segunda-feira, outubro 31, 2011

Indignação

Nós, brasileiros, somos bons em muitas coisas. Mas uma coisa fazemos em especial: ficamos indignados.

Aliás, quando digo "nós" é preciso ser mais específico: falo dos brasileiros cultos, que testemunham as vergonhas que assolam nosso país, com sua revista Veja debaixo do braço e as palavras do Alexandre Garcia ditas no Bom Dia Brasil ainda fresquinhas na cabeça.

Ficamos indignados com a corrupção, com a safadeza, com a falta de caráter dos políticos. Se fossemos nós ou pessoas de moral tão correta quanto a nossa lá no lugar daqueles políticos safados, o Brasil seria um lugar muito melhor.

Acabaríamos com essas esmolas absurdas disfarçadas de assistencialismo e que sustentam vagabundos. Esmolas dadas aliás com o dinheiro que nós, aqueles que sustentam esse país, pagamos em nossos impostos. O que precisamos é educar esse povo, ensinar essa gente a trabalhar nas empresas das pessoas corretas desse país.

Precisamos é equilibrar melhor as coisas, selecionar melhor as pessoas que vão poder entrar na universidade, que vão poder ter um carro, que vão poder viajar de avião. Universidade sem essa palhaçada de cotas! Somos um país onde todos tem as mesmas chances, sem discriminação alguma. É uma afronta essa ideia de que há racistas no Brasil. Não somos racistas.

Precisamos é construir um país melhor, baseados nos valores da família brasileira e de Deus.

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Eu virei um cidadão classe média.

Antes eu pegava ônibus, morava longe, ralava pra conseguir uns trocados pra gastar em besteiras como cinema e livros.

Agora tou de boa. Acomodado. Barrigudo. E indignado.

Vou no show do Chico Buarque. Comprei meu ingresso.

Cheguei na fila às sete da manhã. Tinha 11 pessoas na minha frente. A venda de ingressos ia começar ao meio-dia.

Fila funciona assim: você chega. As pessoas que chegaram antes de você vão ser atendidas primeiro. As que chegaram depois, vão ser atendidas depois. A não ser nos casos de idosos e gestantes, conforme previsto na lei.

Lei é algo que, entre outras coisas, garante nossa civilidade. Estabelece algumas diretrizes para legitimar questões de bom senso.

Num mundo ideal, ao ver um senhor de 70 anos ou uma mulher que mal se aguenta em pé com sua barriga de nove meses, cederíamos nossa vez.

Num mundo ideal, nos importaríamos de verdade com nosso próximo, teríamos respeito por ele e não tentaríamos tirar vantagem.

Como não vivemos num mundo ideal, existem leis. E advogados que garantem meios de tirarmos vantagem amparados por essas leis.

Voltando pra fila pro ingresso do show do Chico Buarque... você pode ler aqui um relato do que aconteceu .

Uma série de pessoas maduras e equilibradas (é o que se esperaria de fãs do Chico Buarque), ansiosas para pegar o melhor lugar no teatro.

Pessoas que chegavam mais tarde e viam a fila e iam lá na frente pra ver se não tinha um conhecido que pudesse "quebrar um galho".

Pessoas que ficavam indignadas de ter tantas outras pessoas na sua frente.

Pessoas que ficavam indignadas de ver idosos e mulheres gestantes e com crianças de colo terem preferência no atendimento.

E no meio de todas essas pessoas, eu pensando "onde é que eu fui amarrar meu bode"...

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Agora tem um ex-presidente com câncer e indignado pondo a mãozinha na cintura e falando "ah, ele tem que ser atendido no SUS". Tem indignado desejando a morte do cara. O mesmo tipo que ficava indignado com o fato de um metalúrgico iletrado ter assumido a presidência do país.

O mesmo tipo de indignado que acha uma absurdo dizerem que há intolerância, preconceito e racismo no Brasil.

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Nós furamos fila, nós passamos por cima do direito dos outros, nós nos preocupamos só com nossos interesses. Nós não temos respeito pelos outros, não temos noção de nossos erros e preconceitos, nós não deixamos nosso ego ver nossos defeitos.

Por outro lado, nós temos intenção sim de fazer do país (e talvez do mundo) um lugar melhor. Se conhecemos realmente uma pessoa, não vamos querer que ela passe necessidade, que ela passe fome, que ela se prive de confortos que pra nós são tão corriqueiros.

Tudo é uma questão de se importar com seu semelhante.

Mas o mundo não é simples. Ele é uma grande faixa de cinzas entre o sim e o não, o certo e o errado.

Muito difícil justificar ou condenar determinadas ações.

Acho que deveríamos nos orientar pela solidariedade e pelo respeito ao próximo. Tratar o outro como gostaríamos de ser tratados e tal...

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Nunca vou saber dizer se o essencial das atitudes é algo simples assim.

Ou se tudo é realmente um emaranhado complexo de valores e perspectivas.

Ou se é tudo isso ao mesmo tempo.


Um comentário:

Simone disse...

Bom post e reflexão Liber. Ironias bem colocadas.

Sobre a questao do show do Chico, fiz um grande comentario lá no blog da Alice, que vai ajudá-los a entender o porque do "radicalismo". Idosos e gestantes são caso a parte e merecem respeito e prioridade, a questão é todo o resto.