domingo, outubro 23, 2011

Asterios Polyp

Saiu pela Companhia das Letras e esse você precisa ler.

Quando a gente pega um livro, fica pensando sempre na história. O que acontece, tem personagens carismáticos, tem ação? É uma boa história? E a gente costuma medir isso pelos acontecimentos e pelos personagens envolvidos.

Asterios Polyp é um arquiteto que jamais edificou nenhum de seus projetos, mas ainda assim é considerado brilhante pelos seus pares e tornou-se professor universitário. É um sujeito racional e um tanto arrogante e bonachão.

Tudo começa com ele em seu apartamento. A sala está um caos, a pia da cozinha está entulhada, e no quarto, Asterios assiste um vídeo sozinho. Ele parece triste, parece mal, mas você só vai se dar conta do quão mal ele estava nesse momento quando tiver terminado de ler todo o livro.

Um relâmpago causa um incêndio no prédio e Asterios tem que abandonar seu apartamento com urgência. Só tem tempo de salvar três coisas: um canivete suíço, um relógio de pulso e um isqueiro.

Na rua, na chuva, vendo o apartamento queimar, começa a história.

O que Asterios fará agora? Por que ele estava triste? O que tem de especial em sua história? Em sua vida?

Daí você tem que ler o livro.

Mas deixa eu te dizer uma coisa: Asterios Polyp é daqueles livros, daquelas histórias e filmes, que vai muito além de "o que acontece" e "personagens carismáticos".

David Mazzucchelli, o autor, concebeu as mais de 300 páginas de uma obra que é ponto de partida pra discutir mil coisas. Talvez a principal seja a relação que uma pessoa tem com as outras e a relação que essa pessoa tem consigo mesma.

Ou talvez a ênfase esteja na questão dos pontos de vista, dos modos como cada um de nós constrói e dá significado ao seu próprio mundo. E o choque das diversas visões de mundo.

Enfim, é uma obra tão batuta, tão poderosa, tão cheia de ideias que dá pra passar horas e horas conversando sobre ela. Quando você termina de ler, dá vontade de ler de novo, dá vontade de chamar alguém pra contar o que você leu.

Outra coisa impressionante é a construção da história em si. Asterios Polyp é um show de design. Tanto no desenho dos personagens quanto no uso da linguagem sequencial, no layout das páginas, na integração de texto e imagem.

Aliás, cada personagem tem um desenho de balão e uma caligrafia específica para traduzir sua voz. Muitas vezes o autor utiliza também o estilo de desenho, a técnica e a cor, para materializar sensações, opiniões e emoções dos personagens. É fantástico.

Em seus diálogos e textos narrativos, Asterios Polyp está cheio de trocadilhos e jogos de palavras que deram muito trabalho na tradução, como o editor André Conti, da Companhia das Letras, contou aqui.

Asterios Polyp é uma história de amor, uma história de relações, uma história sobre arte e impulso criativo, sobre transformação, sobre tristeza e vazios impossíveis de preencher. Sobre ficar em paz consigo mesmo.


Asterios Polyp é a história em quadrinhos mais apaixonante em que coloquei minhas mãos esse ano. Recomendo mil vezes.

Tem muita gente falando sobre essa obra, então separei uns reviews e umas entrevistas. O primeiro link é uma análise fodástica que o Delfin escreveu lá pro Universo HQ. Os outros são entrevistas e reviews em inglês.

Minha dica? Esqueça os reviews por enquanto e vá ler Asterios Polyp. Depois você volta aqui e procura mais informações, porque, acredite em mim, você vai querer.

Tem muitos spoilers nos links abaixo. Embora Asterios Polyp tenha mais a oferecer do que "surpresas" no enredo, acredito que é melhor você descobrir a história por si.

