quarta-feira, agosto 01, 2012

Sobre máscaras e Batman



As pessoas não são passivas. Não leem apenas. Não assistem apenas. Elas se apropriam. Elas veem uma história e de repente se enxergam nela e a tomam para si. Vestem a história como se fosse uma máscara. Ou a descartam e jogam fora...

Máscaras são um tema recorrente no mundo dos super-heróis, mas não consigo pensar em algum filme que tenha abordado a questão da máscara de forma tão bacana quanto essa trilogia do Batman.

Desde o primeiro filme, quando se fala em "se tornar uma lenda", em "criar uma persona", fica muito claro que colocar uma máscara significa tornar-se algo que você não é. Algo possivelmente maior do que você, porque, por causa da máscara, cria-se a ideia de que qualquer um poderia estar ali, qualquer um poderia fazer a proeza.

Isso pode instilar o terror, mas também pode servir para inspirar as pessoas. Essa é a ideia por trás do Batman de Christopher Nolan: inspirar pessoas, tirá-las da apatia.

Assim, o primeiro filme é criação da máscara. No segundo, a máscara acaba realmente inspirando outras pessoas. Mas cada um apropria-se da máscara como quer e os ideais originais se perdem. São os "batmen" de calças de hóquei, é o Coringa e sua maquiagem. Batman inspira e acaba servindo de gatilho pra uma série de usos equivocados da máscara. E a boa intenção acaba causando mais mal do que bem.

A verdade é que a máscara, o símbolo, tem poder, mas não é a melhor solução para os problemas do Mundo. Ou para os próprios problemas de cada um.

A máscara, para Bruce Wayne, é também um modo de lidar com sua tragédia pessoal, com a perda de seus pais. Não é só a intenção de inspirar e ajudar que motivam Bruce a colocar a fantasia, mas é também um desejo desesperado de tentar corrigir o passado, a sensação equivocada de que as coisas ruins que aconteceram foram culpa sua e com as atitudes de hoje tentar expiar os sofrimentos de ontem.

O que, obviamente, não funciona.

Batman é uma máscara mas também é uma fantasia infantil triste,  a tentativa de tentar mudar algo que não tem volta. Os pais morreram. A namorada querida morreu. E, se ela não tivesse morrido, não teria ficado com Bruce, mas com o promotor queridinho da cidade.

E o terceiro filme é sobre isso. Sobre crescer, sobre seguir em frente. E pra crescer não é necessário apenas deixar a fantasia de lado, mas aceitar que certos infortúnios, por piores que sejam, não tem solução. Mas esses infortúnios não precisam determinar as nossas ações presentes e futuras, eles não precisam determinar quem somos.

Não estamos sozinhos e temos responsabilidades para com nossos próximos. Sejam eles nossos vizinhos de cidade ou as pessoas que realmente nos amam. E somos responsáveis principalmente por nossas próprias vidas. Que possamos conceder a nós mesmos a mesma importância que damos aos que estão ao nosso redor. Que as máscaras fiquem para trás.

Cada um toma as histórias para si como quer e as veste como bem entende.

Esse terceiro e último filme da série tem diversas leituras possíveis, mas foi assim que eu decidi vesti-lo: que as coisas ruins fiquem pra trás, que a responsabilidade e a culpa não me esmaguem e que eu possa conceder a mim mesmo um pouco da compreensão, confiança e carinho que dou às pessoas mais importantes da minha vida.

Batman rises.

:-)

7 comentários:

Law disse...

Sensacional!

Fex disse...

Ainda não vi o novo filme do Batman.

Alguns dos seus comentários sobre a máscara, no entanto, penso que se encaixam bem no filme (mais que no próprio quadrinho) V de Vingança.

liber disse...

Oi, Law, Fex

Obrigado pela visita e comentários!

Fex, a respeito do V, especificamente falando do filme, concordo os meus comentários sobre a máscara se encaixam também. Principalmente com relação a intenção de criar uma "máscara" que seja um símbolo, um ideal.

Porém, a minha questão também é a relação entre a máscara e a pessoa que a veste. A máscara pode ser maior, inatingível, mas ali embaixo ainda existe uma pessoa.

No filme do V, nunca saberemos quem ele foi, seu nome, suas aspirações. A diferença entre V e Batman é que V é uma incógnita sob a máscara. A única coisa que conhecemos é a máscara. O homem é um mistério.

Já em Batman, a figura de Bruce Wayne é ressaltada o tempo todo. Sabemos o que ele quer, pelo que passou, pelo que está passando.

Essa relação da pessoa de verdade com a máscara é que faz a diferença maior entre os filmes de Batman e o filme do V.

Além do mais, em V, a história nos conduz a ver o personagem como uma clara inspiração benigna à população. Ao fim do filme, todos marcham usando a máscara, unidos pelo ideal.

Em Batman, os resultados são caóticos. Justiceiros despreparados e maníacos maquiados são tão inspirados pela figura do morcego quanto as crianças inocentes ou policiais dedicados.

Nesse sentido, na minha opinião pessoal, os filmes do Batman está mais próximo da vida real, onde as coisas nunca funcionam tão bem quanto gostaríamos...

Fex disse...

Vi o filme do Batman, e acho que entendo o que quis dizer com a questão das máscaras e seu desenvolvimento durante as histórias.

A própria máscara do Batman vem como uma forma de ele não encarar a si, o homem, falível. Ao criar um mito em torno de si, ele cria um mito pra si tanto quanto para os outros. Tanto que ele passa a referir-se ao Batman na terceira pessoa, ao dizer ao Alfred que "o Batman não tem limites". Ele passa a crer no símbolo que ele criou, e que funciona enquanto barreira para seu próprio desenvolvimento, pois é da quebra das fantasias e do enfrentamento da realidade, inclusive no que diz respeito a si mesmo, com todas as suas falhas e dificuldades em lidar com as vicissitudes da vida.

Talvez os três filmes possam mesmo serem vistos desta maneira: a construção da máscara, o efeito, e a quebra - ruptura traumática porém necessária para seguir em frente. Afinal, quem sai do buraco e repete a lendária façanha não é o Batman, mas Bruce Wayne. Talvez fosse mais confortável conformar-se com a situação e deixar-se morrer ali, do que passar pela aventura perigosa de tentar sair.

Talvez uma alegoria também ao fato de uma zona de conforto, por pior que seja, não deixa de ser uma prisão.

Muito boa sua análise do filme. Embora eu tenha tido minhas querelas com relação aos andamentos da história neste terceiro filme, vendo-os todos como um conjunto, denota a grande característica do Cristopher Nolan, que é usar suas narrativas para discutir os muitos aspectos da psique.

liber disse...

Fex

Isso, isso, isso. (parafraseando o Chaves)
Concordo.

Obrigado pela presença e comentários.

Abraço!

Fex disse...

Ah, desculpe os devaneios prolixos... é que tinha visto seu post antes de ver o filme, achei por bem vir responder depois de assisti-lo. rs

liber disse...

Fex, seja sempre bem-vindo.

Valeu!