quarta-feira, janeiro 28, 2015

Alan Moore vs J.R.R. Tolkien

Uma ideia bem doida pra ilustrar hegemonia, ideologia e a cultura como campo de embate entre diferentes visões de mundo me apareceu enquanto eu escutava o Nerdcast 435, sobre Criação de Mundos. Nossa, tanta coisa me veio na cabeça escutando esse programa...

Primeiro aquela ideia que, por mais distante que um mundo de fantasia pareça do nosso, ele sempre trás em si muito mais coisas da nossa realidade do que elementos realmente novos.

As análises do Jovem Nerd e seus amigos começam justamente pelo Patrono Supremo dos Escritores Fantásticos, o senhor JRR Tolkien. Eles comentam que o universo ficcional de O Senhor dos Anéis é baseado mais em um conceito de religião do que de ciência. A base desse argumento é a de que a Ciência é (mais ou menos) algo construído coletivamente na base da incerteza e na constante comprovação do que se sabe. Ok, a Ciência é algo beeem mais complexo que isso, mas pra efeitos de arguição o que importa aqui é a oposição da Ciência enquanto incerteza com a caracterização da religião como algo ligado com a certeza, a questão da fé e dos dogmas.

Nesse sentido, o pessoal do Nerdcast (acho que o Jovem Nerd) diz que as coisas em O Senhor dos Anéis já são dadas e não há espaço para discordâncias. Todos sabem como o Mundo começou, todos estão felizes e aceitam seu papel. Por exemplo, quando o Aragorn vira rei, todos celebram. Não há dissonância, não há disputas de poder, não há intrigas ou negociações. Pelo menos dentro do que interessa ao narrador e, talvez, ao leitor de O Senhor dos Anéis, problemas como pluralidades e tensões dentro de uma mesma sociedade são irrelevantes. Como diz o Jovem Nerd, não tem nenhum orc que questione sua "natureza má" e queira seguir a vida sossegado no seu canto.

O ponto que me chamou a atenção é esse: em O Senhor dos Anéis, há uma forte questão de escala de superioridade entre os tipos. Elfos são superiores. Os outros são inferiores. Ninguém questiona isso. Tipo, na minha opinião, o raciocínio narrativo de O Senhor dos Anéis parte do conceito de que as coisas tem uma ordem pré-estabelecida, natural, onde cada um ocupa o papel que lhe cabe sem discutir, uns são superiores, outros são inferiores e o que surge para mudar esse quadro, o "diferente", é o "mal", é bruto, nocivo, indigno de diálogo e impossível de conviver. Essa é, pelo menos, uma das lógicas de O Senhor dos Anéis: ele pode ser lido como uma obra conservadora, que prega a manutenção do status quo e considera que todos os que vivem ali estão de acordo e satisfeitos com a ordem das coisas. Lógico que essa leitura é encoberta por todas as outras: o simbolismo da Segunda Guerra Mundial, o companheirismo, o sacrifício para superar desafios, etc. Ainda assim, com base no que o Jovem Nerd falou, eu penso que O Senhor dos Anéis de certa forma simplifica algumas coisas fundamentais da realidade humana, como a diversidade, o convívio e as tensões.

Daí entra a comparação com o mundo fantástico de Watchmen. Apesar de não falar sobre mitologia europeia, a monumental história em quadrinhos de Alan Moore tem em comum com a obra de Tolkien o fato de ser a representação de um mundo fantástico. Moore pega a ideia dos super-heróis e desenvolve um mundo que é muito parecido com o nosso, ainda que totalmente diferente. Na criação de Watchmen, a tal incerteza da Ciência aparece constantemente. Uma sucessão de acasos, de coincidências fantásticas, vai invalidando toda certeza que se faz do mundo.

O extraordinário Dr. Manhattan surge de um acidente impossível. Sua presença muda a ordem mundial, assim como a presença de um ser como o Super-Homem mudaria nosso mundo. A partir das habilidades do Dr. Manhattan surgem mudanças na Ciência, nas artes, na cultura. E a ideia de superioridade não é cristalizada, como na obra de Tolkien. Ainda que considerado praticamente onipotente, Dr. Manhattan acaba sendo sobrepujado por Ozymandias. Em Watchmen, todos as certezas caem por terra: planos complexos e infalíveis saem do controle, a noção de destino e livre-arbítrio são questionadas.

Nesse sentido, acho que a obra do Moore é mais instigante do que a do Tolkien. Não se trata de comparar temas ou tramas ou resoluções dramáticas ou nada assim. Eu acho que Moore é mais instigante do que Tolkien, simplesmente porque Watchmen questiona mais as certezas, está mais em sintonia com um mundo caracterizado por uma diversidade e pensamentos e culturas que não mais se enquadra na visão simplista de ordem estabelecida em O Senhor dos Anéis. 

A obra de Tolkien é muito foda, mas eu acho incrível como ela é conservadora e como ela acaba reforçando as ideias de que o status quo é bom, que ocupamos os lugares que devemos, que estamos todos satisfeitos, que tudo está certo e que o que for diferente pode (e provavelmente será) uma ameaça. Já Moore mostra o diferente e as tensões como inevitáveis, questiona autoridades, apresenta uma pluralidade de pontos de vista.

Daí vem a coisa que me incomoda com o Tolkien: sua influência. Uma galera que escreve fantasias que se passam em mundos europeus, com criaturas fantásticas que pertencem a culturas que nos colonizaram e dominaram. Não é só a iconografia dessas fantasias europeias, mas a naturalização do discurso de seres superiores e inferiores, de deslegitimação do diferente, de imposição de uma ordem, da reafirmação de uma ideologia baseada em valores que trazem implicitamente racismo, machismo, conformismo e outros conceitos que reforçam a manutenção do status quo.

A real é que repetir e repetir certas ideias, certos papéis, certos contos de fada, ajuda a construir um sentimento de certeza. Mesmo que seja um mundo mágico, escapismo puro, vamos construindo uma certeza sobre sentimentos de justiça, sobre simplificações, sobre romantismos e relações entre homem e mulher, entre o personagem que nos "representa" e o personagem que representa "o outro".

Apesar de tudo, somos "religiosos", queremos ter certeza de como as coisas são. Nossas histórias favoritas, nossos livros, filmes, quadrinhos, novelas e todas as bobagens queridas, elas nos ajudam a ter certeza. Ainda que não saibamos bem do que.

E aqui estamos nós.

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