domingo, dezembro 16, 2012

Um guia turístico para o país dos Tipos


Lá pelo final da década de 1990, não tinha muito material sobre tipografia disponível em português. Nessa época, eu era aluno do curso de Design Gráfico da UFPR (que era chamado Desenho Industrial – Habilitação em Programação Visual).

O fato é que a gente sabia que tipografia era um lance importante. Vivíamos uma década em que as tecnologias digitais transformavam para sempre os processos de produção. David Carson barbarizava na desconstrução e promovia o que alguns chamavam de “câmara dos horrores da tipografia”. A gente não entendia direito o que estava acontecendo, acho que ninguém entendia, mas sabíamos que era algo bem significativo.

Tínhamos uma disciplina de tipografia, mas eu sentia que faltava uma base bibliográfica, um texto que me servisse de apoio para compreender melhor o lance das letrinhas. Um mapa ou um guia turístico para explicar os caminhos do país dos tipos.

Eu me formei no final de 2001 e quando aqueles aviões acertaram as Torres Gêmeas estava lutando pra terminar as ilustrações pro meu TCC. Naquela correria, nem percebi que o professor Fontoura tinha lançado um livro sobre tipografia.

Uns dois anos depois eu comecei a lecionar aulas para o curso de Design Gráfico do Cefet-PR, que mais tarde viraria UTFPR. Tipografia fazia parte do conteúdo e nas pesquisas para elaborar as aulas acabei ouvindo falar do Vade-mécum de Tipografia. Infelizmente, o livro tinha esgotado e eu não consegui cópias nem com o próprio Fontoura.

Esse livro acabou ganhando status de lenda urbana para mim. Sempre ouvia falar dele, sempre tinha um amigo que conhecia alguém que tinha o tal livro, mas nunca consegui por os olhos em um exemplar. 

Os anos foram passando e acabaram sendo publicados no Brasil diversos livros sobre tipografia. Trabalhos muito bons feitos por autores nacionais e traduções de obras imprescindíveis, como o Elementos do Estilo Tipográfico, de Robert Bringhurst. Além da própria internet, que proporcionava acesso à informação através de sites especializados e listas de discussão.

Enfim, eu nem mais lecionava tipografia, mas mantinha um interesse saudável pelo assunto, quando soube que esse ano o Vade-mécum de Tipografia estava de volta em uma nova edição. Finalmente poderia conferir o tal livro.



A primeira e triste constatação é que se ele tivesse caído em minhas mãos anos atrás, teria sido muito útil.

Escrita por um professor (e atualizado por outro, o Naotake Fukushima, nessa segunda edição), o forte da obra está justamente na sua estrutura didática. Ela se divide em 15 capítulos, cada um tratando de um tema da tipografia de maneira concisa.

Era o tipo de “guia turístico” que eu queria ter quando aluno e um ótimo apoio para elaborar as aulas quando professor.

O texto leve e objetivo consegue concentrar uma imensa quantidade de informações nas 92 páginas do livro. Vale destacar que por seu formato e papel, a edição parece até ter menos páginas. É realmente o tal “vade-mécum”: o livro “vai comigo”, leve e prático para ser levado a qualquer parte.

Ao lê-lo, tive diversos momentos de nostalgia. Dos dias de aluno, dos dias de professor e também daqueles anos entre 1990 e 2000. A música do Nirvana deu o tom à década que mostrou a consolidação da internet, a velocidade e as transformações que as ferramentas digitais proporcionaram à prática, ensino e pensar do design gráfico.

David Carson, Neville Brody, Scott Makela, Barry Deck e tantas outras pessoas. Tipógrafos e suas fontes (Dead History, Template Gothic e outras), que ajudaram a construir a face de um década. Citações, trabalhos, amostras das fontes e um pouquinho de suas histórias espalham-se pelas páginas do Vade-mécum. Isso constrói o aspecto vivo, orgânico e empolgante do livro.

Mas há também o lado racional, métrico, preciso, apresentado nos capítulos que falam sobre as famosas unidades de medidas paicas e Cíceros com seus pontos e toda a complexa nomenclatura que define as fontes em suas hastes, olhos, ascendentes, ganchos e travas.

Complexa é a diversidade das práticas e entendimentos da tipografia, que compreendem desde o desenho das fontes à composição de uma página, à escolha e aplicação do tipo mais adequado ou mais expressivo ao trabalho que se propõe a fazer.

De fato, a tipografia há tempos é assunto que não interessa mais apenas aos designers. Difundida por toda a parte, ela é de interesse para qualquer um que trabalhe com comunicação e queira compreender melhor os detalhes desta disciplina.

Atualmente há diversos livros sobre o assunto, mas o Vade-mécum de Tipografia é um ótimo primeiro passo, uma leitura rápida que será ainda revisitada para consultas pontuais. Um bom guia para começar a caminhar por esse fascinante país de caracteres e símbolos. 

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