terça-feira, fevereiro 21, 2012

Daniel

No momento eu tinha alguém pra proteger, e isso era novo.


Acendi um cigarro e meu ônibus chegou depois da segunda tragada. Rios de água escurecida deslizavam pelas sarjetas. Bueiros se abriam por toda a parte, o asfalto gretava. A noite chegava mais cedo devido às nuvens grossas. O trânsito parou e naquela mistura de crepúsculo, temporal e noite, as lanternas vermelhas dos carros e as luzes verdes dos semáforos brilhavam com uma intensidade fora do comum, um bonito festival pros meus sentidos ainda atordoados pela anestesia. Os pedestres se protegiam como era possível, guerreando com guarda-chuvas, se amontoando debaixo de marquises e paradas de ônibus, alguns poucos enfrentando a chuva com a resignação de quem sabe que vai se molhar de qualquer jeito. Centenas de estranhos que não significavam nada pra mim, mas observá-los pela janela embaçada me dava uma comoção esquisita.


Então me dei conta de que chegaria em casa e não estaria sozinho, a Marcela estaria lá, deitada no meu colchão de casal, doente, e isso me trouxe um inesperado entusiasmo. Queria chegar ao meu apartamento como nunca quis antes, fazer um café, olhar os relâmpagos através das janelas largas, conversar com ela, me enrolar no cobertor ao lado do seu corpo quente de febre e esperar. Atravessei o saguão do prédio aos saltos, contabilizei com impaciência a passagem de cada andar, girei a chave na fechadura, e ao abrir a porta percebi imediatamente o vazio. Fui pro quarto, só pra confirmar o que já sabia. Ela tinha ido embora.


Daniel Galera
Até o dia em que o cão morreu

Um comentário:

fernandes disse...

Cara, incrível como que uma coisa bem escrita fica tão evidente.
Livro carinho, viu. Uma pena, se não eu comprava.