terça-feira, janeiro 22, 2013

Mulher-Gato


Essa é uma das capas mais bacanas de quadrinhos que já vi.

Veja só isso. Viaje na imagem.

A princípio, a gente meio que confunde o que está acontecendo. Sabemos que estamos vendo a Mulher-Gato, uma moldura e um cofre. Mas tem uma série de detalhes que a gente vai descobrindo depois.

Primeiro que a moldura porta um espelho, e não um quadro. Daí a confusão, porque vemos a imagem da gatuna olhando para nós, e demoramos a nos dar conta de que a cena é totalmente construída a partir dos olhos de Selina. Vemos exatamente o que ela vê.

O reflexo do espelho confunde-se e prolonga-se na sombra projetada na parede, as formas coincidindo com exatidão. Olhando novamente para o espelho, atrás de Selina vemos outro círculo, que também coincide com o círculo do cofre.

Mas o cofre é "real", está na parede, estamos olhando pra ele. O círculo atrás logo atrás da cabeça de Selina é o reflexo de um corte perfeito no vidro da janela do quarto, por onde ela entrou. Perceba o vidro ao redor, seus reflexos e superfície criados apenas com a cor.

Um clarão de luz direta entra pelo círculo, logo acima do ombro da moça, e projeta sua sombra na parede, coincidindo as formas refletidas.

Há basicamente dois matizes predominantes: o alaranjado da parede, do cofre e das luzes na moldura e no espelho, e o violeta da roupa da gatuna e das sombras.

É uma cena muito legal, que se desdobra em reflexos e imagens, em camadas de representação e pontos de vista.

O autor da ilustra, Adam Hughes, conta que a inspiração veio num quarto de hotel, quando ele se olhou no espelho no exato momento em que um helicóptero que passava projetou um facho de luz. A imagem ficou na sua cabeça e acabou virando uma capa da Mulher-Gato. "Mantenha os olhos sempre bem abertos", ele diz. As ideias estão por aí.

Outra curiosidade bacana é que para compor sua Mulher-Gato, Hughes baseou-se na atriz Audrey Hepburn.

Adam Hugues faz esboços à mão usando marcadores (ou markers, canetinhas coloridas chiques), depois faz o desenho detalhado a nanquim e finaliza com a colorização digital.

Uma curiosidade nesse trabalho é comparar o esboço original com a capa finalizada.



Além dos rostos e da linguinha de fora, a diferença gritante é o decotão e os peitões da Selina.

No esboço original, ela tem o uniforme fechado até o pescoço. Na capa impressa, há uma óbvia erotização e exploração da  figura feminina, coisa muito comum no mercado de quadrinhos de super-heróis.

Se, na versão final, o uniforme fosse fechado até o pescoço, toda a atenção cairia sobre o rosto, especialmente sobre o olhar, que está muito próximo de um dos "pontos focais".

Não sei dizer se seria uma capa melhor, mas acho que funcionaria mais dentro da proposta. Gosto de decotes, mas eles muitas vezes tiram a atenção  do que realmente importa, no caso, a composição bacana que Hughes elaborou.

(Aqui eu chamo de "pontos focais" os pontos de convergência da regra dos terços, que é uma regrinha pra quem fotografa ou desenha organizar os elementos de sua imagem orientando-se por uma divisão da altura e largura em três partes iguais. Os pontos onde essas divisões se encontram são áreas que supostamente atraem a atenção do olhar humano. Funciona bem pra muita coisa. Aplicando a regra dos terços pra capa da Mulher-Gato temos...
... e vemos que o olho dela está muito próximo de um dos pontos de convergência. Se você começar a olhar capas e cartazes por aí, pensando nessa regra dos terços, vai perceber uma série de princípios de organização. )

Se você curtir os trabalhos do Adam Hughes, eu recomendo o livro Cover Run, com uma coletânea de capas que o sujeito já desenhou. Livro bem bacana. :-)


2 comentários:

Law disse...

Que post incrível! É legal reparar em coisas que normalmente não damos muita atenção, principalmente se for uma ilustração!
E achei demais a Audrey ser inspiração pra uma Mulher Gato.

Róger Araujo disse...

Post realmente ótimo!
Um abraço, Liber!