domingo, janeiro 18, 2015

Poder da expressão







Esse material foi divulgado pelo facebook do meu querido Neil Gaiman, que é o autor das palavras. A arte é de Chris Riddell.

Concordo muito com o que ele diz em seu credo. Numa tradução livre:

Eu acredito que reprimir ideias espalha ideias
Eu acredito que pessoas e livros e jornais são veículos para ideias, 
e acredito que queimar essas pessoas será tão inútil quanto explodir os arquivos dos jornais.
É tarde demais.
É sempre tarde demais.
As ideias estão soltas, escondidas atrás dos olhos das pessoas, esperando em seus pensamentos.
As ideias podem ser sussurradas
Podem ser escritas nos muros na calada da noite
Podem ser desenhadas
Eu acredito que na batalha entre armas e ideias, as ideias irão eventualmente vencer.
Porque ideias são invisíveis
e elas persistem
e, às vezes, elas até são verdade
mas ela se move

Mas eu também acredito em outras coisas sobre ideias.
Ideias podem matar.
Ideias trazem em si disputas de poder.
Ideias podem desencadear revoluções e oprimir gerações.
Ideias podem transfigurar pessoas de maneira brutal.

A gente fala muito em liberdade de expressão, mas pensa pouco no poder da expressão.
Não foram as charges do Charlie Hebdo, mas provavelmente a maneira como as ideias foram conduzidas pela imprensa que levaram pessoas a pichar a Mesquita Brasil em São Paulo e a cuspir e jogar pedras em muçulmanas, conforme o texto de Anna Virginia Balloussier na Folha.

(Se você reparar no relato de Balloussier, vai perceber que os atos de violência citados são de homens contra mulheres, então coloque misoginia na sua lista de ponderações).

A real é que fica a ideia de que os todos muçulmanos são maus. Mataram os desenhistas por causa de desenhos e por isso todos os muçulmanos são maus, fanáticos, ignorantes. O Islã é mau. E daí aparecem os vídeos e links mostrando as maiores atrocidades, todas cometidas por muçulmanos, e o raciocínio do amigo só pode ser um: indignação e vingança.

E as ideias se espalham, feito fogo em mato seco. E vai lá o homem de bem defender a liberdade de expressão cuspindo e jogando pedras em muçulmanos.

Mataram os artistas do Charlie Hebdo, isso é inaceitável. Tão inaceitável quanto qualquer outro crime, como os crimes religiosos na Nigéria, que ocorreram praticamente junto com o atentado ao Charlie Hebdo, mas, afinal eram 2000 negros mortos num país africano e é mais interessante falar do atentado contra a liberdade de expressão de artistas da França. Falando assim, parece estupidez, mas é a tal verdade, a tal ideia: na nossa mídia, a vida dos brancos vale mais que a dos negros. A expressão dos brancos vale muito mais do que a dos negros. As ideias dos brancos, europeus, ocidentais, valem muito mais do que as ideias de mulheres, muçulmanos, negros e qualquer um fora de um circuito muito bem estabelecido pela hegemonia.

É um turbilhão de desigualdades, de assimetrias e de detalhes e nuances que precisam ser pensados com calma, sem pressa e, principalmente, sem bílis.

Mas não é o que acontece.

O que nos interessa é mostrar o dedo médio, é chamar o outro de estúpido pelo que ele acredita. É dizer que ele não tem o direito de se ofender, porque nós sabemos e decidimos aquilo pelo que vale a pena se ofender ou não.

Ideias não são inocentes e algumas podem ser inacreditavelmente devastadoras.

Não existe como proibir a liberdade de expressão porque é impossível controlar e cercear todas as formas de expressão e ideias. Mas seria legal a gente começar a se ligar também no poder de expressão, nos efeitos que nossas expressões podem ter.

Resumindo, não custa nada pensar um pouquinho antes de abrir a boca e dar nossa opiniãozinha de merda.


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