quarta-feira, outubro 02, 2013

Noturno

(Texto originalmente publicado como review no site Universo HQ  em abril de 2011).



Essa é a história:

Lúcio e Lúcia conheceram-se em um show de mágica, quando se ofereceram como voluntários para participar de um dos atos. Foi um número de magia surpreendente e depois dele a vida de cada um foi tomada lentamente por uma série de eventos extraordinários. Lúcia e Lúcio não tem mais certeza sobre onde passam suas noites. Sonham com voos, grandes aves carniceiras e mundos com árvores que se erguem pelo infinito. A lembrança desses sonhos mescla-se cada vez mais com a realidade do dia a dia. Acontecimentos aparentemente desconexos convergem para um único e assombroso evento, onde o rapaz e a moça se reencontrarão e a fronteira entre os delírios e a realidade será definitivamente rompida.

Talvez a ficção seja um retrato da forma de uma cultura perceber a realidade. Se for assim, os argentinos devem ter uma percepção bem peculiar do mundo. Com o sabor dos sonhos que se perdem aos poucos no esquecimento da manhã. É o chamado realismo fantástico. Histórias de Borges e Cortázar tem esse sabor. O clássico quadrinho argentino O Eternauta também. O sabor do extraordinário que se dissipa aos poucos na luz do dia, torna-se inalcançável e ao mesmo tempo ainda permanece conosco, lá no fundo de nossa cabeça. O aspecto de sonho, que maravilha e assombra. E agora temos Noturno, de Salvador Sanz. Podemos defini-lo como uma história de fantasia com muitos toques de horror e suspense. Dentro disso, o álbum apresenta uma série de pontos positivos.

O layout das páginas é tradicional, comportado, sem apelo a nenhuma diagramação mais ousada que possa disputar a atenção do leitor com as imagens apresentadas. Ao folhear a edição a primeira coisa que chama a atenção é a arte. Definidos como “hiper-realistas” no texto de apresentação, os desenhos são em traço preto e branco, utilizando tons de cinza que parecem estar lá para garantir que mesmo as cenas diurnas tenham um aspecto de iluminação pálida, indireta.Sanz domina a técnica e a estrutura do desenho, mas seu “hiper-realismo” é relativo: no rosto de seus personagens percebemos que muitas vezes os olhos são um pouco maiores do que a boca. Uma opção estética que lembra o mangá. Sanz domina a técnica e a estrutura do desenho, mas seu “hiper-realismo” é relativo: no rosto de seus personagens percebemos que muitas vezes os olhos são um pouco maiores do que a boca. Uma opção estética que lembra o mangá.

Os pássaros de Noturno, em toda sua variedade de formas grotescas, são um espetáculo visual. Grandes pássaros carniceiros, aves com seis patas e penas que parecem asas de insetos, bicos que exibem dentes cadavéricos. A arte de Sanz também dialoga com o trabalho de M. C. Escher. As pessoas transformam-se em pássaros em sequencias que surpreendem, assemelhando-se muito às metamorfoses criadas pelo artista holandês. E são essas metamorfoses que nos convidam a ler e entrar no segundo nível do trabalho de Sanz: seu universo ficcional.

Os personagens vivem em uma Buenos Aires desenhada com detalhes. Possuem emprego, família e uma rotina que é retratada de modo objetivo. Vivem no mundo “real”. Entretanto, tudo isso é apenas um detalhe no pano de fundo. O que realmente conta é a força dos sonhos, lembranças e imaginação. Os personagens aos poucos percebem que seus sonhos são reais, que os pássaros estão vindo de algum outro lugar inacessível e ganhando substância em nossa realidade. Sanz conduz o roteiro de maneira competente, inserindo flashbacks e distribuindo pistas sobre eventos que irão convergir para o clímax da história. A narrativa também valoriza mais o subjetivo dos personagens do que o mundo concreto que os cerca. Assim como o traço preto e branco, é o contraste entre o real e o imaginário que cativa o leitor.

Além do casal protagonista, temos o personagem Cirilo. Conhecido de Lúcia, ele não é um dos escolhidos para se tornar um Noturno e lamenta-se por isso. Cirilo faz parte do mundo real e testemunha os acontecimentos na vida de sua amiga sem poder fazer parte deles. Ele gostaria de voar, mas não pode. Há também uma série de referências a obras, livros, filmes, que são distribuídas de maneira direta ou sutil. A citação ao Aprendiz de Feiticeiro de Disney é usada para ilustrar que magia é dar vida ao inanimado, inserir o fantástico no cotidiano e transformá-lo em algo extraordinário. Muito mais sutil é a relação que pode se construir entre com o filme A Marca da Pantera,, de 1982, que misturava horror e erotismo. Assim como a personagem de Nastassia Kinski, o sexo feito por Lúcia e Lúcio tem consequências surpreendentes.

Encontramos pontas soltas na história de Noturno. Não se sabe com certeza quais as intenções dos pássaros. Eles querem invadir nosso mundo para quê? Eles são uma ameaça? Entretanto, talvez a ausência de respostas para essas perguntas reforce ainda mais o aspecto de sonho de toda a trama. Não há necessidade de deixar tudo claro. As dúvidas fazem parte da proposta. O único porém de todo o trabalho talvez seja a última cena da história. Nas palavras de um dos personagens: “Que final mais sessão da tarde, por favor!”. De fato, é um final que não corresponde plenamente ao clima construído ao longo da história, embora não chegue a comprometer a obra.

Noturno é uma história sobre fantasia, sobre como a imaginação pode transformar a mesmice do cotidiano. Com certeza, há outras leituras do álbum que podem ser feitas. À parte as interpretações, a obra de Salvador Sanz funciona muito bem como entretenimento, oferecendo ao leitor uma ótima arte e uma história cheia de surpresas, suspense, horror e muita criatividade.

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