sexta-feira, junho 21, 2013

V de "Você sabe o que essa máscara significa"?



Lógico que você sabe.

É a máscara do V. O personagem misterioso e carismático daquele filme com a Natalie Portman, com a voz maneira do Hugo Weaving. Você assistiu né?

Lógico que assistiu. Daí você sabe que o V é um sujeito que começa o filme salvando a Natalie Portman dos policiais malvados de um governo totalitário, em um futuro não muito distante. Lembra disso? E daí a Natalie fica fascinada com essa figura, o V, que jamais tira sua máscara, jamais revela o seu nome, e faz discursos para a população e ataca diretamente o regime opressor e defende a LIBERDADE.

E, no final do filme, a população toma as ruas, de máscara, e todos somos V e o regime é derrubado e V morre num confronto final com os caras do mal. Massa véio!

Mas você sabia que V de Vingança é, antes de tudo, uma história em quadrinhos escrita por Alan Moore na década de 1980? Ah, claro que sabia!

E você leu os quadrinhos? E já parou pra pensar nas diferenças entre os quadrinhos e o filme? E nos pontos em comum?

O V dos quadrinhos não é bonzinho que nem o do filme. Ele não faz panquequinhas vestindo avental nem chora apaixonado.

Nos quadrinhos o V é um monstro.

Irrefreável, inescrupuloso, assustador.

No cinema e nos quadrinhos, V surge em um campo de concentração, onde o governo totalitarista prende todas as minorias, todos os esquerdistas, gays, negros, todos os "desviantes". Nesse campo de concentração médicos realizam diversas experiências com essas pessoas. Todas morrem, menos uma. O ou a sobrevivente é paciente da cela cinco. Cinco em algarismos romanos é V.

(Sim, nos quadrinhos é possível que V seja uma mulher).

Mais explicitamente que no filme, o que motiva o V dos quadrinhos é seu plano de vingança. Ele tem uma lista de pessoas que quer matar. E mata. Mas, mais do que isso, ele quer matar o regime político que possibilitou toda essa violência. Ele quer por abaixo toda a estrutura totalitária. Ele quer acabar com todos os frutos e vestígios dessa estrutura, incluindo a si mesmo.

Essa é uma leitura que frequentemente fica de lado. O que cativa as pessoas em V de Vingança, seja no filme ou nos quadrinhos, é a ideia romântica de lutar pela liberdade. No filme, ele é um tolinho que chora apaixonado pela personagem da Natalie Portman. No quadrinho, ele a tortura deliberadamente para forjá-la no tipo de soldado que precisa.

V não quer libertar o povo. Ele quer se vingar do governo que violentou a ele e a seu mundo. O governo que sufocou e destruiu todo um mundo de sensibilidade e diversidade. Ele quer aniquilar completamente esse governo e não vai medir esforços pra isso. É o que fica escancarado nos quadrinhos e apenas insinuado no filme.

No final dos quadrinhos, não há uma marcha bonita e harmoniosa de pessoas unidas como no filme. O final dos quadrinhos é o caos, é uma sociedade posta abaixo. Saques, gritos, violência. Não interessa como essa sociedade vai se reerguer. A história termina ali, porque V conseguiu sua vingança. O povo não era importante. A vingança era a causa principal.

A máscara de V foi criada pelo desenhista da série, David Lloyd, procurando representar o rosto de Guy Fawkes, que participou da "Conspiração da Pólvora" em 1605 e tentou explodir o parlamento inglês, buscando assassinar todos os membros e o rei.

A violência e a necessidade de destruir o estado marcam os perfis de V e de Guy Fawkes.

Daí você põe sua máscara de V de Vingança e vai pros protestos gritar "sem violência". Daí você reclama da violência da polícia opressora, mas espanca as pessoas sem máscara, que erguem bandeiras vermelhas, "porque todos os partidos são iguais e não queremos eles". Você não acha isso incoerente?

V sabia exatamente onde queria chegar.

E você, sabe?

Ah, você quer mudanças?

Quer mudar exatamente o quê? Quer mudar pra onde?

Quer por tudo abaixo e começar de novo? Tem noção do que isso significa? Mesmo?

