sábado, janeiro 24, 2015

SAGA

O lance desse quadrinho é fantasia. Ou ficção científica.

Mas acho que tá mais pra fantasia. Alienígenas, guerras interplanetárias, magia.

Na real, o grande lance desse quadrinho é família. Tipo, como constituir família em condições extremamente adversas.

Daí tem esses dois personagens super-queridos, o Marko e a Alana. Ele com aqueles chifres de carneiro e ela com as asinhas de fada. A história começa com o nascimento da pequena Hazel, a primeira filha do casal. O problema é que esse casal é formado por desertores de dois exércitos envolvidos numa guerra de décadas.

O que o bom e velho Brian K. Vaughan faz é uma trama que seria como se uma soldada israelense se apaixonasse por um palestino no meio da faixa de Gaza. Pegue isso e jogue num universo ficcional muito parecido com Star Wars, mas muito mais colorido e doido, cheio de árvores que são naves espaciais e puteiros cósmicos.

Saga é de encher os olhos e o coração.

Tramas e personagens carismáticos à parte, o que me fascina em Saga é que a grande aventura é, no fim das contas, constituir uma família.

Acho que juntar-se com um companheiro ou uma companheira é algo muito ousado.

Porque as pessoas mudam. Elas crescem, deformam-se, trocam de cheiro. Todas as pessoas fazem isso. E ter um filho então. Colocar uma criança nesse mundo insano, bruto, malvado.

Precisa ter muita coragem pra fazer isso.

Acho que famílias funcionam quando as pessoas querem que funcione. É um trabalho de duas pessoas. Não é só amor, precisa ter decisão, precisa ter trabalho, boa vontade.

Ainda assim, amor é fundamental.

Amor é uma coisa muito louca. Se eu fosse definir, diria que amor é ter liberdade total pra sair quando quiser e obrigação nenhuma de ficar e, ainda assim, permanecer. Acho que uma família se constrói com isso.

É irracional, eu sei. Pragmaticamente falando, não faz sentido nenhum. Não num mundo em que precisamos nos valorizar, construir nossa identidade, estabelecer nosso futuro, tornarmo-nos plenos como seres humanos, principalmente no plano individual.

Ter um emprego, uma carreira, uma obra, lutar por reconhecimento político de um grupo social, sobreviver dentro desse sistema de trocas. Ser autossuficiente. Isso tudo não é incompatível com partilhar a vida com alguém e apostar em uma família, conceito que, como várias outras instituições humanas, carrega um ranço de opressão.

Esse é  o mundo onde acho que estou vivendo. É a minha percepção. Um mundo de incertezas e exigências implacáveis, sem muito espaço pra empatia e gentileza. Posso estar errado, mas pensar em ter família nesse meu mundo é um ato muito corajoso, arriscado, imperfeito e assustador. E, acima de tudo, fascinante e inestimável.

Uma verdadeira Saga.

Quem sabe um dia?


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