domingo, agosto 28, 2011

Sobre Chico Buarque

Não sou muito ligado em música. Nunca fui. Não é a minha área.

Quero dizer, escuto música, mas não sou aquele cara que conhece a obra completa de alguma banda, sabe das histórias por trás dos bastidores e coisas assim. Escuto música e só.

Daí, recentemente, tive um surto de Chico Buarque.

Comprei, uns meses atrás, aquela coleção da Abril que trazia vinte CDs do carioca. Escutei uns e deixei a maioria encostado.

Dia desses comecei a ouvir, mais e mais, de novo e de novo, prestando atenção nas letras e lendo os livros que contavam um pouco sobre a produção de cada álbum.

Negócio com Chico Buarque é que o homem é extremamente bom no que faz. Algumas das músicas são simplesmente irretocáveis, coisa muito fina, obra consistente.

Meus favoritos são os dos anos 70. Construção e Meus Caros Amigos são excelentes. Gosto muito de Calabar. Não curto tanto Sinal Fechado porque sinto que não é um álbum verdadeiro do Chico. Ele faz os arranjos e dá interpretações, mas só tem uma composição de sua autoria, Acorda Amor, que ele ainda assinou com pseudônimo pra driblar a censura.

Depois ouvi Vida, que foi lançado em 1980. Tenho certeza de que já tinha ouvido as canções Morena de Angola e Fantasia quando eu ainda era criança. O álbum me bateu forte, me fez lembrar de coisas que há muito estavam perdidas na memória. E eu gostei muito.

Dos anos 80 ainda tem Almanaque e Vai Passar, que eu realmente curto. Acho que os outros álbuns lançados depois desses são legais, mas não tanto. Penso que isso se deve ao mergulho de Chico na literatura. A atenção criativa se focou nas letras, sei lá.

Ah, e teve a minha descoberta dos três primeiros álbuns, que eu relutava em escutar porque achava que o som não tinha nada a ver comigo. Mas fui ouvindo, ouvindo e acabei me encantando. Lançados entre 1966 e 68, os Chico Buarque de Hollanda volumes 1, 2 e 3 tem uma sonoridade que não existe mais. Uma pegada bacana, nostálgica e ao mesmo tempo atemporal. Melancolia e beleza.

Enfim...

Comecei a procurar coisas sobre o Chico. Queria saber mais principalmente sobre o processo criativo desse cara. O que ele pensava, como ele escrevia e tal.

Comprei um dvd com uma entrevista dele gravada em 1973 pra tv Cultura. Foi interessante mas eu queria mais.



Daí li o livro Histórias de Canções - Chico Buarque, de Wagner Homem, que conta historinhas de bastidores sobre muitas das composições. Livro muito bacana e leve de ler, muito divertido, que começou a jogar uma luz interessante sobre como esse homem cria.

Uma história legal é sobre Chico se "defendendo" das sugestões de Vinicius de Morais para Valsinha. Uma série de argumentos e polidez para aceitar certas ideias do mestre e elegantemente recusar outras.

Muito das informações dos livrinhos da coleção da Abril foram tirados desse livro do Wagner Homem.

Finalmente, topei com a coleção de DVDs que saiu em 2006. Esses foram muito bacanas.



Cada um tem um tema: cinema, romance, política, etc e mostra canções e a produção dessas canções dentro de um contexto temático específico.

No formato documentário, o próprio Chico vai tecendo comentários sobre sua obra. Um dos episódios que mais gostei é o número 10, Cinema.

Filmado em Paraty, é engraçado ver Chico andando pela cidade, de um lado pro outro, tentando parecer natural. Como ele mesmo diz, é um péssimo ator, e fico imaginando o diretor falando pra ele "vai caminhando, Chico!" e ele andando tenso, apressado, sem jeito, com uma mão no bolso e a outra se agitando, com a naturalidade de um andróide. "De novo, Chico". O legal é ver essas coisas nos extras do DVD.

Outra coisa bacana é ver como o Chico parece ser um sujeito gente boa. Em determinado momento, ele comenta sobre uma trilha sonora que compôs para um filme ainda em 1965. Era um de seus primeiros trabalhos como compositor profissional. "Olhando pra trás, eu vejo que não foi um bom trabalho. Mas eu fiz". Ele fala isso com uma despretensão sincera que me impressionou um bocado.

Já no episódio Uma Palavra, o debate gira em torno da produção literária. Além de comentar sobre as diferenças de escrever canções e romances, em uma cena muito bacana, Chico fala sobre o acaso no processo criativo. Sobre como uma palavra que aparece de repente ou um "acidente" sonoro ao tocar violão podem dar origem a uma canção. Deus lhe pague se originou de um acorde aparentemente sem sentido que o compositor ficou repetindo por dias sem saber bem por quê.

No meio desse conteúdo todo, entre performances musicais, material raro e entrevistas antigas, podemos pescar uma série de momentos onde Chico comenta seu método de trabalho, faz considerações sobre o processo criativo, a motivação de um artista, a negociação em torno do produto final de seu trabalho, as parcerias.

Um material riquíssimo e muito inspirador.

Chico Buarque é um sujeito que tem uma produção vastíssima. Talvez mitificado demais por alguns (veja essa aqui), mas ainda assim com uma obra de qualidade muito, mas muito acima da média.

Um cara que realmente é muito bom naquilo que faz.

5 comentários:

Lidia disse...

eu sou fã do chico. =D #deborablando

Jan disse...

por que parece q toda mulher já nasce sabendo, e a maioria dos homens relutam em descobrir/assumir q o cara é TÃO BOM?

de qualquer forma, bem vindo ao clube. :)

liber disse...

Olá Jan,

Confesso que não sabia que "a maioria dos homens relutam em descobrir/assumir" que o Chico manda muito bem no que faz.

Isso é sério? De onde vem essa informação?

Obrigado pela visita e comentários!
Volte sempre!


Lídia, somos dois. Hehhee!
#deborablandotiete
Bjs!

Akira disse...

Escutei muito pouco de Chico, mas gostei do que ouvi. E fiquei meio espantado sobre esse link da PIAUI. Será que há tanta poesia assim nos recados cotidianos dele?

liber disse...

Akira, esse link da Piaui é mais uma tiração de sarro em cima das pessoas que idolatram tudo o que o Chico faz, sem muito bom senso.