Por uma máscara e manter uma "identidade secreta" não é a melhor solução pra todos os casos. Você precisa saber o que está fazendo. Você precisa entender bem o quadro da política e da sociedade na qual está inserido. Se for fazer alguma coisa, entenda exatamente o que está fazendo ou pelo menos tente.

Saiba que você não está sozinho. Saiba que há pessoas que compartilham de sua opinião e outras que não. E que espancar as pessoas que não compartilham de sua opinião pode ser legal em gibis e filmes, mas não é aceitável na vida real.

Entenda o que te incomoda. Estude, compreenda. Dialogue. Pense. Articule-se.

17 comentários:

Anônimo disse...

Só que Guy Fawkes era católico e monarquista. E não comunista e anarquista. Ele estaria com vergonha de vocês agora.

Anônimo disse...

Na época do Guy Fawkes comunismo e anarquismo não existiam. A associação é de tomar a decisão de fazer as coisas pelas próprias mãos: nem o V da revistinha nem o Guy Fawkes lideraram movimentos, eles resolveram atacar o governo com atos de violência indivuais.

É meio bobo tentar encontrar uma associação muito direta entre as coisas. O pessoal achou o filme legal, ele era vagamente sobre rebeldia política, já é suficiente para justificar.

Rodolfo Thiago Ferreira disse...

Até onde sei sobre símbolos (é o que a máscara de "V" significa), eles não necessitam obrigatoriamente de verdade histórica, necessitam que as pessoas que os sustentam acreditem num determinado motivo qualquer para sustenta-lo. Claro que se "V" significa "ódio, vingança (ou justiça da minoria), etc", e as pessoas utilizam-se dela com intuito de fazer "paz, amor, etc" é somente falta de conhecimento sobre o símbolo, não deturpando em nenhum momento a causa ao qual o símbolo foi empregado. Hoje, muitas pessoas seguem símbolos que necessariamente podem não ter existido. Símbolos religiosos são um exemplo clássico desde tipo de comportamento. Em geral, as pessoas tendem a não raciocinar sobre o que determinado símbolo significa ou importa. Esse tipo de prática poderia muito bem transformar uma suástica num símbolo de amor ao gays, negros... Isso ocorre porque o que realmente importa, na prática, é o sentido com que um símbolo é utilizado e não o porque foi realmente criado. Por essa linha de raciocínio, um símbolo é tão equivalente a um determinado tipo de tecnologia que pode ser facilmente desvirtuado. Um exemplo disso são os foguetes V2 (idealizados por Werner Von Brauw) desenvolvidos (em campos de concentrações)e utilizados para guerra que depois vieram a fornecer subsídios científicos suficientes para toda a atual (e pouco eficiente) tecnologia de foguetes espaciais de uso pacifico.

Riorgior Ranger disse...

Aos 38 minutos, para entender o porque dessa máscara. Não faz sentido com a história, mas tem uma lógica.

https://www.youtube.com/watch?v=q4Qp-bEjZQc

Nano Falcão disse...

Li V de Vingança já umas quatro vezes (era muito jovem quanto da primeira) e a análise da HQ foi muito feliz. É exatamente isso.

Uma coisa que o filme propagou (e que não existe na HQ) é todo mundo usar a máscara de V no final. O próprio V deixa claro que ele não é um herói (na HQ). E que ele deve "morrer com o velho mundo".

Fui pra rua desde os anos 90, participei de manifestação, e jamais usei máscara. E jamais seguiria ORDENS de uma máscara no facebook. Como saber que por trás da máscara não se esconde justamente o Irmão Adam???

Diego Lins disse...

comparo isto a uma Suástica, que para diversas tribos tem seu significado. Creio que quem utiliza, não é no sentido retratado no gibi e sim do filme, a partir da criação do filme. Temos dois símbolos para esta máscara e creio que o segundo é o que esteja sendo usado. O que interpretei nas ruas nestes dias de manifesto, foi apenas a vontade de que o governo trabalhe com eficiência, mas não que seja necessário mudar a Dilma pelo Superman, ela mesmo deveria ser o motivo de transformação. No entanto, devido a sua omissão alguns com ânimos mais alterados já pedem pelo impeachment

Anônimo disse...

