as pessoas podem trocar ideias sobre suas obras favoritas, conhecer novos autores e mesmo encontrar inspiração e apoio para começar sua própria carreira.


Oficina de Histórias em Quadrinhos

José Aguiar atua profissionalmente como quadrinista há mais de 15 anos. Ao longo desse tempo, participou de diversas publicações, como a curitibana Manticore, vencedora do troféu HQ Mix em 1998, e o recente livro MSP 50: Maurício de Sousa por 50 Artistas. É responsável pela autoria de álbuns lançados no Brasil e Europa, ganhou prêmios e atualmente está desenvolvendo diversos projetos em quadrinhos, incluindo sua série de tiras Folheteen.

“Eu sou filho da Gibiteca”, diz José. “Passei mais da metade de minha vida frequentando-a. Lá eu descobri obras e autores que nem desconfiava que existissem. Fiz oficinas com diversos professores como Claudio Seto, Paulo Neri, Luis Gê... Mas o mais importante é que encontrei outras pessoas que, como eu, curtiam quadrinhos. Formamos um grupo que passou a fazer histórias, fanzines e exposições. Foi o começo de meu engajamento nos quadrinhos. Foi lá que acreditei que era possível fazer e viver do que gosto.”

A importância da Gibiteca como local de convívio social é inegável. Maristela Garcia, coordenadora do espaço, comenta que os dias mais agitados são os sábados. Muita gente aparece para frequentar os cursos de quadrinhos oferecidos. “Pode estar chovendo canivete que o pessoal não deixa de aparecer”, conta Maristela. Jogadores de RPG e cardgames, representantes do Conselho Jedi Paraná e Conselho Steampunk Paraná também se reúnem no local, partilhando sua curtição pela ficção científica e pelo fantástico.


Maristela Garcia

Durante a semana o movimento é mais tranquilo. Os cursos de histórias em quadrinhos também acontecem às segundas, quartas e sextas-feiras. Crianças visitam a Gibiteca acompanhadas dos pais ou em visitas supervisionadas de escolas. Segundo Maristela, “o que a meninada mais lê é a Turma da Mônica. Vão direto na estante e praticamente pegam tudo. Também gostam muito de mangá e super-heróis.”

As estantes da Gibiteca são organizadas por temas. Cobrindo toda uma parede ficam as histórias em quadrinhos infantis. Outras estantes abrigam super-heróis, mangás, autores nacionais, álbuns europeus, ficção científica, terror. Aliás, Maristela lembra que as crianças também gostam muito das revistas de terror: os títulos antigos lançados pelas editoras Ebal e RGE.

Entretanto, a maioria dos frequentadores são adolescentes e adultos. Entre estes são muito procurados os títulos como Sandman, com roteiros de Neil Gaiman, bem como as obras de Alan Moore, Robert Crumb, álbuns e mini-séries.

Um aspecto muito interessante e positivo é a renovação de leitores, que acontece naturalmente. As crianças vêm acompanhadas de seus pais ou escolas e começam a tomar interesse pela leitura das histórias em quadrinhos. Mais tarde, iniciam-se nos cursos de produção. Aqui se ressalta a importância da Gibiteca na formação de seus alunos. Muitos dos antigos frequentadores tornaram-se ótimos profissionais das áreas de quadrinhos, ilustração e design, como Antonio Eder, Rômolo, DW, Rafael Silveira e André Caliman.

O acervo da Gibiteca inclui obras antigas e raras, sendo uma boa base de referências para pesquisas acadêmicas. O livro Iracema: Imagens de uma Lenda, produzido pelo governo do Estado do Ceará, procurava reunir em suas páginas um registro visual de todas as adaptações do romance de José de Alencar. Uma delas era a versão em quadrinhos lançada na coleção Edição Maravilhosa, publicada pela editora Ebal em 1951. O único local do país que possuía esse exemplar era a Gibiteca de Curitiba. O material foi digitalizado com alta qualidade e enviado para Cláudia Albuquerque, coordenadora e editora do livro.

Os exemplares antigos e raros são guardados em armários especiais. Só podem ser acessados mediante permissão da coordenação da Gibiteca. Esse material é um importante registro da história gráfica e cultural de nosso país e serve de apoio para diversas pesquisas acadêmicas. Temos como exemplo o trabalho de Luciano Ferreira da Silva. Em seu mestrado, ele estudou as revistas Próton e Neuros, publicadas pela extinta editora paranaense Grafipar entre 1979 e 1981. Sua pesquisa procurava analisar a representação da tecnologia e ciência apresentada nessas revistas.

“O material oferecido pela Gibiteca foi muito importante para meu trabalho”, diz Luciano. Ele agradece muito à Maristela Garcia e Nereide Custódio. “O acesso é bom, as funcionárias entendem muito de quadrinhos e colaboram com a pesquisa, dando dicas de títulos, datas, material de acervo. Elas conhecem tudo de cabeça, dão dicas na hora, sabem onde encontrar cada revista e publicação dentro do acervo gigantesco”.

Docente do curso de Design Gráfico da UTFPR, Luciano teve a oportunidade de orientar diversos trabalhos de graduação dedicados aos quadrinhos. Um desses trabalhos foi a produção de um site para a Gibiteca, desenvolvido por Eliel Cezar. Eliel conta que decidiu desenvolver esse projeto devido à importância que a Gibiteca teve em sua formação. “E também por perceber a oportunidade de fazer algo útil e assim retribuir tudo o que a Gibiteca fez por mim”.

“Meu trabalho de graduação foi o desenvolvimento de um site para a Gibiteca”, diz Eliel. “O grande diferencial seria a disponibilização do acervo da Gibiteca online. Não para leitura, mas para pesquisa. Assim, qualquer pessoa poderia pesquisar se a Gibiteca possui uma determinada obra. O site previa uma seção de buscas bastante detalhada, com filtros por período de publicação, título, gênero, autor, editora, etc. A ferramenta seria útil para todos, especialmente para pesquisadores e/ou professores. A Gibiteca possui diversas obras raras, mas quase ninguém sabe que elas estão lá”. Por questões técnicas, o site ainda não foi implementado. Atualmente, a Gibiteca conta com um blog, atualizado pela própria Maristela.

O espaço também é palco de projetos criativos. Fúlvio Pacheco, quadrinista e professor dos cursos de histórias em quadrinhos da Gibiteca, coordena um interessante trabalho em parceria com o Ateliê de Gravura do Solar do Barão. Com o auxílio de alunos e ex-alunos, está produzindo um álbum de histórias em quadrinhos chamado Notas Fúnebres. O aspecto curioso é que o processo de impressão será feito utilizando a técnica de litografia. Muito utilizada comercialmente durante o século XIX e até o início do século XX, a litografia caracteriza-se por usar como matrizes de impressão blocos de pedra. Esse processo daria origem à impressão offset, hoje empregada em larga escala na indústria gráfica. O álbum apresentará histórias de terror sobre lendas urbanas e será impresso no Ateliê de Gravura do Solar do Barão.


Matrizes litográficas

Prestes a completar 30 anos, a Gibiteca de Curitiba já enfrentou diversas dificuldades ao longo de sua história. Ao ser instalada no Centro Cultural Solar do Barão, em 1988, chegou a ter um andar inteiro a sua disposição, com salas para exposição, leitura e abrigo do acervo. Em 1998, a Gibiteca foi realocada para um pequeno galpão, liberando espaço para o Museu da Fotografia. Por algum tempo, não teve verbas para investir em renovação do acervo, manutenção, eventos ou sequer horas extras para os funcionários. Nessa época, foi a boa vontade de funcionários, professores e frequentadores que manteve o espaço. Daí se percebe que um espaço cultural legítimo é feito essencialmente pela presença de um público genuinamente interessado.

Hoje a situação está melhor. Maristela conta que as verbas para atualização de acervo são pequenas, mas existem. As estantes antigas de madeira, cheias de cupim, foram substituídas por novas de metal. Foram adquiridas novas mesas, televisão e aparelho de DVD.

Entretanto, para José Aguiar, a Gibiteca enfrenta os mesmos problemas de sempre: “Salas inadequadas e com dimensões insuficientes para abrigar todas as atividades que realiza. Há uma precária manutenção do acervo de originais e edições que precisam de ambiente climatizado. Também fazem falta equipamentos de informática modernos e sala de aulas e leitura mais confortáveis para o público”.

José conclui: “Trata-se de um dos espaços públicos mais ativos dos últimos 30 anos, formador de artistas e fomentador de exposições e eventos de RPG, mangá, ficção científica e outros. Se com pouco a Gibiteca sempre fez tanto, imagine com recursos melhor aplicados”.

A Gibiteca fica na Rua Carlos Cavalcanti 533, no Centro Cultural Solar do Barão, em Curitiba. O horário de atendimento é de segunda a sexta-feira das 9h às 12h e das 14h às 18h30. Aos sábados o horário é das 14h às 19h. Para maiores informações ligue para (41) 3321.3250 ou escreva para gibiteca@curitiba.org.br.

(Texto e fotos: Liber Paz. Matéria escrita originalmente para o Informativo Café Espacial Expresso nº3, lançado na Gibicon em julho de 2011).

4 comentários:

Rodrigo disse...

Eu conheci quando era lá na Schaffer! :-)

Abraços!
Rodrigo Stulzer
transpirando.com

liber disse...

Eu só fui conhecer lá no Solar mesmo... mas quando ainda era no andar de cima. Era bem bacana...

abraço!

Candinho disse...

Ótima "matéria", hahahahahahaha. Eu era frequentador assíduo; cheguei até a fazer o curso básico de hq. Aquele é realmente um lugar mágico! Mas acho que a Gibiteca está mesmo precisando de um espaço mais adequado, onde o acervo fique melhor acomodado e as pessoas que visitam possam ler e apreciar com mais conforto.

José Aguiar disse...

Excelente texto! ëe muito bom fazer parte dessa história. Ajudar as engrenagens a girar! Obrigado por dar voz a esses fatos tão imortantes, meu velho!