quinta-feira, junho 14, 2012

Um desenho que fosse como uma oração



O desenho acima é uma página do álbum A Soma de Tudo - Parte 1, escrito e desenhado por Lourenço Mutarelli.

É um "detalhe" do portal da Igreja dos Jéronimos, em Portugal. Repare nos detalhes do "detalhe".

Mutarelli contou que naqueles dias em que ele fazia quadrinhos, uns dez anos atrás, ele passava 16, 18 horas em cima da prancheta desenhando. Era muito trabalhoso. "Quem faz quadrinhos não vive", ele me disse.

Daí eu perguntei o que o motivava a se dedicar tanto para os quadrinhos. O que o ajudava a ficar tanto tempo em cima de uma página. Ele me disse que ele desenhava daquele jeito pra se proteger do mundo. Pra escapar da vida.

Esse álbum faz parte de uma série de álbuns protagonizados pelo Detetive Diomedes. Quando criou o Diomedes, Mutarelli quis fazer alguma coisa dentro do gênero policial.

O pai de Mutarelli também era Lourenço, era policial, gostava de quadrinhos e de Carlos Gardel.

Gostava de ler as histórias que Lourenço Júnior desenhava com o Diomedes. Não chegou a ver o final da série.

Mutarelli, o júnior, o desenhista, contou que levou quatro dias pra desenhar o portal da igreja, e fez bem devagar, fez bem detalhado. Naqueles quatro dias, Mutarelli, o sênior, estava internado na UTI.

Lourenço contou que era um ateu e que esse desenho foi pra ele como uma oração, o mais próximo de uma oração que conseguiu fazer, pedindo só pra que o pai pudesse partir em paz.

Hoje Mutarelli não faz mais quadrinhos, não precisa mais escapar da vida. Ele me parece bem feliz e gosto de ver isso nele.

Voltei pra casa e fiquei olhando pro desenho. Fiquei pensando no tempo de desenho, na elaboração da história inteira. No quanto se pode colocar de si mesmo em um trabalho desses.

Penso nisso.

Não em desenhar pra escapar ou se proteger da vida ou do que quer que seja. Mas em desenhar como se fosse uma oração.

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