A partir do momento em que o FILME foi lançado, ele já passa a fazer parte de algo que 'serve de inspiração'.

Não precisamos da veracidade por trás de tudo, o filme foi uma adaptação, o personagem foi adaptado, e é a esse personagem adaptado que as pessoas copiam e se inspiram.

As pessoas querem ser heróis, salvadores, querem trazer a paz e tudo mais.
Provavelmente não sabem o que querem, não sabem onde vão chegar, mas é por falta de um lider.

Mauricio disse...

Ja achei vários erros: 1- Tenho o quadrinho e estudo o anarquismo há algum tempo. 2- uma coisa que o texto confunde é a ideia de anarquismo e caos. o próprio personagem v define: Caos é a desordem, e a Anarquia é a ordem voluntária. Ou seja, ele define tb que o caos é necessario pra que se crie a paz, afinal, o povo precisa se acostumar a liberdade. Uma evolução natural. 3- a vingança no quadrinho é sim o motivo inicial da história. Porém, ao longo do curso a ideia de V se esclarece e a prioridade vira sim, o povo. 4 A violencia- sim, ele é um quadrinho violento. Porém, várias vertentes anarquistas diferem quanto a isso. Ele não chega a citar, mas o métodos que usa sao os de Bakunin que defende o ataque direto ao poder (inclusive assassinato de lideres) mas nem todas vertentes são assim, por exemplo, o anarco pacifista (Tolstói). Enfim, duvido que o autor tenha lido o texto com mais atenção hahaha

Yu ri disse...

Cara o mais importante no texto e em todos os comentários, principalmente no acima, é o seguinte: Tenha em mente de forma clara o que se busca e no que se baseia. Leia/assista/estude não fique apenas com a opnião dos outros.

Lucas Kahuê S. Cruz disse...

Bom, ele só esqueceu de citar que V, nos quadrinhos confessa sim estar apaixonado pela Evey. E no final quando fala das pessoas indo pra rua, elas vão para derrubar o governo, pois antes de tudo o V mostra o que o governo fez para toda a população, então elas vão as ruas, o caos representa a intolerância das pessoas de ante de seu governo. E isso antes dele concluir sua vingança. Esqueceu de citar também que no final do quadrinho antes dele morrer, ele diz a Evey que por mais que ele tenha sido um monstro ele sempre buscou a liberdade do povo só não soube mostrar isso de forma clara. Disse também que não aceitaria que mais pessoas sofressem por causa de seu governo.

Anônimo disse...

O texto é muito bom e, independente de interpretações de HQs e filmes (o que pode render horas de boa conversa), sempre é importante entender o processo daquilo do que estamos participando, o contexto ao qual está inserido e se perguntar "o quê eu quero?", "como eu quero?", "para quê e para quem eu quero?", e "quais as consequências do meu querer e dos meus atos?". Isso define o caminho a seguir. E, no atual contexto, o mais indicado e prudente é a cara exposta, pois nunca sabemos quem está por trás de uma máscara. Pode ser alguém que quer o mesmo que a maioria, mas também pode ser algum baderneiro, bandido ou infiltrado com interesses escusos, cuja máscara só serve para protegê-lo da necessária identificação. Acho que esse deveria ser o movimento da cara limpa, por uma questão de segurança (no mais amplo sentido)e, inclusive, porque uma das reivindicações é a clareza nas transações políticas e econômicas. Podíamos começar deixando a nossa cara às claras.
Ass. Marcia

liber disse...

Lucas Kahuê Cruz

Pra deixar as coisas mais claras você poderia por favor me indicar as páginas de V de Vingança onde:

1- Ele confessa estar apaixonado por Eve.

2- Onde ele diz que "por mais que ele tenha sido um monstro ele sempre buscou a liberdade do povo só não soube mostrar isso de forma clara".

Obrigado.

