sexta-feira, fevereiro 03, 2012

É pelo dinheiro sim



No meio da década de 1980 Alan Moore e Dave Gibbons produziram uma história em quadrinhos chamada Watchmen para a editora DC.

Talvez você tenha assistido o filme, talvez você tenha lido o quadrinho. De qualquer forma, o que interessa é que Watchmen entrou para a história como uma obra extremamente significativa.

Watchmen apresentava super-heróis vivendo num mundo real. Esses sujeitos não tinham super-poderes, eram pessoas comuns que punham fantasias e saiam pra bater e prender em bandidos. Essa ideia é desenvolvida por Moore ao extremo, mostrando desde o aspecto mais inocente e divertido até as consequências mais brutais e chocantes.

Cada um desses malucos mascarados tinha uma razão para por a fantasia. Moore cria personagens bem construídos e explora suas motivações e consequências com mestria.

No meio de todas essas pessoas "normais", surge o único "super-herói": o Dr. Manhattan. Vítima de um acidente em um laboratório de pesquisas atômicas, o doutor Jonathan Osterman é desintegrado. Dias depois, ressurge como uma criatura humanóide de cor azul, capas de manipular a natureza de toda a matéria à vontade. Outra característica extraordinária desse ser é a capacidade de conseguir enxergar com clareza e simultaneamente seu passado e futuro.

Chamado de Dr. Manhattan pela imprensa e governo, esse ser é um tanto frio e estranho e é difícil compreender o quanto de sua natureza ainda é humana.

Com a presença de Manhattan, a humanidade segue um outro rumo. Uma realidade que seria igual a nossa se diferencia e torna-se um mundo paralelo, onde os EUA venceram a Guerra do Vietnã, Nixon segue como presidente reeleito  e os carros se movem com energia elétrica. Isso tudo se passando no meio dos anos 80.

A verdade é que Watchmen é um grande romance. Muito bem escrito e planejado, com múltiplos níveis de leitura, tramas e subtramas muito bem trabalhadas,  personagens coerentes, expressivos e muito bem desenvolvidos.

Um trabalho excelente que ultrapassa os limites do gênero de super-heróis.

Watchmen, até hoje, era vendido como um livro que trazia todas as doze edições mensais originais. Por anos foi uma obra considerada praticamente "sagrada" por muitos leitores e fãs de quadrinhos. Uma referência, um cânone.

Agora a editora DC Comics está passando por diversas reformulações, procurando diversificar seus produtos e torná-los mais rentáveis. Daí decidiram lançar continuações para Watchmen e isso está causando uma boa polêmica no mundo dos quadrinhos. Aliás, não continuações, mas "prequels", isto é, histórias que aconteceram antes dos eventos mostrados na obra de 1986.

Para os efeitos legais, Watchmen é exatamente isso: um produto pertencente à DC que pode ser utilizado e comercializado como a empresa bem entender.

O autor Alan Moore teve uma série de desentendimentos com a editora a respeito do direito autoral da obra. Porque, embora todo o trabalho intelectual de criação dos personagens e histórias da obra original pertençam a ele e seu amigo Dave Gibbons, legalmente falando todo esse trabalho pertence à DC.

Moore manifestou-se contra a produção desse material extra. Segundo ele, toda a história já foi contada e não  faz sentido produzir outras.

Muita gente concorda com Moore, inclusive eu. Watchmen é uma obra fechada, que conta em suas páginas tudo o que precisamos saber sobre seus personagens. Principalmente,  trás em si uma série de questões e qualidades que a tornam única. De certa forma, produzir mais histórias, por melhores que sejam as equipes criativas envolvidas, deprecia o trabalho original.

Para a DC Comics, não fazer essas histórias é algo ilógico. Burro, na verdade. Afinal, Watchmen é um produto que vende bem. Há 25 anos tem reimpressões contínuas e boa procura no mercado. Lançar mais histórias é uma boa ideia do ponto de vista econômico. É uma obrigação por parte da empresa fazer dinheiro e mais dinheiro com seus produtos.

É a lógica do mercado.

Só que ninguém vai dizer "estamos fazendo isso por causa da grana". E entra a velha conversa de que "ainda existem boas histórias para serem contadas com esses personagens", "os fãs querem mais" e blábláblá.

A verdade é que Watchmen é só mais um produto mesmo. E não interessa se o material que vier vai ser bom ou ruim, o que interessa é que vai vender.

