quinta-feira, janeiro 08, 2015

Liberdade de expressão

Ainda no calor do Charlie Hebdo.

Muita calma nessa hora.

Primeiro lugar, nenhum insulto vale a vida de uma pessoa. Vamos concordar nisso?

Tipo, se alguém xinga a sua mãe, caga em cima da bandeira do seu time de coração, faz uma caricatura da sua irmãzinha de quatro anos numa posição indecente fazendo algo abominável, enfim, se alguém comete atos realmente OFENSIVOS, por mais ultrajado que você esteja, você não tem o direito de matar esse alguém.

Concorda?

Mais ou menos, né? Talvez você tenha imaginado algumas situações e lá no fundo da tua cabeça a Grande Serpente Peçonhenta da Ira se moveu. Ofensas são uma coisa foda. É fácil minimizar quando não é com a gente, quando não significam nada pra gente.

Ainda assim, ira descontrolada, ultraje desmedido, não justificam um assassinato. Deve ter uma lei para os casos de ofensa. Deve ter um limite. Sim, já existe essa lei, mas será que ela cobre todas as possibilidades de ofensa? E será que queremos uma lei que cubra todas as possibilidades de ofensa? Melhor ainda, precisamos de uma lei assim?

Quando se fala em limites pro jornalismo, pro humor, pra expressão em geral, muitas pessoas imediatamente associam com censura. E novamente alguns vêm reclamar da "Polícia Politicamente Correta."

"Mundo mais chato! Não dá mais pra fazer nem piadas com estupro!", dizem. Ok, eu nunca escutei ninguém reclamar que não podia fazer piadas com estupro, mas sempre ficou claro nas entrelinhas que alguma pessoas ficavam mordidas por isso. Por terem limites.

E, afinal, quem define os limites? Quem decide o que ofende ou não?

Um dos nossos problemas é que somos binários. Acreditamos em certo e errado, bem e mal, zero e um, etc. A nossa cabeça funciona assim. Acho que é pra simplificar o mundo. É mais fácil lidar com "sim" e "não" do que com "talvez" e "depende".

"Talvez" e "depende" são vistos com muitos maus olhos.

Entretanto, "talvez" e "depende" ajudam muito a entender os seres humanos.

Veja, algumas pessoas se ofendem com coisas que não fazem o menor sentido pra outras. E muitas pessoas simplesmente não se importam se estão ofendendo outras ou não. Aliás, muitas pessoas querem ofender, porque a ofensa é uma maneira muito eficaz de se fazer ouvir (mas não é  a melhor pra se dialogar).

E outras pessoas se preocupam com isso de ofender, mais que isso, enxergam nas ofensas, no discurso que menospreza o outro, seja através de "humor" ou de "jornalismo isento", uma disputa de poderes e um jogo de opressão muitas vezes nada sutil.

Agora a pouco eu estava assistindo um programa da Globo News (ah, a Globo...) e um dos comentaristas falou que acha um absurdo que alguém proponha uma regularização da mídia. Porque a mídia tem que ter liberdade absoluta pra abordar e tratar qualquer tema como bem entender. Pouco antes, esse mesmo comentarista contou que foi a um evento e ficou surpreso porque todos tinham uma opinião política diferente da dele e,  portanto, "errada".

A verdade é que não existe isenção e nós sempre vamos transmitir uma informação colocando nela nossos valores e visões de mundo. Sempre. A ideia de discurso isento, racional e objetivo é um bocado traiçoeira, sabe...

E quando se fala em "liberdade de expressão", "politicamente correto" e "humor" as coisas são bem mais complicadas do que parecem. Muito mais. Cheias de "depende" e "talvez".

E nessa de liberdade de expressão, eu vou dar uma opinião. Na verdade, não é minha opinião. É a opinião de um amigo meu. Diz o Matias:

"As pessoas reclamam do politicamente correto porque são preguiçosas".

Assim, o "humorista" reclama que não pode fazer piadas com islâmicos, judeus, negros e gays porque é incapaz de fazer piada de qualquer outra maneira. Ou melhor, tem preguiça de pensar em outra maneira.

A pessoa reclama que está sendo censurada quando recebe reações negativas por produzir um trabalho que foi pensado primeiro para provocar (ofender) e depois para criticar ou provocar alguma reflexão. Isso quando o trabalho provoca alguma reflexão, né? Porque vamos convir que muita gente por aí procura ofender por ofender. Apenas.

Outra coisa nossa: crítica é ofensa. É assim que muita gente entende a palavra crítica. Como ofensa. Mas a crítica não precisa ofender. E acho que nem deveria.

Mesmo assim, se o "humorista" faz o seu trabalho e depois é chamado de racista ou machista, ele se sente "ofendido" e "perseguido" pelo pessoal da Patrulha do Politicamente Correto. Muito embora ele tenha feito efetivamente piadas racistas e machistas.

E daí você vem e me pergunta: mas afinal, o que você propõe? Dá pra agradar todo mundo? E eu respondo: depende e talvez.

Voltando ao comentarista da Globo News que eu falei antes, o sujeito reclamou que com essa "patrulha" as pessoas vão se sentir intimidadas e vão pensar antes de usar sua liberdade de expressão. Ele acha isso ruim.

Eu acho isso ótimo.

Porque se tem uma coisa que a gente está precisando é pensar antes de usar a tal liberdade de expressão. Pensar no que queremos dizer, pra quem queremos dizer. Fugir das ideias óbvias, elaborar melhor nosso pensamento, nossa mensagem. E considerar se nós realmente queremos ofender alguém. Se é necessário ofender para o trabalho fazer sentido.

No fim das contas, cada um decide e é responsável pelo que vai escrever, desenhar, falar. Mas seria legal pensar um pouco antes de soltar algumas coisas no mundo. Seria legal também ser um pouco mais flexível e quando receber respostas negativas saber ouvir e avaliar.

É um processo completamente inexato e pede mais bom senso, sensibilidade e empatia do que objetividade e pragmatismo. Por isso se chama Ciências Humanas e não Ciências Exatas.

Em um cartum que vi hoje, o sujeito dizia que iria apresentar uma piada politicamente correta, que não iria ofender ninguém, e apresentava um quadro em branco. Ele não foi original e já vi muita gente dizendo que não dá pra fazer humor sem ofender.

Eu não sei se dá pra fazer humor sem ofender.

Pergunta pro Quino.


Atualização: um texto bem bacana pra pensar sobre o Charlie Hebdo aqui.

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