terça-feira, outubro 02, 2012

O Chamado do Monstro

Ando meio cansado da literatura adulta, sabe.

Meio cansado dos discursos brilhantes de autores brilhantes que parecem só repetir incessantemente que a vida adulta é uma sucessão de decepções. Sim, ela é. Eles tem razão. Mas preciso dar um tempo com eles.

Daí peguei esse livro infanto-juvenil.



O Chamado do Monstro era uma ideia da escritora irlandesa Siobhan Dowd, mas ela faleceu antes de completar o trabalho, deixando apenas uma série de anotações.

Daí entra o escritor Patrick Ness. Convidado a dar continuidade ao trabalho de Siobhan,  no começo o cara hesitou. Mas a ideia foi conquistando sua cabeça: Quando me dei conta, as criações de Siobhan já estavam me inspirando. Comecei então a sentir aquela comichão que todo escritor busca: a de colocar as palavras no papel, a de contar uma história.

O livro contta a história do menino Conor. Ele tem uns 12 anos de idade e está passando por um momento pedreira da vida: sua mãe tem câncer e as coisas não vão bem. Soma-se a isso o fato de que o pai, há uns cinco anos, apaixonou-se por outra mulher e saiu de casa para constituir outra família. E ainda há o terrível, inenarrável pesadelo que atormenta seguidamente suas noites.

Mas as coisas vão melhorar porque um Monstro surge na sua vida. De repente, a gigantesca árvore lá de cima do morro contorce-se, ganha vida e passa a perseguir Conor.

Podemos pensar que é tudo imaginação do menino. Um amigo imaginário para ajudá-lo no momento difícil.

As palavras do Monstro, porém, não são palavras de um garoto. Ele parece muito mais sábio, muito mais velho do que Conor. Parece saber muito mais coisas do que um garoto de 12 anos. Parece ter uma paciência secular.

E assim vai se desenvolvendo o livro, uma coisa digna dos bons e velhos filmes da Disney, como Mary Poppins. Aliás, como Mary Poppins seria se tivesse morte, um desespero crônico e punhos ensanguentados.

As ilustrações de Jim Kay que acompanham a trama também são dignas de nota: sombrias, sujas e vigorosas como a criatura que apresentam.



Eu precisava ler alguma coisa assim como esse O Chamado do Monstro, pra refrescar a cabeça.

Agora posso voltar para a literatura adulta.

Ou não, né?

:-)

2 comentários:

Carla Bitelli disse...

Esse livro é um dos mais emocionantes que já li na minha vida. Recomendo a qualquer um que passar na minha frente. =P

Leleca disse...

Sexta-feira eu comecei uma Oficina do Livro Ilustrado. Turma pequena, cinco alunos pra, adivinhe, ter um livro ilustrado no fim. Eu. Ilustrando. Rá. Mas não é disso que eu vim falar.

Vim falar que, nesse curso, as pessoas comentavam que adultos, cada vez mais, consumiam livros infantis - ou, mesmo, livros ilustrados, não necessariamente infantis. Tinha uma edição linda de textos do Poe, com ilustras do Harry Clarke; um livro lindo da Suzy Lee que parece cinema mudo; um monte de discussões divertidas em volta disso que é o livro ilustrado, pra crianças ou pra adultos. Lembrei de você.

Sobre os "discursos brilhantes de autores brilhantes que parecem só repetir incessantemente que a vida adulta é uma sucessão de decepções"... ninguém diz isso quando se é criança/adolescente, né? Nunca tinha pensado nisso. É muito mais esperançoso.

Vou dar uma olhada nesse aí. :)

Beijo!