sexta-feira, abril 06, 2012

Perfeição

O perfeccionismo é um peso, uma amarra, um veneno quase tão grande quanto a procrastinação.

Uma das características mais traiçoeiras do perfeccionismo é justamente o fato de se confundi-lo com o zelo pela qualidade: "Oras,  sou perfeccionista e é por isso que meus trabalhos são bons".

Bem, no dicionário perfeccionismo é definido como "tendência obsessivamente exagerada para atingir a perfeição na realização de alguma coisa".

Se você for um perfeccionista de verdade é isso que você procura: perfeição. E se você olhar para os seus trabalhos, não são as coisas boas que vão se destacar. São as pequenas falhas, as inadequações ao conceito de perfeição. Que, diga-se de passagem, é inatingível, você bem sabe.

Não importa o quão bom você seja, não importa o nível de excelência de suas habilidades, são raríssimas as obras que podem ser chamadas de "perfeitas", na total acepção da palavra. Se elas parecem perfeitas, é porque você não olhou bem de perto.

O que acontece é que nos esforçamos, empenhamos e estressamos pensando unicamente no resultado final, que deve se encaixar lindamente na caixinha da Perfeição. É como enxugar gelo.

Eu desconfio das pessoas que estufam o peito e dizem "eu sou perfeccionista". Eu desconfio e tenho medo delas. E um pouco de pena.

Eu sou uma delas.

Passei a maior parte da minha vida deixando de fazer coisas porque não me sentia preparado, porque achava que o resultado final ia ser feio, indigno e vergonhoso. E as poucas coisas que fiz eu escondi da minha vista.

É estranho fuçar em caixas e encontrar desenhos de 15, 20 anos atrás e ter a primeira impressão "nossa, até que são bons!". Talvez sejam os anos que separam, que permitem avaliar melhor. De certa, são desenhos feitos por uma pessoa que eu nem sou mais. Não que sejam "obras-primas". Mas são desenhos bons. São dignos.

É isso que o perfeccionismo faz. Disfarçado de "senso crítico", ele massacra os trabalhos, hiperdimensiona "falhas" que na verdade são meros detalhes. Se não tomar cuidado, ele te imobiliza e te impede de produzir.

Senso crítico é saber reconhecer e dimensionar os limites e insuficiências do próprio trabalho e refletir como melhorar da próxima vez. Isso é importante. Mas o senso crítico também sabe reconhecer os aspectos positivos.  O senso crítico te deixa dormir de noite.

Perfeccionismo é uma voz chata e arrogante que não pára de te cobrar resultados e que jamais estará satisfeita.

O que realmente importa não é o resultado final, mas o processo. O pensamento, a observação, a realização. Durante o processo é preciso disciplina, zelo, senso crítico. Mas perfeccionismo não tem nada a ver com isso.

A perfeição é uma abstração e o perfeccionismo é um peso inútil.

Esse mês eu comecei a me livrar dele. Não vai ser fácil.

3 comentários:

dtavares disse...

Me identifico e gosto muito dos seus posts, principalmente quando você trata de produção. Sempre uma fonte de inspiração. Obrigado!

Letícia Simoni Junqueira disse...

A grande vantagem em ter um pseudônimo é essa liberdade pra produzir sem medo de julgamento. Quando a gente começa a assinar e as pessoas começam a ler, pelo menos pra mim, rola um tensão em manter uma certa qualidade e eu me autocensuro (que eu já não sabia antes se era com hífen, agora então fodeu de vez). "Ah, minha mãe vai ler isso." A vida era mais simples quando eu era Lady Erinyes, mas reza a lenda que tirar o saco de papel da cabeça e encarar o tranco faz parte do amadurecimento. Então tá. Eu sempre tento botar em prática uma frase muito sábia dum amigo meu: "não dá pra fazer uma obra de arte todo dia". É isso. Não. Dá.

Mas então por que a gente insiste? Quando eu diagramava livro didático, um autor me disse: "o trabalho nunca termina. Só o que termina é o prazo, e então você assume que tá pronto". Acho mesmo é que tem que ter muito culhão pra publicar uma coisa que você sabe acha ruim.

E, só pra constar, eu descobri que faço uns rabiscos bacanas. Mas aí eu acho que aquela linha ficou torta, que dá pra tentar botar uma sombra ali ou acrescentar um detalhe ali e fica uma bosta. nota,mental pra vida: assumir que todos os meus desenhos são rascunhos e aceitar o rabisquinho simples e despretencioso deles. :)

liber disse...

Obrigado pela visita e comentários, pessoal!

Tavares, eu é que agradeço por esse retorno. Valeu. Seja bem-vindo sempre.

Leleca, seu comentário já me deu umas ideias aqui pra pensar. Obrigadão! Bjs!