terça-feira, janeiro 13, 2015

Neverland

Em 2014 a editora Nemo publicou aqui no Brasil uma série chamada Peter Pan, do francês Régis Loisel.

Usando as palavras do autor, trata-se de um quadrinho "muito livremente inspirado nos personagens de Sir James Matthew Barrie".

Vou pedir desculpas por usar essa palavra horrível aqui, mas na minha leitura, essa história em quadrinhos é um prequel da história contada por Barrie. É o Peter Pan Begins, digamos assim, ainda que soe meio ruim.

A bronca que eu tenho com prequels é a preconceituosa opinião de que são, na maioria das vezes, uns caça-níqueis sem-vergonha.

O que, obviamente, não é o caso desse Peter Pan do Loisel.

Quem era Peter Pan? Da onde ele saiu? Como chegou a Terra do Nunca? Por que ele não quer crescer?

Respostas nessa série.

Então, queridas pessoas, se vocês tiverem interesse de ler e descobrir essa obra maravilhosa por si mesmas, parem de ler por aqui, por que a partir daqui rola spoilers.

Ok.

Li e fiquei assombrado.

Porque o Peter é um garoto da Londres vitoriana. Tem uma vida miserável e uma relação complicadíssima com a mãe, alcoólatra e violenta. O pai ele não conhece.

Daí um dia aparece uma fada, que faz um barulinho engraçado e passa a ser chamada Sininho pelo menino. De um jeito misterioso, ela o leva para uma ilha distante, povoada por seres fantásticos. Um paraíso infantil, onde o tempo não passa. As pessoas não crescem.

A ilha não recebe um nome, mas sabemos que é a Terra do Nunca.

Aliás, acho que essa história é tanto sobre a Terra do Nunca quanto sobre Peter Pan. Porque o preço que a Terra do Nunca cobra por não existir um amanhã, é não ter um ontem. Aos poucos as lembranças, boas e ruins, sempre se perdem. Quem vive na Terra do Nunca esquece tudo o que perdeu, toda a dor e talvez algo de inestimável de si mesmo.

Me assombrou.

Nas mãos de Loisel, que escreve e desenha muitíssimo bem, são apresentados personagens cativantes que morrem de maneira brutal. Tipo um Game of Thrones, mesmo sabendo que a morte de uma personagem é inevitável,  afeiçoamo-nos e sofremos por ela. Até aí, parece que nenhuma novidade, mas foi o esquecimento completo da existência dessas personagens pelas que sobrevivem que me chocou. Talvez isso seja o mais triste e brutal desse Peter Pan. O esquecimento.

Ao contrário da vida real, em que há um luto, uma saudade, uma memória do que se viveu, na Terra do Nunca tudo se perde. É como se a pessoa nunca tivesse existido.

Ou, talvez, o que tenha me assustado mesmo é que a vida real não é muito diferente disso. Na vida real, a gente precisa meio que esquecer, deixar pra trás, pra seguir em frente. Peter Pan explora esse lance do esquecimento, da razão do luto e do sofrimento. Esquecer parece ser bem pior do que sofrer com a ausência.

Além disso, tem toda uma série de questões sobre maturidade sexual e emocional, nas relações de Peter com sua mãe, com Sininho, com as prostitutas, com a pequena Rose, com as sereias. Crescer é doloroso e acho que é por isso que Peter não quer crescer.

Peter é um destroço emocional e dá pra entender perfeitamente que ele prefere esquecer o que aconteceu, mas ao esquecer, ao mesmo tempo em que se livra da dor, Peter se livra de uma parte, talvez essencial, de si mesmo. Daí ele não cresce. Sua inocência é de certa forma preservada, mas aos meus olhos de leitor isso é muito triste. É como se aquelas pessoas tivessem morrido em vão. Sei lá...

Isso me deixou bolado.

Esquecer é como abandonar completamente.

Perder de vez, para sempre.


Nenhum comentário: