terça-feira, agosto 23, 2011

Deixar vestígios

Dia desses, nesse mesmo agosto, estava eu no bar e amigo meu me disse:

"Você não tem que fazer nada."

Falou por cima do copo, por cima das garrafas, falou pra mim cortando minha fala. E eu não estava só falando, eu metralhava sobre coisas que tinha visto, coisas que tinha lido, sobre ideias que me assustavam.

Sobre perda de tempo, sentir a vida se escoar e não estar produzindo nada. Sobre não ter nem chegado perto de tentar realizar aquelas fantasias de juventude que nos acompanham e sempre deixamos pra amanhã, pra semana que vem.

Fantasias do tipo escrever e publicar um livro, compor canções e gravar um disco, desenhar e ver impressa uma história em quadrinhos. Esse tipo de coisa que todo mundo pensa em fazer, em deixar uma marca, um vestígio para ser encontrado em prateleiras de livrarias, sebos, bibliotecas ou em blogs largados por aí.

Muitos textos, videologs e coisas assim sobre pessoas que falam sobre não perder tempo, sobre manter disciplina e produzir e fazer as coisas acontecerem. Algo como fazer um desafio a si mesmo e cumpri-lo, como aquele carinha que desenha todo dia um monstro diferente ou aqueles outros caras que se propuseram a criar e ilustrar 300 personagens no espaço de um ano ou ainda aqueles malucos que inventaram de desenhar um ornitorrinco diferente por dia até completar 100.

Tudo isso acontecendo e eu deixando a vida me levar, só sonhando e protelando. Procrastinando (ah, palavrinha da moda). Eu precisava fazer alguma coisa, me impor uma rotina, um desafio, qualquer coisa pra produzir, pra tentar começar a fazer algo que me levasse a deixar algum vestígio que prestasse. Não havia tempo a perder e

Era tudo isso que eu estava falando sem parar, sem respirar, ali no bar, quando meu camarada entornou num gole a batida de maracujá e me interrompeu com:

"Você não tem que fazer nada."

E foi meio estranho. Fiquei sem palavras. Pasmado. Era pra desistir? Pra me omitir? Ficar de braços cruzados? Abraçar a passividade?

"Não. Você só não tem que fazer nada. Não faça as coisas por obrigação. Obrigação de publicar, de se mostrar. Essa não é uma motivação digna. Faça as coisas por gosto. Faça porque você quer."

Sabedoria de bêbado.

Calei a boca aquela noite e tenho ficado quieto desde então.

Ruminando.

5 comentários:

kira disse...

eu acho que eu tava presente esse dia...

Jonas Lupus disse...

Então.
Eu entendo isso perfeitamente,

Pior que é verdade.

"Não faça as coisas por obrigação. Obrigação de publicar, de se mostrar. Essa não é uma motivação digna. Faça as coisas por gosto. Faça porque você quer."

Não produzi nada desde que entrei pra universidade.
Não tenho vontade.

Enfim, logo ela vem.
:]

Anônimo disse...

Quando a gente faz o que gosta, a gente faz o nosso melhor :D

Ang disse...

Amei esse texto, era algo que precisava ler!

Anônimo disse...

Eta bêbado inteligente! ;-)

Abraços!
Rodrigo Stulzer
transpirando.com