Anônimo disse...

com certeza as mascaras que vemos nas ruas são relacionadas a simbologia do filme, ao significado de perpetuação de uma idéia, e quanto a comparação de simbolismo, será que uma cruz tem significado tão puro quanto querem mostrar pq nos tempos idos era apenas um instrumento para matar as pessoas de modo cruel.então vamos proibir as cruzes.as pessoas que estão usando essa mascara estão apenas querendo mostrar sua admiração pelo significado no filme.

Anônimo disse...

Mácaras não devem ser usadas em manifestações como essas. Podem simbolizar pensamentos e ideias relacionados ao tema em questão,ou seja, o filme, mas podem estar sim ressignificadas.Portanto, se ressignificadas, use-as em cartazes, camisas e não para esconder-se. Afinal, o que queremos é que tudo fique às claras, ou não?

Anônimo disse...

Não conheço a HQ mas, a análise feita foi um pouco tendenciosa afinal no filme a personagem V não é tão bonzinho assim com a personagem da atriz Natalie Portman. É o V quem deixa ela presa e manipula ela com cartaz fingindo ser um outro preso (que de fato ele foi no passado) tudo para prepara-la para ser o soldado que ele precisa para o seu plano, como você diz ser no HQ. Portanto, podem ter amenizado o peso da personagem V mas não fizeram dele um homem bonzinho como você diz e não sei para outros mas, para mim, sempre ficou muito claro que aquela ação era uma vingança pessoal do V.
Em resumo, só fiz questão de comentar para lembrar atodos que: ocultar parte do filme para tentar a uma opinião também é manipulação de informação!!!!

Anônimo disse...

Independente do significado, manifestação com a cara a mostra! Só esconde a cara quem precisa se esconder (bandidos, infiltrados, vândalos, manipuladores)!
O próprio grupo Annonymous não é apenas 1. São vários e com posições diferentes entre si. E ninguém sabe quem são os seus líderes, coordenadores ou seja lá como se auto-denominam. Atrás da máscara do V e de qualquer pano enrolado na cara ou touca ninja, pode estar qualquer um que não seja legal.
O que tenho visto é um bando de gente que nunca participou de movimento social nenhum e que acha que o gigante acordou agora. Não! Tem gente séria, que há muito tempo dá a cara a tapa, trabalhando e se arriscando pelas mudanças necessárias. Quem estava dormindo eram os outros e a imprensa, convenientemente. E tem gente que usa a máscara por modinha, sim. Isso já presenciei também.
Quem quer exigir clareza, tem que ser claro! Manifestações sem máscara! E, como diz Cazuza: Brasil, mostra a tua cara!

Nano Falcão disse...

O que mais me enche o saco é o exagero do suposto heroísmo exacerbado nestes tempos em que todo mundo quer ser famoso no facebook. Vivemos numa sociedade extremamente mediática, e "aumentar o conto" faz parte do modo de ser das pessoas que cresceram nesse mundo.

V usa uma máscara (na HQ) por vários motivos, não só pra esconder sua identidade de um governo realmente totalitário que NÃO PERMITE A LIVRE MANIFESTAÇÃO, ao contrário do que temos numa democracia. O equívoco já começa daí, me manifesto desde os anos 90, e nunca tive problemas com governo, polícia, etc. É bem diferente de um regime ditatorial como V encara, onde o anonimato é coisa de sobrevivência. Mas o fato dele não retirar a máscara nem para Eve também solidifica outras pequenas pistas, sendo a primeira de que ele possa ter sido deformado no campo de concentração onde se encontrava (por ser gay, ou lésbica, ou comunista, ou anarquista, ou todas as alternativas acima). A segunda, de ordem mais psicológica, é que a pessoa que V foi morreu no campo de concentração. O que saiu dali foi V, e assim ele se enxerga como este indivíduo, esse monstro que renasceu para se vingar do regime que lhe matou.

O maior problema da máscara de V não são suas inúmeras interpretações, mas o fato que qualquer um pode estar por trás dela, inclusive muita gente que na vida real odiaria tudo que V era, e não pensaria duas vezes em mandá-lo para um campo de concentração, ironicamente. Se nos regimes totalitários, o anonimato é uma necessidade, nos regimes democráticos, em que todos temos direito à informação, ele se torna uma covardia.