quarta-feira, novembro 27, 2013

You know... for kids



Daí outro dia li no MDM: "Alan Moore xinga os leitores"!

E o que aconteceu foi que o Alan Moore fez uma declaração pro The Guardian:

Eu não leio nenhuma hq de super-heróis desde que terminei Watchmen. Odeio super-heróis. Os considero abominações. Eles não significam o que costumavam significar. Eles estavam originalmente nas mãos de escritores que ativamente expandiam a imaginação da sua audiência de 9 a 13 anos. Era totalmente aquilo para o qual eles foram feitos e faziam isso de forma excelente. Nos dias de hoje, as hqs de super-herói pensam que a audiência é certamente maior que de 9 a 13 anos, não tem nada a ver com eles. É uma audiência amplamente nos seus 30, 40, 50 anos, geralmente homens. Alguém veio com o termo Graphic Novel. Esses leitores se agarraram a isso; eles estavam simplesmente interessados numa forma de validar seu constante amor por Lanterna Verde ou Homem-Aranha sem parecer de certa forma emocionalmente subnormais. Isso é um salto significativo da audiência viciado em super-heróis, viciada em mainstream. Eu acho que super-heróis não trazem nada de bom. Acho que é um sinal bem alarmante termos audiências de adultos indo ver o filme dos Vingadores e se deleitando em conceitos e personagens feitos para entreter garotos de 12 anos dos anos 50.(trecho retirado do MDM).
O Alan Moore é um dos cinco maiores roteiristas de histórias em quadrinhos de todos os tempos. Talvez, O maior. Moore elabora roteiros extremamente complexos, não apenas com tramas paralelas, mas também com personagens muito bem construídos e instigantes. É visível que ele lê um bocado pra elaborar suas histórias e seu talento é indiscutível.

Ele escreveu Watchmen, V de Vingança, A Liga Extraordinária, Promethea, Do Inferno, entre outras. Se você não viu os quadrinhos, provavelmente esbarrou nos filmes. Esqueça os filmes, o lance são os quadrinhos.  Aliás, talvez uma das coisas mais bacanas do Alan Moore é que ele adora trolar a indústria cinematográfica. Ele deixa bem claro que odiou cada filme feito em cima de um quadrinho seu e se recusa a receber por isso ou a ter seu nome nos créditos do filme. Para ele, quadrinhos tem uma linguagem própria e a adaptação para o cinema é esteticamente deplorável e resulta em produtos que só se justificam na ânsia desesperada de obtenção de algum lucro. Assistindo A Liga Extraordinária com o Sean Connery, fica difícil discordar do Moore.

Vez ou outra ele aparece com umas declarações que quebram as pernas desse "mercado" de super-heróis (seja no cinema ou nos quadrinhos). Daí muita gente, principalmente os fãs de super-heróis (os fanboys), fica puta da cara com o velho, chama ele de mau-humorado, chato, esclerosado e por aí vai.

Mas o pior é que acho que Alan Moore está certo. Em partes.

Super-heróis são um conceito infantil sim. Veja só: temos uma pessoa, geralmente um homem, que ganha um poder que o coloca acima dos outros. Ele se torna especial, muito especial. Um protagonista. O mundo gira em torno dele. E todos os conflitos, por mais complexos que sejam, são simplificados a uma briga do bem contra o mal. Esse super-herói, essa pessoa especial, é querida, é admirada, é o centro de todas as atenções e sempre está certa. Diga se isso não é infantil. Uma fantasia infantil.

Daí que quadrinhos como Watchmen chacoalharam os leitores dos anos 80. Moore e outros autores questionaram justamente as bases do super-herói: o maniqueísmo, as simplificações, a integridade. Isso fascinou os leitores na época, mas acho que esse fascínio foi mais por causa do impacto dramático das histórias do que por seu teor crítico.

Por exemplo, em Watchmen há o personagem Rorschach. Ao elaborá-lo, Moore o fez um reacionário intolerante, extremamente moralista, um fascista que não respeitava direitos humanos. Para Moore, Rorschach é um personagem extremamente condenável. Mas, para sua surpresa, o público adorou. Porque eles não viam o reacionário, mas um personagem solitário, dramático e amargurado que se dedicava com todas as forças para lutar pelo que acreditava. Novamente, o "coitadinho" que era melhor que todo mundo e ia salvar o mundo.

Assim, acho mesmo que super-heróis são uma coisa infantil. Mas discordo do Alan Moore quando ele diz que "amar" ao Lanterna Verde, Batman ou Homem-Aranha é coisa de pessoas "emocionalmente subnormais". Os super-heróis trazem também algumas coisas bem interessantes: simbolizam superação e solidariedade. Uma pessoa que é fã de um super-herói provavelmente projeta nele algo de grande significado para ela.

Assim, não vejo problema ou "um sinal alarmante" em adultos estarem gostando dos Vingadores. Trata-se de uma fantasia infantil, não há mal nenhum em se divertir com ela. Lógico que, se olharmos de perto, há muitas coisas em Os Vingadores que podemos pensar: por exemplo, o "mal" vem de fora do planeta. Não é mais uma nação comunista ou asiática, como costumava ser nos quadrinhos dos anos 1960. Para aumentar a audiência e lucro, procura-se respeitar outras nações e etnias. E hoje as pessoas reclamam e contestam mais, como foi o caso sobre o machismo envolvendo a figura da Viúva Negra. Assim, Os Vingadores não foi só diversão descerebrada, mas também foi ponto de partida para manifestações e reflexões interessantes.

Acho que o fato de algo ser rotulado como "infantil" não é demérito e não implica que não se possa realizar discussões interessantes a respeito. Por mais "inocente" que um livro ou um filme pareçam, eles sempre trazem em si vestígios da sociedade e cultura em que foram produzidos e permitem refletir melhor sobre quem somos.

No fim, penso que super-heróis funcionam bem melhor quando não os levamos a sério. Aliás, a vida é bem mais divertida quando não a levamos tão a sério. Mas isso não implica em viver alienadamente.

Penso que é perfeitamente possível viver com leveza e refletir sobre o que se vive.


3 comentários:

Marcos Faria disse...

Eu dou razão ao Alan Moore.

O problema que ele identificou não é o fato de adultos verem filmes de super-herói. É o fato de os grandes sucessos de entretenimento adulto hoje serem os filmes de super-herói (e outros gêneros) que estão no nível de complexidade de uma atração para crianças.

Ou seja: filmes de super-herói podem ser divertidos, sim, mas o que mais os adultos estão vendo além disso?

Anônimo disse...

Sério que viu Rorschach como reacionário? Vi ele como esquerdista, Stalinista.

liber disse...

"Eles tiveram escolha. Todos eles. Podiam ter seguido os passos de homens honrados como meu pai ou o presidente Truman. Homens decentes, que acreditavam no suor do trabalho honesto. Em vez disso, seguiram os excrementos de de devassos e comunistas sem perceber, até ser tarde demais, que a trilha levava a um precipício".
Trecho do diário de Rorschach, logo na primeira página de Watchmen.
Posso achar outros trechos para ilustrar mas... sim, Rorschach era reacionário, era de direita.