domingo, outubro 16, 2011

Droit de Regards

Em 1995 a editora Makron Books publicou no Brasil o mágico livro Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud. Um livro teórico sobre quadrinhos escrito em quadrinhos. Coisa fina.

McCloud realiza uma série de considerações sobre as propriedades da linguagem como a construção do tempo, os tipos de transição, a relação de imagens e palavras, entre outros temas. Embora não empregue a terminologia acadêmica, Desvendando os quadrinhos tem um dos capítulos mais felizes que já li para explicar o conceito de semiótica. O exemplo com o quadro de Magritte é genial.

Logo no princípio, McCloud procura definir os quadrinhos de maneira precisa, "estilo dicionário":



Repare que essa definição não exclui histórias em quadrinhos sem texto algum (histórias "mudas") e não há restrição alguma quanto ao tipo de imagem que pode ser empregada.

O principal é a questão das imagens justapostas que permitam ao observador criar entre elas uma relação de significado.

A partir dessa definição, McCloud ainda sugeriu que a linha histórica dos quadrinhos incluísse como exemplos arte pré-colombiana, tapeçarias medievais, monumentos do império romano e pintura egípcia...

Quanto ao tipo das imagens, a arte de uma história em quadrinhos pode ser desenhos preto e branco ou coloridos, realistas ou estilizados, à lápis ou tinta, pintados à aquarela... ou fotografias.

Fotonovelas foram um tipo de histórias em quadrinhos muito populares, no Brasil principalmente entre 1950 e 1970, geralmente relacionadas a enredos românticos e açucarados.

Na França, a fotógrafa Marie-Françoise Plissart realizou uma série de interessantes experiências com fotonovela, explorando as possibilidades narrativas que a combinação das linguagens da fotografia e dos quadrinhos oferecem.

Em 1985, ela publicou o álbum Droit de Regards, uma fotonovela complexa, sem texto algum, que é um verdadeiro deleite visual. Para que vocês possam ter uma ideia, apresento algumas páginas da obra:







Cada figura acima mostra um conjunto de duas páginas do livro aberto.

Repare que a disposição das fotos (ou quadrinhos) na página, corresponde ao layout de uma página de hq tradicional.

O trabalho da autora, sua direção de arte, enquadramento, iluminação, composição dos elementos, é tão fundamental para a construção de significado da obra quanto a relação que se estabelece entre as fotografias devido à sua justaposição, sequência e colocação dentro do grid da página.

São cerca de 100 páginas de narrativa visual, onde nosso olhar se perde em fotografias dentro de fotografias, portas que emolduram portas, espelhos que se refletem infinitamente. Mulheres se amam, casais discutem, pessoas se perseguem. Hipnotizante.

As possibilidades de leitura são diversas e no final há um texto de Jacques Derrida que enriquece ainda mais a experiência do livro. Em 2010, Droit de Regards foi republicado e pode ser adquirido na Amazon francesa.


Trata-se de um material belíssimo e instigante, que merece ser conhecido. Torcer pra que isso seja publicado aqui no Brasil algum dia. Ou apelar pras importações.

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