quinta-feira, janeiro 17, 2013

Superdeuses



Uma vez uma amiga veio conversar comigo sobre super-heróis.

Começou aos pouquinhos, perguntando sobre poderes, capas, coisinhas assim.

E de repente ela soltou: "e quando eles enfrentam uma coisa que não podem vencer, como fazem?"

Que tipo de coisa, eu perguntei. E fomos conversando e ela acabou me contando que estava vivendo uma situação muito ruim na família, uma daquelas barras pesadíssimas.

Ouvi tudo e fiquei ali olhando pra ela de boca aberta, sem ter o que dizer. E ela perguntou de novo: "o que um super-herói faz quando não pode vencer?"

Tempos depois, eu me lembrei um bocado dessa moça querida quando lia o livro Superdeuses, do Grant Morrison.

O Morrison é um dos autores mais badalados dos quadrinhos e escreveu algumas das minhas histórias favoritas (We3, Asilo Arkham, Homem-Animal). O cara adora super-heróis e fez esse livro contando toda a trajetória desses personagens. Só que da perspectiva maluca dele.

Não vou recomendar a leitura de Superdeuses pra você, a menos que você seja nerd tarja preta ou tenha uma curiosidade mórbida por causos freaks de desenhistas, fãs e dos próprios personagens.

O que interessa é que Morrison ama super-heróis de coração, tem um texto lindo e consegue te fazer olhar empolgado pra mais constrangedora e absurda das histórias. O homem viaja nas palavras e viaja bonito, fala sobre magia, superconscíência, sociologia e física quântica, tudo a partir das histórias do Super-Homem e seus camaradas.

Alan Moore, um dos maiores fodões dos quadrinhos, já trabalhou com super-heróis mas parece que não gosta muito deles não. Sua obra-prima, Watchmen, é a desconstrução absoluta e impiedosa desse tipo de personagem. Para Moore, o super-herói só podia ter aparecido nos EUA porque é a simbolização da maneira como aquele país se enxerga: moralmente superior e dotado de poderes e do direito de intervir como bem entender e ditar a lei de acordo com suas próprias ideias.

Para Moore, o super-herói é opressor, covarde e fascista. Só interfere porque seus poderes o colocam acima dos outros seres humanos e impõe a todos o seu próprio código moral de maneira unilateral.

Morrison consegue enxergar o que há de melhor nos heróis. Para ele, é tudo uma grande fantasia, uma celebração de quem nós realmente queremos ser, além de nossas frustrações, de nossas fraquezas. É a inspiração para se tornar algo bom no melhor sentido da palavra. Essa é uma ideia que me comove muito.

Talvez o trabalho mais pungente de Morrison nesse sentido seja sua fantástica série Superman All Star. O autor faz uma trama que mostra um Super-Homem moribundo, vítima de uma doença inexorável. Ao longo de 12 episódios, Morrison mostra praticamente todos os mitos do Super-Homem e abraça a ingenuidade do personagem. Mostra situações absurdas, mas ao mesmo tempo carregadas de uma poesia comovente.

E ao final o Super-Homem morre, após salvar o mundo uma última vez.

E daí eu volto pro começo, para a pergunta da moça: o que um super-herói faz diante de algo que não pode vencer?

O que ele faz sempre: oferece o melhor de si e aguenta até o fim.

E talvez isso ajude a responder outra pergunta: pra que servem os super-heróis, se eles nem existem de verdade?

Daí vem a resposta de Morrison: super-heróis não servem para nos mostrar nossos podres, nossas fraquezas, nossas mazelas. Eles servem para mostrar aquilo que poderíamos ser. Não se trata de voar, ser a prova de balas ou lançar lasers pelos olhos. É uma questão de voar com o espírito.

E acho que foi algo assim que respondi para minha amiga. E no fim, ela superou aquela fase ruim. Lógico que ela ia superar. Ela é uma garota fantástica.

Gosto de lembrar dessa conversa sobre super-heróis e sobre as farpas do nosso mundo real. Gosto de pensar que a gente pode se surpreender com as pessoas e até com a gente mesmo.

Saber que a gente ajudou um pouquinho a aparar as farpas do mundo pra alguém. E esconder aquele sorriso, o mesmo sorriso que se tinha aos cinco anos, quando amarrou uma toalha nas costas e correu pelo quintal acreditando que podia voar.



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Quem quiser, pode conferir Superdeuses em português com a ótima tradução do Érico Assis. A capa do livro é medonha, mas o conteúdo é ótimo.

3 comentários:

Leleca disse...

que bonito isso. segurei as lagriminhas aqui.

Zeh disse...

Me vi nesta discussão da arrogância do super-heroi intervir a hora que quer, mas também representar a esperança do potencial humano assistindo a série person of interest!

Questão que sempre vale ser levantada, mas não me arrisco posicionar hah!

Diego disse...

Lindo.