quarta-feira, novembro 06, 2013

Quadrinhos de cabeceira

Podem existir exceções, mas penso que todo mundo que faz quadrinhos começou sendo leitor de quadrinhos. Seja na infância ou em um reencontro na adolescência ou vida adulta, é como leitor que começa o fascínio pela linguagem, pela construção de impressões de fluxo de tempo, movimento e ações através das tais "imagens justapostas".

Existem muitos aspectos instigantes na linguagem dos quadrinhos: a relação palavra-imagem; os aspectos plásticos e recursos gráficos, isto é, as técnicas e estilos de produção de imagem empregadas; as diversas possibilidades de relações das imagens entre si e de sua disposição na mídia suporte, seja ela digital ou impressa; os modos e ênfases narrativas; as representações e relações com o contexto social; etc. 

Olhando bem , histórias em quadrinhos são um brinquedo muito bacana, tanto pra quem faz, quanto pra quem lê.

As diversas regras desse brinquedo, desse jogo, podem ser aprendidas em cursos e livros, mas penso que há um tipo de aprendizado muito sutil e profundamente internalizado que provém justamente da leitura dos quadrinhos. Especialmente dos quadrinhos favoritos.

Todo mundo tem os seus quadrinhos favoritos e penso que são esses gibis que dão um tom ou uma orientação para o leitor que passa a produzir quadrinhos. São as tais influências ou as obras que instigam, impressionam e formam sutil ou explicitamente o profissional. Enfim, as "histórias em quadrinhos de cabeceira" que são lidas e relidas com prazer, deixam suas marcas nos leitores e podem moldar novos autores.

Lógico que é algo bem específico, coisa de cada um. Pode-se curtir o personagem e seu universo ficcional ou admirar o trabalho de um determinado autor ou ter uma obra específica que nos assombra pelo resto da vida. Ser fã do Homem-Aranha, adorar o trabalho do argentino Quino ou reler apaixonadamente Os Companheiros do Crepúsculo. Vai saber.

Tem uma pilha de quadrinhos e autores que me fascinam, mas, tem uma série em especial, que quando eu li pensei: "puxa, esse era o tipo de história que eu queria escrever".

Sandman, de Neil Gaiman. 

Não é por causa de Morpheus ou dos Perpétuos ou da magia e mitologia. O que me fascinava mais em Sandman era justamente como Neil Gaiman conseguia retratar o cotidiano. Na minha opinião, o extraordinário e o fantástico ganhavam toda uma dimensão justamente pelo contraste com o "mundano". As coisas simples, as falas, os gestos de gente de verdade.

Por exemplo, na série Morte: o grande momento da vida, a história não acontece por causa de uma viagem mágica para realidades sombrias. Isso está lá, mas o que move a história pra mim é construção dessas personagens verossímeis e seus conflitos comuns.

Gosto muito dessa sequência:




Gosto dos pensamentos da personagem, dos diálogos, dos painéis mostrando detalhes, pequenos gestos, olhares, o fluxo de ideias, assuntos. Coisinhas que vão construindo uma intimidade e uma confiança entre leitor e protagonista.

Esse tipo de coisa me fascinava na época, ainda que eu não soubesse com clareza. As viagens e sonhos de Rose Walker em A casa de Bonecas, as conversas e dramas de Barbie e Wanda em Um jogo de você, enfim, o modo como o autor conseguia dar verossimilhança às palavras e às personagens.

Era essa sequência de Morte: o grande momento da vida que eu tinha na cabeça lá em 2005, quando comecei a esboçar as coisas que Cecília fez. Era esse tipo de atmosfera, de história, que eu queria fazer.

Lógico que no meio do caminho outras coisas vão se misturando.

Alguém pode dizer que também há um bocado de Estranhos no Paraíso, e sou obrigado a concordar, embora as histórias de Katchoo e Francine não estivessem na minha cabeça durante o momento de concepção e execução da hq. Daí penso que certas histórias realmente acabam nos formando, mesmo que não percebamos.

Os trabalhos de Bruce Timm, Darwin Cooke, Chris Bachalo e Glen Keane foram influências mais conscientes, mesmo que discretas. 

Lógico, não é só de referências a quadrinhos que se constrói um gibi. Apesar de estar bem longe de ser uma biografia, as coisas que Cecília fez traz um bocado de episódios e lembranças minhas. Coisas que vivi e histórias de outras pessoas. E um bocado de imaginação. ;-)

Esses materiais que citei aqui são algumas das minhas referências mais queridas, com que mais me identifico e que me instigaram e moldaram para a produção dos meus próprios quadrinhos. Penso que referências são muito importantes. Algo como um mapa, uma orientação dos caminhos que vamos seguir. 

É engraçado pensar assim, mas, mesmo passando horas em cima da prancheta, de certa forma não estamos sozinhos. Essa gente que nem conhecemos pessoalmente e que sempre nos acompanha. 

********

"As coisas que Cecília fez" é um álbum de quadrinhos de 60 páginas em preto e branco, formato 21x28cm. Não é aconselhável para menores de 18 anos. R$20,00 mais as despesas postais. Você pode comprar o álbum na Itiban Comic Shop (www.itibancomicshop.com.br) ou entrar em contato pelo e-mail ascoisasquececiliafez@gmail.com.

Nenhum comentário: