quarta-feira, janeiro 07, 2015

Eu sinto muito.

Quando eu for relembrar o ano de 2015, lá no final, preciso colocar isso no balanço.

Hoje eu acordei, coloquei roupa pra lavar, escrevi uns pedaços do roteiro da HQ, peguei uns textos no xerox e recebi a visita pro almoço de uma das amigas mais queridas. Demos voltas e acabei encontrando outro amigo querido. Um clima gostoso, tranquilo. Ver pessoas que gosto, conversar com elas, aprender com elas.

No celular, outra amiga me manda mensagem: "Wolinski morreu".

Quem é Wolinski? 

(Desculpe, meu repertório realmente não é essas coisas.)

Ela manda o link, mas estou no meio de andanças e amigos e não vejo.

Mais tarde, tomando um cafezinho, meu amigo comenta "que horror esse atentado na França".

Que atentado?

"No Charlie Hebdo".

O que é isso?

Bem, chega de ostentar minha ignorância. A essa altura você já está sabendo. Ou talvez já tenha esquecido, dependendo de quando estiver lendo isso. Pra relembrar, clica aqui.

E meu amigo me contou que os caras dos fuzis chamavam a vítima pelo nome e atiravam. Eles sabiam em quem estavam atirando. E meu amigo contou que um dos cartunistas falou que preferia morrer em pé, do que de joelhos.

O que é isso?

O que é alguém que você não conhece te chamar pelo nome e te dar um tiro? O que é morrer nas mãos de uma pessoa que te conhece pelo nome? O que se faz de tão ruim pra merecer ser morto?

Um desenho, uma piada, uma provocação. Uma crítica.

Não se tratava de impor alguma coisa, mas de tirar sarro de uma coisa já imposta. Imposição é isso: te matarem se você não se curvar. Te matarem de verdade. Bang. Bang. Na cabeça.

Curiosamente, algumas vezes nesse fim de semana, em comentários e discussões efêmeras de facebook, li pessoas reclamando da "ditadura do politicamente correto". Pessoas reclamando do "cerceamento de liberdade de expressão". Da "opressão" que vem de ativistas negros que pedem pra retirar obras com teor racista, como As caçadas de Pedrinho, da lista de livros do PNBE.

"O mundo está mais chato", dizem. Não se pode mais fazer piadas com negros, com gays, com mulheres, que as pessoas se ofendem. 

Eu imagino que algumas dessas pessoas que acham que há uma ditadura do politicamente correto, que há um princípio de totalitarismo nos protestos de grupos que sempre foram oprimidos, provavelmente vão tomar o caso de Charlie Hebdo pra ilustrar seus argumentos.

Essas pessoas vão fazer isso porque são incapazes de articular a complexidade do mundo. Vão relacionar a ação de um grupo de assassinos com a resistência de grupos oprimidos. Elas não vão conseguir jamais perceber ou admitir que são racistas, machistas, homofóbicas.

O problema do mundo é um grande mal-entendido. É um grande texto mal redigido que amplifica uma extraordinária incapacidade de interpretação.

Se o teu vizinho tá dizendo que tua brincadeira ofende, que custa você sentar e conversar com ele e tentar entender o que incomoda ele e tentar respeitar? Imagina sentar e conversar. Imagina chegar a um acordo. Imagina conviver pacificamente.

Eu escrevo isso e sei que sou um ingênuo. Sei que há visões de mundo que são irreconciliáveis. Ainda assim, será que não poderíamos tentar conviver de boas? Não dá pra conversar? Não dá pra entender que uma coisa é fazer uma piada racista e outra é fazer uma charge que critica um sistema opressor? 

Eu escrevo isso e sei que a coisa é bem mais complexa do que estou traçando aqui. Sei que estou misturando duas coisas completamente diferentes. Há pormenores, há casos específicos. Não há uma única solução, uma única visão. 

Mas eu queria que tudo se resolvesse sentando numa mesa pra tomar chá e conversar de boas.

Eu não queria ver ninguém tomando um tiro só por causa de diferenças de visão de mundo.

Eu realmente acho que isso seria um ótimo começo. 

E eu sei que não vai rolar.

E eu sinto muito.


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