sábado, janeiro 10, 2015

Notas

Pra fazer uma história em quadrinhos, deve-se começar de dentro para fora.

No começo, sem palavras nem imagens. Só coisas indizíveis, inquietas. Sons estranhos, sensações no fundo do peito. Daí o remoer essas coisas. Um processo de remoer e remoer. E ver que imagens e sentenças nascem daí.

E elas vão brotando.

Tipo um grande campo, que a gente ficou revirando e revirando até cansar, e daí, quando tudo começa a ficar quieto, as coisinhas vão saindo do fundo. Virando sentenças e imagens. Daí a gente coleta. Anota, cataloga. Vai achando tanta coisa estranha que vai brotando. Algumas fazem sentido só pra gente. Essas dificilmente sobrevivem. E uma coisa pode ir se conectando com outra, se enroscando, virando outra.

De dentro pra fora.

E a gente vai mapeando as coisas indizíveis,  tentando entender, vendo coisas se juntarem, ouvindo o que vem do fundo. E tomando nota.

Daí um monte das coisas acaba se perdendo. Se perde. E o que vai se registrando vai mudando no papel, nas refações, num novo tipo de remordimento. Ruminando. Ruminando.

Daí começa a cristalizar. A se fechar numa forma limitada no papel, muito mais pobre e sem graça, mas talvez ainda contendo em seus traços, nas suas entrelinhas, nas suas entranhas, um pouco do assombro, da energia das tais coisas indizíveis. Precisa ter um bocado de sorte e uma desavergonhada (porém honesta) pretensão.

Porque é mais uma questão de sorte do que de controle, de precisão. No fim de tudo, é um jogo de improviso. Em cima de uma inquietação, de um fantasma, de um limite, a gente trabalha. A gente vai tocando. Vai vendo o que se oferece. Tenta conduzir da melhor maneira possível.

E precisa daí saber prestar atenção na vida. Precisa deixar se levar e tentar conduzir. Se possível, apreciar o passeio.

E um dia, tudo ganha uma nova dimensão. Todas aquelas coisas viram um livrinho. A gente fecha histórias, pra começar outras. Ou talvez, pra começar a viver, em vez de narrar.


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Outra opção é ler o Desenhando Quadrinhos do Scott McCloud e começar a desenhar.




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