segunda-feira, junho 17, 2013

A traição das imagens


Essa foto tem história. Ou histórias.

A imagem foi capturada pelo fotógrafo Clayton de Souza em março de 2010, durante uma manifestação de professores que terminou em conflito com a polícia. A manifestação foi em São Paulo, durante o governo de José Serra.

A primeira versão dizia que o sujeito da fotografia carregando a policial ferida era um professor:
A insolvência moral da política paulista gerou esse instantâneo estupendo, repleto de um simbolismo extremamente caro à natureza humana, cheio de amor e dor. Este professor que carrega o PM ferido é um quadro da arte absurda em que se transformou um governo sustentado artificialmente pela mídia e por coronéis do capital. (Leandro Fortes, em texto publicado dia 26 de março de 2010)
Logo em seguida, a Polícia Militar desmentiu a história, dizendo que o sujeito da fotografia era um policial à paisana:
A Soldado Érika Cristina Moraes de Souza Canavezi contou que foi ferida com um golpe de madeira no rosto, quando compunha a tropa da Polícia Militar na manifestação da greve dos Professores. Machucada, Érika foi imediatamente socorrida por um policial militar à paisana. (Blog da Polícia Militar do Estado de São Paulo, em 27 de março de 2010).
Então, qual é a versão verdadeira?

O sujeito era um professor ou um policial disfarçado?

1- SE O SUJEITO ERA UM PROFESSOR: Se essa for a verdade, aconteceu que um manifestante mostrou solidariedade com a PM em dificuldade. Isso faz muito mais do que humanizar de forma indiscutível o manifestante e cobri-lo de dignidade. Muito mais que isso, transforma-o num símbolo de solidariedade fortíssimo. E, portanto, torna a legitimidade da manifestação praticamente inatacável. Considerando o que a polícia fez naquele dia 26 de março de 2010 contra os professores, essa hipótese praticamente santifica o professor.

2- SE O SUJEITO ERA UM POLICIAL INFILTRADO: Se você ler a postagem na íntegra no blog da polícia, vai ver que a PM ferida tem nome: Érika Cristina Moraes de Souza Canavezi . O policial infiltrado não tem nome. No texto da polícia militar, os professores são marginalizados e a violência dos policiais é justificada. Diante dessa hipótese eu pergunto: os professores são considerados um grupo criminoso perigoso que justifique a presença de um agente infiltrado, cujo nome não é revelado?

Se eu pudesse escolher, eu gostaria que a primeira hipótese fosse verdadeira. Ela seria um símbolo de solidariedade, uma lembrança inegável de que todos somos humanos, todos somos iguais. Que nós podemos ser bem melhores do que imaginamos, que podemos perdoar e superar as diferenças. Muito lindo isso.

Mas, infelizmente, a segunda hipótese é a verdadeira. O homem é um policial infiltrado na manifestação dos professores.

A partir da fotografia, presumindo que se tratava de um professor, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) tentou identificá-lo e localizá-lo, mas não conseguiu.
...o suposto professor é um policial militar do serviço reservado (ou secreto) da Polícia Militar paulista. É um P2, como são chamados. (...)
Aos poucos a verdade sobre a foto famosa da manifestação dos professores vai se revelando. Mas ainda há muitas perguntas sem respostas. Por exemplo, qual era a missão dele na assembleia dos professores? Levantar informações sobre o andamento do movimento? Fazer provocação? Ou o quê? A mando de quem? Qual a intenção? Criminalizar a Apeoesp?
(Conceição Lemes em Viomundo, 27 de março de 2010)
Boas perguntas. Pra que a presença de P2 no meio das manifestações?

Esse post se originou de uma conversa de facebook, com a Talita Rodrigues. Ela escreveu:
Bom, em toda manifestação tem P2 (infiltrados). Pra descobrir quem sao os lideres, estratégias e poder tirar fotos para identificar quem Tá envolvido. Meu namorado participava da bicicletada e tem varias historias de P2. A PM não divulga o nome pra proteger a identidade do cara, né? Se ele trabalha na inteligência como infiltrado não pode ser exposto. Embora depois dessa foto ele seja mega reconhecivel. Você acha que a policia vai admitir que infiltra policiais em movimentos como trabalho de inteligência?
Sei que é triste, mas é verdade... Vimos dois caras na quinta que desconfiamos que eles eram P2, um deles estava pondo pilha pra galera quebrar tudo...
E aqui eu termino me sentindo bobo e triste. Porque eu realmente queria acreditar que o cara da foto era um professor. Porque ia ser lindo, ia ser um símbolo de solidariedade e tal.

Mas não. A foto é um retrato de como a nossa polícia trabalha.

Se os P2 estão na multidão para incitar quebra-quebra e justificar a violência da polícia, então qual é o sentido disso tudo? A polícia serve pra que? Protege a quem?

Proteste em paz. Leve flores. Faça barulho. Faça amor.

Não deixe os mentirosos e brutos ditarem como devemos viver nossas vidas.

Cuidado com a polícia, mas não tenha medo dela.

Um dia esses soldados vão perceber que somos todos iguais e estamos do mesmo lado.



2 comentários:

Marcos Ian disse...

vai ajudar esse link aki


http://www.e-farsas.com/a-rejeitada-do-abc-rapaz-nega-pedido-de-casamento-no-meio-da-rua.html

eliana disse...

Belíssima análise!