terça-feira, junho 11, 2013

O feminismo segundo Pondé

Minha parceirinha me passou, indignada, o link pra essa coluna do Pondé.

"Leia preparado para vomitar", ela disse.

Não li na hora, deixei pra ler depois.

Tipo assim, o que eu sei do Pondé: vi um depoimento dele pra série O Estranho Planeta dos Seres Audiovisuais. Ele estava sendo entrevistado, sentado numa cadeira, usava boina, óculos escuros, fumava cachimbo. Pelo menos, é o que está na minha memória. E daí ele ia falar sobre uma questão filosófica, uma abordagem sobre as naturezas da realidade, da verdade e da ficção, que era to tema do programa. Não lembro bem o que ele falou, acho que citou o mito das sombras na parede da caverna e fez algumas considerações e coisas assim.

O que mais eu sei sobre o Pondé: um colega professor que se considera reacionário ´

(sério, ele chegou pra mim e falou "podem me chamar de reacionário"; lógico que tem todo um contexto em torno, mas garanto pra você que ele não defende ideias socialistas)

um colega professor que se considera reacionário falou "tinha que trazer o Pondé pra dar uma palestra, o teatro ia lotar". Ah sim, tem também mais uns dois amigos meus, gente cabeça, leitores de filosofia, acadêmicos, que também falam "ô, o Pondé é legal!". Tipo, esses eu não sei se se consideram reacionários, mas imagino que não.

Ah, tava esquecendo das minhas amigas cult, que me falam que o Pondé as faz passar mal.

(nota: os caras que gostam do Pondé (e são "caras", "homens") falam dele sorrindo, as meninas, mulheres, falam dele com um olhar de quem acabou de ver um cachorro ser atropelado na rua)

Enfim, eu nunca tinha lido nada do Pondé. Não conheço o Pondé. Não sei qual é a dele. Daí a parceirinha me mandou o tal link.

E li.

Pra começar o título: Bonecas de quatro. Promissor, hein?

E começa dizendo que vai falar de "coisa séria:" mulher. Aliás, se corrige. Não vai falar de mulher. Vai falar de feministas e muitas dessas não são "exatamente" mulheres. Atenção para o "exatamente", por favor. Aí  Pondé pode se referir ao fato de que existem sim muitos homens, heterossexuais, que participam do movimento feminista. Mas a verdade é que não há "um" movimento feminista, mas diversos movimentos feministas. Há uma diversidade de especificidades de causas legítimas de diversas ordens sociais, sexuais e étnicas.

De fato, falar de "um" feminismo é não mostrar muito conhecimento de causa. NÃO. Peraí... Pensando em questões de discurso, falar de "um" feminismo pode ter a intenção de simplificar e abafar uma série de discursos e reivindicações legítimas.

Pondé prossegue com a bronca dizendo que é um absurdo os "fascistas do gênero" se meterem a dizer como devem ser os brinquedos das crianças. "Quando vamos deixar claro que essa coisa de dar boneca para meninos quererem ser meninas é, isso sim, abuso sexual?" ele escreve.

Bom. Então o brinquedo define o que você vai ser quando crescer? Ele te treina, te molda para o que você vai ser quando crescer. E dar bonecas pra meninas quererem ser donas-de-casa é o quê? A ideia é dar uma Barbie pra menina aprender o que é ser "mulher" antes dos cinco anos?

Tipo, sério. Você acha que as crianças ligam pra isso? Elas querem brincar. Com bonecas sim, com bonecos, bolas, ursos de pelúcia, caixas de papelão, revistas em quadrinhos. Querem brincar.

Por que não dar uma Barbie pra um menino? Porque a Barbie é um brinquedo estúpido, que não devia ser dado pra nenhum ser humano. Mas essa é a minha concepção, minha opinião. Se você quer dar uma Barbie pro seu filho, vá em frente. Se o menino quer uma Barbie, dê pra ele. Criança não vê ideologia, não vê regras sociais. Nós vemos. A paranoia é nossa.

Questionar que tipo de brinquedo vamos dar aos nossos filhos é questionar uma ordem estabelecida: homens devem ser ativos, ter atitude, dominar. Mulheres devem ser delicadas, passivas, servir.

Falando em servir, Pondé fala a seguir sobre um filme que assistiu onde um homem transava com um travesti, "o travesti de quatro, o homem por trás". Primeiro ele reclama brevemente dessa mania do cinema nacional tentar construir "consciência social (essa nova categoria da astrologia)". Diz que esse tipo de cinema "é sempre chato e ruim".

