terça-feira, maio 08, 2012

Os Vingadores



Pra mim Matrix sempre teve cara de gibi.

No meio de um monte de pessoas alienadas, imersas num cotidiano opressivo simulado por computador, Neo, Morpheus, Trinity e companhia eram especiais. Eles conseguiam ver por trás das cortinas, através do código e assim conseguiam burlar o programa. Por isso eram mais rápidos, mais fortes. Eram capazes de saltar de um prédio para outro, por cima de uma rua inteira.

Eles eram super-heróis.

Talvez esse seja o segredo por trás dos supers. Essa fantasia de poder, esse lance de correr pelos telhados, voar,  extrapolar todos os limites. Um mundo de cor e fantasia, uma grande brincadeira onde o mais importante era acreditar que por mais terrível que fosse a adversidade, ela poderia ser superada. Mais ou menos como G. K. Chesterton dizia: "Contos de fada são a pura verdade: não porque nos contam que os dragões existem, mas porque nos contam que eles podem ser vencidos".

O universo simulado da Matrix era fascinante. Agora imagine uma Nova York onde uma barbearia guardava a entrada para um complexo subterrâneo a quilômetros de profundidade que servia de QG para uma rede de espionagem. E que tal um porta-aviões de milhares de toneladas que voa a dez mil metros de altitude, mantido por hélices gigantescas?

Imagine uma Nova York em um mundo de maravilhas.

No meio de uma tarde, a cidade foi invadida pelos homens-peixes da Atlândida. Ou por um gigante alienígena que queria devorar nosso planeta. Ou simplesmente, no meio da tarde, na sua pausa para o café, olhando pela janela, você viu um deles, um daqueles caras que voam ou escalam paredes, passando por entre os prédios. Um dos caras que viviam fora da Matrix.



Lógico que os quadrinhos de super-heróis tinham um monte de problemas. Armadilhas ideológicas que surgiam da própria inocência de sua natureza. As linhas entre o "bem" e o "mal" são tão definidas quanto parecem nos gibis? Uma pessoa fantasiada sempre vai distinguir claramente entre o certo e o errado? Afinal, who watches the Watchmen?


Se durante seus primeiros 40 anos os super-heróis viveram em um imaculado mundo de fantasia, lá pelos anos 70 começaram a aparecer os sinais de bolor na realidade de papel. Viciados em drogas,  violência urbana, questões sociais. E, finalmente, nos anos 80, Watchmen desconstruiu de maneira magistral tudo aquilo que se entendia por ser um super-herói, usar uma máscara e salvar o mundo.

Curiosamente, Watchmen chegou ao cinema antes dos Vingadores. Isto é, no mundo cinematográfico, a desconstrução do mito veio primeiro. A complexidade do mundo real estilhaçando a fantasia. Coisas semelhantes se viram em outros filmes como Hancock, Minha Ex-Supernamorada...  ok, alguns eram bem ruinzinhos...

Mas também teve filmes bons. Os Batmen de Christopher Nolan, o Hulk de Ang Lee, os X-Men de Brian Singer... todos eles procuram ter um pé na realidade, através de motivações, explicações técnicas, científicas. Desculpas para homens que soltavam raios pelos olhos ou ficavam verdes e poderosíssimos.

A leva dos filmes de Homem-de-Ferro, Thor Capitão América também seguia essa ideia.  Primeiro se explica como funciona, faz-se as pessoas entenderem, aceitarem o impossível. Afinal, o cinema de ficção tem suas regras.



Como escreveu o Érico Assis, se Os Vingadores faturou 640 milhões de dólares em dez dias, isso significa que pelo menos 64 milhões de pessoas ao redor do mundo pagaram para ver o filme. Não sei se os super-heróis tem 64 milhões de fãs no mundo. Mais fácil acreditar que uma multidão teve contato pela primeira vez com os maiores heróis da Terra.

Assim como fez nos gibis 50 anos atrás, a Marvel junta em um só filme seus heróis. Tudo bem, a ideia dos filmes solo era essa desde o começo. Mas o espírito ainda é o mesmo lá do início dos anos 60... "não seria fantástico ter todos esses seres extraordinários em um mesmo filme?" Seria.

É .

Extraordinário.

E Os Vingadores é isso: o filme mais gibi, o filme mais Marvel de todos os tempos.

Lógico que tem gente que não vai gostar, não vai conseguir embarcar na viagem. Esses ficam pra trás.

Mas é difícil não se envolver.



O ritmo é alucinante porque o filme supõe que você já assistiu os outros e conhece quem são aqueles caras. Mas se não assistiu e não faz ideia, a diversão vai ser ainda maior.