Um livro ou um filme bom, cheio de significados e valor estético é o "ideal romântico" que vira um discurso de venda para um produto em série. O mercado é movido à dinheiro. Obras que incitem reflexões ou inspirem as pessoas são apenas efeitos colaterais.

O problema maior, na minha opinião, é que as grandes empresas exploram esses seus produtos culturais à exaustão. Extraem deles tudo o que podem, em filmes, sequências, remakes. A obra, que era bacana, se gasta, perde seu brilho no meio de uma overdose de novas "histórias".

Talvez fosse legal que as editoras investissem em novos talentos, dessem espaço pra novas ideias.

Mas provavelmente essa é uma ideia boba demais para as cabeças pensantes do mercado.

6 comentários:

Marcos Faria disse...

Mas "ainda existem boas histórias para serem contadas com esses personagens" e "os fãs querem mais" é apenas o outro lado de "é pelo dinheiro": só é possível faturar mais porque existe a possibilidade de novas histórias, que os fãs vão querer comprar.

O meu problema não é com a DC querer fazer prequels. É com o fato de, pelas leis que regem a propriedade intelectual, SOMENTE a DC poder fazê-los comercialmente. Eu preferiria que cada um - inclusive Alan Moore - pudesse publicar sua história de Watchmen. Ou de Batman, ou de Homem-Aranha. Ou misturando todos, se a história assim o justificar.

Anônimo disse...

...uma análise realista, neste caso prevalece a razão de mercado em detrimento da integridade da obra.
China Blue.

MARCELO SOARES disse...

Concordo que seria legal que ao invés de retomar coisas antigas a editora (e todos meios de entretenimento) fomentassem novos talentos e novas histórias épicas para novas gerações. Mas não sou de todo contra a Before Watchmen, acho que mesmo um produto sendo feito só pela grana pode ser algo relevante e interessante, dependendo claro de quem participa de sua construção (e pelo menos um Darwin Cooke da vida até hoje não vi se meter em algo que não fizesse com vontade e cuidado).

liber disse...

Marcelo, respeito muito o trabalho de Darwin Cooke.

O que mais me incomoda com relação a esse projeto é que ele está sendo feito contra a vontade de seu autor. Embora a DC Comics seja a proprietária legal de Watchmen, Alan Moore efetivamente é o responsável por todas as qualidades da obra que a tornaram célebre.

Para efeitos práticos, Before Watchmen pode até apresentar histórias de boa qualidade, mas em última instância são desnecessárias. A comparação com a história original será inevitável e certamente as novas histórias vão parecer pálidas.

Outro projeto de sequencia que me vem à cabeça é o Cavaleiro das Trevas 2. Comparado com seu antecessor, mostra-se infeliz e desnecessário. E esse ainda foi feito pelo autor Frank Miller.

Francis Ford Coppola filmou o Poderoso Chefão I e II com um intervalo de dois anos entre um e outro. Os dois se justificam plenamente, a história foi contada, não há mais o que dizer. Então, vem o Poderoso Chefão III, feito 16 anos depois pelo diretor por questões puramente "econômicas". Embora seja de boa qualidade, perto dos dois primeiros ele parece completamente desnecessário. O interessante é que o próprio Coppola admite isso: "Fiz o Poderoso Chefão III pra pagar as dívidas".

liber disse...

Aliás, sobre as ideias de continuações e novas histórias pra contar, tem esse quadro bem bacana sobre o Senhor dos Aneis de Peter Jackson:
http://www.youtube.com/watch?v=1e0wAi1ON5Y

"What if it wasn't destroyed?"
"It was."
"But, what if it wasn't?"
"It was."
Hahhaah

Rodrigo disse...

Oi Liber!

O bom de ficar mais velho é que você não precisa destes prequels na sua vida. Li Watchmen quando saiu aqui, lá pelos idos de 1987 e releio de vez em quando.

O filme vi, até por obrigação e admiração. Desde aquela época falavam neste "tal de filme do Watchmen". Mas ele não acrescentou nada (acho até que tirou). Se bem que o final é mais bem costurado que o do gibi.

Mas estas prequels não vão adicionar nada na minha vida, então posso fazer de conta que elas não existem. E com certeza não vou ser mais feliz por ler (ou deixar de ler) este novo material.

Abraços!
Rodrigo Stulzer
transpirando.com