sábado, setembro 10, 2011

Melancolia


Dor. A dor do vazio.

Quando a melancolia nos devorou tanto, tanto, que nossa comida favorita, quentinha em nossa boca, tem gosto de cinzas. Quando só queremos dormir, não nos mover, não pensar, não existir.

A depressão pode ser uma doença real, um desequilíbrio químico que precisa ser tratado clinicamente. Ela também pode ser uma tristeza inexplicável que nos acompanha dia a dia. Tudo está bem, tudo está no lugar, e ainda assim... ainda assim.

No livro O demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão, Andrew Solomon tece uma série de considerações sobre esse mal que o afligiu. Buscou em abordagens psicológicas, médicas, filosóficas e mesmo místicas alguma explicação para esse fenômeno. Porque só quem sentiu o peso da verdadeira melancolia sabe o quanto ela pode ser incapacitante e devastadora.

Aliás, a própria expressão "demônio do meio-dia" alude à natureza da depressão. Enquanto os outros males cedem diante da "luz da razão", a melancolia parece se fortalecer, solidificando os argumentos para a falta de significado da vida.

E é isso a melancolia: a perda de significado, a certeza absoluta de que não há nada que justifique o vazio angustiante da existência.

Daí o filme de Lars von Trier.

O planeta Melancolia vai colidir com a Terra. Nosso mundo e toda a vida nele serão completamente destruídos. Mas a catástrofe global é só pano de fundo. O que importa é a tristeza de Justine.

Uma tristeza tão grande que nem a belíssima festa de casamento consegue espantar. Uma tristeza que cresce e a imobiliza e a sufoca e Justine transforma-se praticamente numa inválida, dependente dos cuidados da irmã Claire.

Claire por sua vez teme o planeta Melancolia. Aliás, teme o Fim do Mundo. O fim de TODA A VIDA. Coisa que seu marido John afirma que não vai acontecer. "Os cálculos dos cientistas garantem nossa segurança".

A medida que o filme avança e a destruição da Terra torna-se cada vez mais inevitável, Justine se fortalece, parece mais segura de si, enquanto Claire implode em desespero.

O filme foi definido pelo próprio Von Trier como uma obra "pessoal" (e qual filme dele não foi?). O homem passou por depressão, é pessimista, é talentoso e trouxe à luz o filme Melancolia.

Eu odiei o filme.

E não tem nada a ver com qualidade técnica, direção ou as belíssimas cenas ao som de Richard Wagner.

Tem a ver com a perspectiva da depressão que Von Trier tem. Irritante.

A depressão de Justine a torna especial. É por causa dessa depressão que ela ganha uma festa de casamento: uma tentativa das pessoas que se importam com ela de fazê-la feliz. Obviamente, não dá certo.

Daí, na pior crise depressiva, Justine é amparada pela irmã Claire, que suporta pacientemente toda sua fragilidade. Quando começa a ter certeza de que o Mundo inteiro será destruído, Justine começa a ganhar forças. A aniquilação de tudo parece fazê-la feliz. A certeza do fim da existência, não só a sua como a de todos os outros, devolve a Justine seu auto-equilíbrio.

Ela ridiculariza a ideia de Claire, que quer passar o fim do mundo com a irmã e uma taça de vinho. Ridícula demais a ideia de qualquer consolo que possa atrapalhar a desolação total. Justine dá apoio apenas ao sobrinho pequeno, ainda assim em um ato condescendente.

Enfim, ao meu ver Justine é um poço de egoísmo e mesquinharia que acredita que sua tristeza a faz melhor do que as outras pessoas. O pessimismo é sua sabedoria, o fatalismo sua força.

Por tabela, Justine representa também o garotão Von Trier. Que pode ser um puta diretor, mas também é um puta babaca. Babaca.

Gostei muito dos filmes do Lars Von Trier que assisti, mas a autocomplacência de Melancolia me enoja.

Se podemos medir a qualidade de um filme por critérios estéticos e pelo impacto que ele causa nas pessoas, talvez esse filme realmente seja muito bom.