No jargão acadêmico, a gente chama isso de "cagar regra". Professor Pondé decretou que cinema com proposta de consciência social é sempre chato e ruim e que consciência social é uma nova categoria da astrologia.

Se tomarmos por base o texto do Pondé, podemos entender "consciência social" como tornar evidente as misérias e desigualdades gritantes dentro de nossa sociedade. Por exemplo, presídios, que são máquinas de fazer monstros, depósitos pra deixar marginais fermentando e satisfazer a sede de justiça do "cidadão de bem". Ter consciência dessas disparidades e realidades sujas é algo que me parece que o Pondé não leva a sério. E falar, mostrar essas disparidades é "sempre chato e ruim". Tipo Cidade de Deus  e Tropa de Elite.

Mas o ápice do texto do Pondé é a transa de quatro. Porque, segundo ele, "especialistas" em gênero fizeram um debate sobre o tal filme dos presidiários e condenaram a posição de sexo por reiterar a questão de dominação homem/mulher.

Daí o senhor Pondé começa a cagar regras sobre como o sexo deve ser. Para ele, transar de quatro é " uma das posições mais preferidas pelas meninas saudáveis". AH, GARANHÃO! Tá sabendo de tudo!

Daí ele afirma que, segundo nossas fascistas de gênero, as heterossexuais devem ficar sempre por cima para olhar nos olhos do opressor e jamais (preste atenção: eu disse jamais!), ao fazer sexo oral (melhor não fazer), "jamais engolir sêmen, que é excremento como xixi e coco".

Lembro daquele filme com o Jude Law, Alfie, o sedutor. O garanhão machista preferia ficar por baixo, porque podia "confortavelmente assistir todo o espetáculo de peitos, gestos, caras e movimentos enquanto a menina fazia todo o trabalho".

Ficar por cima, por baixo, dar tapa, levar tapa, meter o dedo no cu, levar o dedo no cu, chupar, ser chupado... sexo é uma coisa tão íntima, gostosa e diversa. Casais diferentes, sexualidades diferentes. Transar com uma pessoa é diferente de transar com outra. Cheiros, afinidades. É tão gostoso descobrir uma nova pessoa na cama. Na hora de fudê, eu prefiro deixar os teóricos e teóricas fumando cachimbo na varanda.

Finalmente, o senhor Pondé faz uma DENÚNCIA: "Quando vamos perceber o fato óbvio de que o feminismo é a nova forma de repressão social do sexo? Principalmente do sexo heterossexual feminino? Ao se meter embaixo do lençóis, essas azedas atrapalham a já difícil vida sexual cotidiana."

Bom, a minha parceirinha se pronunciou:

diga lá que eu não sabia que os critérios pra poder me considerar mulher eram tão rígidos e que a partir do texto dele eu vou ter que assumir q sou homem. Que como uma educação que contempla a diversidade - a diversidade!!!! - pode ser fascista???? Que ele não sabe nada sobre mulheres feministas... Nunca trepou com uma. Saberia que elas são donas do próprio gozo. E talvez a suspeita disso o amedronte... Ah... o que esperar de um cara que disse q o viagra fez mais pela sociedade que o Marxismo...

Eu vou copiar e colar isso no texto, tá?

Ah... N cola não... Tá feio. É só resultado da minha raiva.

Tá ótimo! Tá espontâneo!

A verdade é assim: um homem não pode falar por uma mulher. Não pode chegar e dizer do que ela gosta, o que ela pensa, como ela tem que agir. Não pode dizer que as coisas são assim mesmo, que isso é tudo natural, "agora fica de quatro que eu quero lhe usar".

É isso que esse texto do Pondé faz. Ele diz que a mulher tem que ficar de quatro. Começa já no título. Ele diz que consciência social é novo ramo da astrologia. Ele, homem, quer proteger a mulher do feminismo.

É merda demais pra quem tem um currículo Lattes tão grande.

E eu dediquei espaço demais pra um cara que não merece.

Enfim... se você quer conferir na íntegra as palavras do filósofo, ensaísta e escritor Luiz Felipe Pondé em sua coluna na célebre Folha de São Paulo, clique aqui.

E tenha um bom dia.

8 comentários:

Marcos Faria disse...

