terça-feira, fevereiro 03, 2015

Com amor

Outro dia vi o filme Whiplash.

Um filme sobre obsessão, sobre a vontade de ser perfeito.

Tem esse moleque que quer ser baterista, não apenas um bom baterista, mas o melhor baterista de todos os tempos. E tem esse professor que acha que os gênios surgem da adversidade, que é preciso pressioná-los, e por isso ele torna a vida dos seus alunos um inferno. Fomenta a competitividade a limites praticamente insuportáveis.

Eu acho que música se faz com amor e não com ódio.

O mesmo vale pra literatura, arte, quadrinhos. A ideia de ser o "melhor", a pretensão de se destacar entre os outros humanos e ascender a uma espécie de panteão dos "grandes"... não acho que sejam boas motivações, sabe.

Acho engraçado que essa vontade de se tornar imortal através da arte, de se tornar "importante", relevante.

De certa forma, é parecido com o Birdman.

Sobre o Birdman uma amiga comentou:
Esse filme é sobre implorar, seja lá do jeito que for, pelo amor e pela aprovação dos outros. Nada pode ser mais humano. É o que todos nós fazemos, no fim das contas.
Soma isso com o podcast sobre felicidade que o pessoal da revista Clichê gravou. Um bate-papo bem gostoso que levantou boas ideias. Pra variar, ao falar da felicidade a conversa acabou passando pelo conceito do amor, digamos assim, "romântico". A ideia de que, se encontrarmos a pessoa certa, tudo ficará bem.

Amor e aprovação. Reconhecimento. A confirmação de que somos especiais.

Tem que descobrir um novo jeito de dar sentido pra vida, porque esse daí não funciona. Fazer arte pra ganhar aplausos, arranjar namorado ou namorada pra ser feliz... não é uma boa estratégia. Mas isolar-se numa casca de autossuficiência também me parece um equívoco.

A real é que não conheço nenhuma teoria ou filosofia ou estratégia que dê conta de todo o potencial humano. A gente fala em felicidade e sabe que é um momento, um conjunto de momentos dentro dos quais estamos bem, muito bem, extraordinariamente bem. E a infelicidade é outro conjunto de momentos. Mas a grande maioria dos momentos da vida é nem feliz, nem infeliz. É OK.

O professor do filme Whiplash acha que OK é o fracasso. Você precisa ser mais que OK. Mas a vida não é assim.

E a questão não é como superar os momentos OK, como transcender e chegar ao "olimpo", mas como aceitar esses momentos. Como aprender a nos amar e a curtir essa vida quando não estamos no alto nem no fundo, que é a maior parte do tempo.

A vida não se mede com planilhas e "sucessos".

Ainda não sei direito como viver, como fazer ou trazer sentido pro estar aqui. E talvez nem precise. Talvez seja coisa de só entender que nem sempre podemos ter o que queremos, mas muitas vezes temos o que precisamos. Não é ser acomodado, sabe. Esse papo parece ser conformista, mas não é isso.

Acho que o meu ponto é que temos que entender bem as nossas inquietudes, nossas angústias, e enfrentá-las diretamente e não projetá-las em relacionamentos ou trabalho...

Ando meio angustiado, gente.

E isso é bom.

:-)


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