Para mim, ele representa só um manifesto de um babaca, que talvez fale por uma geração de carentes de atenção e incapazes de lidar com sua própria tristeza e o Mundo (melhor explodi-lo, né?).

Ou talvez seja uma parábola da doença depressão que consumiu duas irmãs. Mas pra ver desse jeito eu preciso ter muita boa vontade.

Mas enfim, essa é só a minha opinião.

Vai lá conferir.

******

PS: a estética das cenas grandiosas e belíssimas de Lars Von Trier me fez lembrar da propaganda do Sr. Escavadeira, nos Simpsons:




5 comentários:

Anônimo disse...

Não sei se dá pra resumir tudo à uma "depressão" de Justine. Interpretei aqueles fios agarrados aos pés, que não a deixavam se mover, e a dificuldade de lidar com a coisa do casamento como uma herança da própria mãe e o casamento desastroso que ela teve no passado. Justine era uma mulher linda, bem sucedida profissionalmente, com o maridão feliz da vida ali do lado... mas com vários problemas psicológicos que não sei se dá pra resumir em um comportamento depressivo. Não entendo muito de psicologia, mas ao meu ver ela cai na tal da depressão depois daquela festa de casamento.

. sil disse...

Mh, não vi o filme, e sei que não eh assim para todos mas, pelo que conheço, a maioria das pessoas que estão com depressão/melancolia, se colocam numa posição de "coitadinhas" e todos no mundo estão apenas existindo para resolver seus problemas (ou são os culpados pelos mesmos).
Talvez seja esse o ponto de vista do filme, o fato de que, na visão dos deprimidos, o mundo gire em torno deles...
Ele eh um bom diretor, soa levemente estranho que faça um filme aparentemente tão idiota... apesar de que, no mundo de hoje, tudo eh possível...

Karina disse...

Não consigo gostar deste diretor. Não sei qual o motivo de eu insistir...

lessertruth disse...

Liber, sério, acabo de assistir o filme e discordo de você. A aproximação do planeta não "dá forças à Justine". É só que ela já estava na merda, quando todos ao redor ficam na merda em comparação ela parece estar bem.

Me parece que a questão toda é que o "funcional", o comportamento adequado em sociedade, não significa que a tristeza vá embora. Acho que o foda da melancolia, na mensagem do filme, é que não importa quantas festas e quantos buracos de golfe, ainda permanece o fantasma da falta de sentido. O mais assustador não é um dia sentir falta de ar, mas num dia de sol ainda saber que por baixo da felicidade momentânea ainda há uma semente de desespero.

Ou seja, quando você diz que Justine "recupera suas forças", na verdade ela só está numa fase menos aguda da depressão, mas tão deprimida quanto.

Aliás, o planeta chega perto, se afasta, e depois bate. Justamente uma explicação quase didática disso de que a Justine não está bem nem nada.

Se ela se sente especial por ser deprimida? Não sei. Será? Me parece que ela gostaria de ser "normal", só que não tem essa opção. A depressão está sim correlacionada com um estado de "deep searching", de buscar respostas muito profundas, e nesse sentido não é tanto "se achar melhor" mas sim sentir uma necessidade de compreensão que os outros não sentem.

Aliás, acho que o brilhante do filme é justamente que não transforma a melancolia numa demonstração de emoção, num choro, mas sim numa falta de felicidade que se espalha, se espalha...

liber disse...

lessertruth

A cena que me vem à cabeça é Justine nua sob a luz de Melancolia. Ela parece muito de bem com a vida nessa cena.

O que me incomoda no filme é que pra mim, Justine é mesquinha. Ela pode estar triste, doente e tudo mais, mas ela é mesquinha.

Um alter-ego do diretor.

A destruição do mundo faz Justine se sentir bem, a miséria das pessoas à sua volta a faz se sentir bem, a certeza de que toda a vida se perderá a faz se sentir bem. Ela é mesquinha.

Melancolia pode até ser um excelente filme, mas por essas razões eu me sinto indignado com ele.

E ponto.