Obrigado por cumprir a importante função social de ler o texto do Pondé e me dizer tudo que eu precisava saber a respeito. Eu não teria aguentado (e não queria dar mais um pageview pro sujeito).

Anônimo disse...

Recomendo o livro do Pondé chamado "Guia Politicamente Incorreto da Filosofia" :)

Koppe disse...

Não sei se tu sabe, mas pra escrever esse texto ele usou como fonte uma notícia falsa, humorística.

Aqui: http://web.archive.org/web/20130117231308/http://bobagento.com/movimento-feminista-pede-para-mulheres-nao-mais-transarem-de-quatro/

Lá no fim do site está "O conteúdo desse site é fictício, recheado de ironia e sarcasmo, estamos aqui de brincadeira."

Só pra completar, até agora a única coisa que consegui achar sobre "Helena Ramirez" foi essa 'notícia', e a foto que supostamente seria dela na verdade é de uma britânica chamada Anne Diamond.

Paulo Henrique Lima disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
liber disse...

Oi, Paulo.

A impressão que se seu texto me deu foi que você, Paulo, disse que eu não soube ler o texto do Pondé.

Você disse que é necessário ter uma maturidade básica para lê-lo e que sugeriu que eu o li como um cristão fundamentalista lê a Bíblia.

Certo?

Então, posso supor que você me chamou de fundamentalista e imaturo.

Em resposta, o que eu posso dizer?

Posso lhe garantir que eu tenho maturidade e que li e entendi o texto do Pondé.

Posso lhe garantir que entendo e apoio os movimentos feministas bem mais que o Pondé.

Não preciso nem quero ler todos os livros dele para "ver como ele é legal". Ter um doutorado, uma pilha de livros publicada e usar argumentos eruditos não justifica a pessoa ridicularizar movimentos sociais legítimos como são os movimentos feministas.

Acredito que você não leu direito ou não entendeu meu texto. Acho que te falta maturidade pra entender que um imbecil que escreve que "consciência social" é uma categoria da astrologia não entende absolutamente nada de hipocrisias sociais. Ou talvez você seja fundamentalista demais pra enxergar a maldade e os preconceitos do seu ídolo.

Se você concorda com "um bom número dos pontos de vista dele" e acha que "as ideias dele são legais", o que eu posso fazer? Nada.

E, veja só, já tive algumas experiências de discussão nesse blog e em redes sociais. Sinceramente, não acredito em debates "frutíferos". Não quero ficar lendo comentários tentando me convencer que o Pondé é legal, que ele está certo e que eu entendi errado o texto desse senhor.

Por isso, eu gostaria que você não se desse o trabalho de me responder. Por favor. Mas, se me responder, eu me dou o direito de não publicar, ok?

Tenha um bom dia.

:-)

Anônimo disse...

Eu também não sabia nada sobre o Pondé até lê-lo na folha (edição impresa) e foi exatamente esse ridículo "bonecas de quatro". Eu não escreveria algo mais lúcido do que esse texto do blog a respeito do colunista Pondé. Parabéns!!! O cara é um mala realmente. Assinado: Rafael Bahov.

Anônimo disse...

O Pondé, em momento algum, condena a mulher que não gostar de fazer sexo "de quatro" ou englir sêmen ou seja lá o que for. Ele só defende as mulheres que gostam.

Claro que ele é ácido, e isso pode irritar alguns, assim como esse texto de cima me irritou bastante, mas o que ele criticou foi justamente a ditadura sexual, que, de fato, algumas pessoas praticam.

Amigas minhas, inclusive, já me disseram que NUNCA fizeram sexo "de quatro" pq isso é coisa de mulher submissa. Eu acho isso ridículo, pq tenho amigas que considero feministas, porém bem-resolvidas, segundo as quais a melhor posição é justamente essa. Mas beleza, não quer fazer por motivo x ou y, não faz, só não vem meter o bedelho em quem gosta. E, queira ou não, não fazer sexo "de quatro" afirmando que é coisa de mulher submissa é um baita de um preconceito com as mulheres que gostam.

Ele só prega a liberdade sexual, ponto, e critica ferrenhamente quem queira invadir a vida sexual saudável de outras pessoas.

Anônimo disse...

O "Anônimo" acima disse (quase) tudo. Pra bom entendedor, meia palavra basta.
Eu até ia explicar os outros pontos do que o Pondé falou, mas acho que quando a discussão desce muito o nível, sobra apenas um discurso para a própria platéia. Não existe discussão de ideias.