Eis os links:

  • As análises alucinantes de Delfin sobre Asterios Polyp no Universo HQ.
  • Scott McCloud faz comentários sobre a linguagem sequencial em Asterios Polyp.
  • Uma resenha feita no Comic Book Resources: CBR.
  • David Mazzucchelli, o autor, em uma entrevista onde fala sobre seu trabalho e a exposição no MoCCA (Museum of Comic and Cartoon Art)
  • Uma conversa bem bacana entre Mazzucchelli e Dash Shaw (autor de Umbigo sem fundo) no The Comics Journal.
  • Uma análise de Asterios Polyp no Frontier Psychiatrist.

Asterios Polyp está nas livrarias, pela Companhia das Letras, com tradução do excelente Daniel Pellizzari e letreiramento da legendária Lilian Mitsunaga.

Vai lá. Tu vai gostar.

Eu garanto.

8 comentários:

Anônimo disse...

Olá Liber. Sou leitor novo do blog, catapultado aqui pela polêmica com a Veja, mas o que me traz aos comentários é a obra em questão. Com algumas poucas resenhas a respeito desse livro eu venho me preparando pra ler essa obra e o seu post só vem a reforçar a minha ansiosidade. Parabéns pelo blog.
Douglas Alexandre (Natal/RN)

T. Candinho disse...

Após ler estes dois artigos -
http://www.comicbookresources.com/?page=article&id=35091

http://www.sequart.org/magazine/4079/why-comics-have-failed-to-achieve-real-respect/ - que arquitetam uma importante reflexão a respeito da decadência das hqs de super heróis e da correlata decadência do meio como um todo (dos consumidores aos grande eventos nos EUA), fui dormir meio triste e pessimista. Agora, depois de ver o seu post sobre essa maravilhosa hq de Mazzucchelli (que ainda nem li, mas já tenho a certeza antessipada de sua grandeza) afasto um pouco essa sensação ruim, lembrando que os quadrinhos não são compostos apenas pelas inovações, ou tentativas de inovação, da maneira de se contar feitos de homens e mulheres uniformizados.
Valeu, Liber!

T. Candinho disse...

Ops, que feio...
antecipada***

liber disse...

Douglas,

Acho até que é melhor não saber muito sobre o Asterios Polyp antes de ler. Melhor pegar a obra e depois começar a procurar material sobre ela. Com certeza, um dos melhores lançamentos dos últimos anos.

Obrigado pela visita e comentário!

Grande abraço!

liber disse...

T. Candinho

Olha, eu acho que os super-heróis só precisam de um tempo. O problema é que o gênero foi superexplorado. Alguns personagens chegam a ter ... o que? 3, 4 títulos mensais simultâneos? É complicado. Acho que os supers ainda tem muita coisa pra oferecer, mas acredito que o formato terá que passar por uma série de mudanças... talvez focar nas histórias fechadas em um volume só, ou em minisséries. E também não deixar a "cronologia" tão complicada. Enfim... vamos ver o que acontece.

Sei que para os quadrinhos de outros gêneros, como Asterios Polyp, Três Sombras, e outros, o mercado brasileiro parece estar crescendo bastante. Fico feliz com essa pluralidade de títulos.

Obrigado pela visita e comentário!

Grande abraço!

Israel Lessak disse...

Assisti um review sobre este lançamento pela galera do Omelete. Logo fiquei empolgado para comprar, e ao ler seu post, mais ansioso ainda. Pena que vai ter que esperar um pouco, já que comprometi minha 'auto-mesada-destinada-à-quadrinhos' com HQs de superheróis hehe, este mês, BATMAN não podia esperar!

Anônimo disse...

Sabe que nas livrarias também tem distribuição setorizada? Aqui em Natal/RN tem franquia da Siciliano e Nobel mais outra grande livraria "da terra" e sempre lançamentos desse tipo chegam com dois meses de atraso. Vou esperar mais um pouquinho pra ler Asterios Polyp. Abraço.

Tuca. disse...

Li na edição original, lindona, ano passado. Foi um dos primeiros posts no meu blog .

A edição brasileiro chegou ontem aqui em casa. Tô doido pra ver as soluções encontradas pelo Pellizzari nessa tradução. Brigado por informar quem fez o letreiramento (não consegui achar essa imformação na ficha catalográfica -- talvez não tenha procurado direito).

Abraço!