domingo, janeiro 11, 2015

O Velho e o Mar

Domingo, dia de almoçar com a família querida e depois morgar no sofá assistindo uns filmes com o pai. E hoje tava passando O Velho e o Mar.

Eu nem sabia que tinha um filme disso. Quer dizer, já imaginava, né? Mas não conhecia o filme de 1958, com o Spencer Tracy. Não foi difícil perceber que era O Velho e o Mar. O sujeito no barquinho, agarrando com a mão a linha, tentando vencer o marlim de cinco metros.

E comecei a assistir e reparar como era isso de fazer um filme antes da computação gráfica, quando tinha que se filmar certas coisas pra valer, como tubarões sendo perfurados por arpões. Uma brutalidade fascinante, os bichos nadando e deixando pra trás uma nuvem de sangue enquanto eu ficava pensando se aquilo era material de alguma outra filmagem ou se eles tinham feito especialmente pro filme.

Então minha irmã, que tinha acompanhado uns minutos o filme e percebido que se tratava de um velho que sofria um bocado pra tentar pegar um peixe, perguntou:

"Mas por que ele simplesmente não desiste e deixa o peixe em paz?"

Como assim? Que raio de pergunta é essa? Essa foi minha primeira reação. Daí fui tentar explicar que é a obra do Ernest Hemingway e que tem um lance de significados, o peixe representa superação e tal... e daí percebi que eu não estava convencendo a minha maninha das razões pra sofrer por três dias tentando pegar um marlim. Na real, eu não estava convencendo nem a mim mesmo.

Peraí, afinal, porque esse filho da puta não desistiu?

E o filme terminava citando o sonho de Santiago, o pescador derrotado (?), com os leões na praia.

Acho que eu li O Velho e o Mar pelo menos umas duas vezes e a última já tem uns dez anos. Cheguei em casa e fui procurar meu exemplar. Numa breve folheada, comecei a relembrar algumas coisas sobre Santiago.

Ele era um velho, viúvo, solitário, que vivia da pesca. Na sua aldeia, tinha ganho a fama de azarado por ter entrado no mar por 84 dias seguidos e não ter conseguido pescar nem uma sardinha. Na narrativa de Hemingway, dá pra perceber que Santiago vivia em condições muito humildes, assim como outros pescadores da vila.

Hemingway escreve sobre coisas como orgulho e humildade de uma maneira assombrosa.

Em um primeiro momento, revisitando O Velho e o Mar, eu temi que por uma ode à meritocracia, tipo, o empreendedor que vai e vence seus obstáculos e aquela conversa de merda de sempre. Mas O Velho e o Mar não é sobre vitórias e derrotas.

Acho que o livro de Hemingway é justamente sobre a falta de sentido de se falar em vitórias e derrotas.

Santiago realmente se sacrifica para apanhar o marlim. Ele não maldiz o peixe, não o vê como inimigo, conversa com ele, chama-o de irmão. Há uma cumplicidade. E no fim, todos os esforços e sofrimento de Santiago parecem ser compensados. Ele pega o seu peixe.

E na volta para casa o perde para os tubarões.

Esforço, sacrifício e trabalho duro não são garantia de recompensa.

Santiago fala da sorte. Santiago conhece suas habilidades e conhece os peixes do mar, mas ainda assim há coisas que o homem não controla. O homem tem limites. As coisas podem não dar certo. Muitas vezes, as coisas não dão certo.

Então por que não soltar a linha? Por que simplesmente não desistir? E se a gente desiste, daí vai fazer o quê?

Acho que cada um, cada uma precisa achar as suas respostas.

Talvez O Velho e o Mar seja justamente sobre isso.

Vou reler e buscar nas entrelinhas a minha resposta.



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