Os personagens se revelam nos diálogos. Está tudo lá. Aliás, os diálogos são justamente o ponto forte do filme. Cortesia de Joss Whedon, que já tinha me conquistado nos quadrinhos com seus Surpreendentes X-Men. Ele consegue respeitar e definir muito bem cada personagem e a partir de suas interações produzir cenas que variam do drama à comédia pura.

O humor está presente o tempo todo, mas sem apelar para piadas pastelão. Ele surge justamente por cada personagem se manter fiel à sua própria personalidade e condição. Seja o soco do Hulk no Thor ou o Capitão entendo a referência dos "space monkeys".

Mas combater o mal e salvar o Mundo é difícil nesses dias politicamente corretos. Não se pode usar nenhum ditador de nenhum país que possa levantar acusações de discriminação. Felizmente, existem os alienígenas. Um bando deles e pode-se espancar, mutilar e esmagar sem restrições, sem preocupações com o pessoal dos direitos humanos. Extravasar sem culpa toda a violência e primitivismo e se divertir muito.

Samuel L. Jackson já era o Nick Fury desde Os Supremos, lá no começo dos anos 2000. Foi no traço de Bryan Hitch que Nick Fury ganhou a cara do ator de Pulp Fiction. Também foi nesses quadrinhos que a influência de Matrix apareceu fortíssima. É só olhar o visual do Gavião Arqueiro e da Viúva Negra...



Joss Whedon conseguiu a proeza de equilibrar bem a presença dos personagens. É difícil dizer quem se sobressai mais.

A Viúva da Scarlett Johansson é simplesmente sensacional. Ela engana o próprio deus das trapaças, ela vence em combate o Gavião e ela me fez acreditar pela primeira vez que a transformação do doutor Banner em Hulk pode ser uma coisa assustadora.

Tony Stark do Rob Downey Jr. é impagável como sempre. Tem talvez as melhores falas do filme. Mas, ao contrário do que se esperava, ele não é o protagonista. É um dos que mais chama atenção, mas não é o protagonista. Afinal, esse é um filme de equipe.

Mark Ruffalo fez o melhor doutor Banner até agora. Ele é todo encolhido e cheio de tiques. Como se tivesse vergonha de ser o que é. E tem. Nesse filme, o Hulk é aquilo que sempre deveria ter sido: uma força completamente descontrolada e insana. Imprevisível. Incrível.

(Pra mim, esse é o melhor filme do Hulk de todos os tempos.)

Thor e o Capitão estão ali, estão competentes e tal, mas a natureza de seus personagens acaba não chamando tanto a atenção. Gosto do modo como o Thor se preocupa com seu irmão e tenta resgatá-lo. Acho que o deslocamento do Capitão (um sujeito que acorda 70 anos depois de sua época) podia ser mais explorado. E o uniforme também podia ter sido melhor trabalhado... por outro lado, é legal ver um uniforme de pano no meio de um monte de roupas de plástico.

Nick Fury é o líder, o cara que manipula, que toma as decisões. Um personagem muito bacana e curti ver o Jackson interpretando ele. Pra quem leu o gibi dos Supremos, a adaptação é ótima. E é legal pensar nisso, nesse vai e vem com o cinema.

Nos quadrinhos, os Supremos se basearam um bocado em Matrix para fazer a releitura dos super-heróis dos Vingadores. E agora, nesse filme, os super-heróis se mostram nas telas com todo o exagero e energia das páginas. É muito bacana ver esses caras juntos.

De repente, o Thor está tentando impedir que o Hulk destrua todo o porta-aviões. Thor versus Hulk. Isso é uma coisa que jamais pensei que veria no cinema. Sim, eu sou uma criança feliz.

Eu só vi Os Vingadores duas vezes até agora. E tenho vontade de ver mais.

Exatamente como um daqueles gibis fabulosos que não me sai da cabeça e que não canso de folhear.


3 comentários:

Eliel disse...

O mais legal é ler esse texto e conseguir imaginar perfeitamente as caras, reações e pulos que o Liber deve ter dado no cinema.

Anônimo disse...

Apesar de não sermos fãs de gibi como você, Liber eu o Edgar curtimos um monte ir ao cinema e ver "Os Vingadores" por justamente se mostrar um filme inteligente, bem humorado e sem personagens privilegiados. Reconhecer as particularidades que compoem a personalidade dos heróis sem interferir na história foi a coisa mais sensacional. Adorei mesmo e recomendo.
Já tenho a minha cena favorita. ;) Milena

liber disse...

Ah, o mais engraçado é que eu nem era tão fã assim dos Vingadores nos gibis. Nunca tinham me chamado a atenção.

O inusitado é justamente isso. De todos os grupos, todos os super-heróis que já imaginei que veria um dia no cinema, foram logo os Vingadores a ganhar e funcionar bem na telinha. Quem diria...