segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Não cabe em um filme


"Nós te mostramos como se mover, nós te mostramos como ter paixão, nós te mostramos como se expressar..."


"Nós te mostramos como amar".

As frases acompanhadas de cenas de diversos filmes foram feitas pela Academia/Oscar para celebrar o Valentine's Day.

Fala-se em magia do cinema, em sonhos, em emoção. Pouquíssimas vezes fala-se em ensino ou mesmo adestramento.

Concebe-se a ideia de um par romântico pra vida toda e não são poucos os filmes que martelam e remartelam essa ideia em nossas cabeças. Mas será que é assim mesmo? Será que encontraremos alguém que nos fascinará a cada dia e nos complementará da maneira que prometem Meg Ryan, Baz Luhrman, Bella Swan e Edward Cullen?

Mas, afinal, se não encontrarmos, que importa? O que vale é o sonho, a magia. Não é?

(Por alguma razão me lembro de Matrix, quando o Cypher prova um suculento bife e diz: "não me importa se ele é de verdade ou não").

Claro que é injusto colocar todos os filmes no mesmo balaio.  Nem todos os filmes são norte-americanos e nem todos os filmes norte-americanos querem pregar o evangelho do amor maior que a vida. Existem filmes que perturbam, existem filmes que provocam, que encantam sem precisar apelar pra afagos na carência afetiva das pessoas.

Agora, dentro dessa ideia de catequização, de adestramento, mais do que o amor romântico, o que os filmes norte-americanos mais pregaram nessas décadas todas foi a ideia de protagonista e vencedor.

Dá-lhe jornada do herói: o mundo todo girando em volta de uma única pessoa especial, cercada por outras que só servem para ajudar ou complementar seu destino de triunfar sobre um grande obstáculo. E final feliz, com certeza.

Muita gente cresce acreditando que a vida funciona assim. Assimilamos isso, internalizamos isso de maneira tão profunda que nem mais nos damos conta.

Então, vivemos um grande amor e nos casamos com ele pra descobrir que depois do casamento não sobem os créditos. O "filme" continua. Dias e dias ao lado da pessoa. Até que a morte ou a vida nos separe.

Lutamos pra conseguir algo: um emprego, uma casa, e muitas vezes não conseguimos. Ou quando conseguimos, descobrimos que "o preço de conseguir aquilo que se deseja é ter aquilo que um dia se desejou". 

Muitas vezes acontecem absurdos brutais e não há "lição" nenhuma a ser aprendida. Outras pessoas partilham o mesmo mundo que a gente e não somos mais "especiais" do que elas. E os créditos nunca sobem.

A vida não cabe num filme e o fim dela todo mundo já conhece.

E fico muito feliz que seja assim.

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