terça-feira, fevereiro 10, 2015

Olhos Grandes

Um filme do Tim Burton que não parece um filme do Tim Burton.

Ok, se você é fã do Tim Burton, pode me xingar, mas achei os últimos trabalhos dele uma auto-caricatura. É como aquele vídeo do College Humor: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, cenografia e figurino dark e rocambolesco, trilha sonora do Danny Elfman ("lalala bom bom bombom"), etc.

Enfim.

Grandes olhos não tem Johnny Depp, nem Helena Bonham Carter e é tão comportado que quase não dá pra acreditar que é um filme do Tim Burton. Danny Elfman faz a trilha sonora, mas sem "lalalala, bombom bombom, diglidigli".

A única parte que me fez pensar em Tim Burton foi a abertura do filme, que mostra um conjunto residencial norte-americano dos anos 50. O enquadramento era total Edward Scissorhands.

Mas, pou, não quero falar de Tim Burton e do estilo dele.

Grandes Olhos conta uma daquelas histórias "baseadas em fatos reais". É a dramatização do início da carreira da pintora Margaret Keane. O filme dá a entender que ela foi um Romero Britto de sua época, extremamente popular e xingada por todo mundo que tinha "bom gosto e cultura".

O grande lance do filme é que o marido de Margaret assume as autorias das obras da esposa, pra dar "uma força pra ela". Afinal, ela é mulher, ele é homem, e portanto é muito mais fácil pra ele atingir o sucesso. Se as pessoas pensarem que o autor dos quadros é um homem, há mais chances de sucesso.

Sério, essa é a argumentação do maridão, perfeitamente encarnado por Christopher Waltz, pra assumir a autoria e por a mulher pra trabalhar escondida em um quartinho. A história consegue deixar o espectador perplexo. Pelo menos, eu fiquei perplexo e indignado. Não sei o que era pior: o maridão explorar na cara dura a Margaret ou ela abaixar a cabeça e consentir com esse abuso.

Ela é privada da arte, do reconhecimento de seu talento. É obrigada a pintar escondido da própria filha e mentir pra ela dizendo que os quadros são feitos pelo maridão.

Daí, o amigo do maridão pode dizer: "ah, mas ela não foi obrigada a nada. Ela concordou. E o marido só queria ajudar." E acho que esse é o ponto fundamental do filme: como pode alguém permitir que outra pessoa lhe abuse desse jeito? Por que uma pessoa deixa que outra suba em cima dela e mande e desmande?

Melhor ainda, o que faz com que uma pessoa saia desse circuito de abuso?

No caso do filme Grandes Olhos, é uma ótima maneira de explicar por que existe feminismo. As condições que fazem Margaret aceitar o abuso do marido são as condições impostas à mulher pela sociedade. O papo do maridão sobre ele ter mais chances de sucesso por ser um homem corresponde a uma "verdade" pra muita gente de hoje, 2015, quem dirá pro pessoal de 1950.

Margaret permite ser expropriada de sua expressão e arte porque tem medo de ser deixada desamparada com sua filha, tem uma estima muito baixa e, principalmente, porque é mulher.

Lógico que ela dá a "volta por cima", mas acho muito triste da onde ela consegue apoio pra exigir seus direitos.

Enfim, na minha opinião, Grandes Olhos é um filme ótimo pra começar a entender porque existe feminismo.

E também dá pra entender porque existe machismo.

Numa cena do filme, o maridão de Margaret faz uma exigência completamente absurda pra ela e ela consente. Dá pra ver na atuação do Christopher Waltz que o maridão fica surpreso que ela tenha cedido tão facilmente. No seu rosto, a expressão de surpresa do tipo "sério que você vai deixar eu fazer isso?" é imediatamente substituída pelo sorriso "bom, então vamos ver até onde você vai se abaixar" e ele prossegue fazendo novas exigências, cada vez mais terríveis.

Na cabeça do machista, não existe abuso. A mulher sempre consente. O não consentimento é considerado uma resistência "tola", de alguém de mentalidade infantil, que não sabe das coisas. Porque é assim que o machista enxerga a mulher: um ser de mentalidade infantil, inocente, que às vezes tem umas variações de humor inexplicáveis.

A meu ver, sem diminuir as questões feministas e o peso que uma sociedade machista exerce sobre a mulher, acho interessante perceber que essas questões de abuso se fazem presentes em outras relações. Patrão e empregado, mídia e sociedade, laços afetivos. Parece-me que relações nunca são simétricas e sempre tem alguém que vai acabar montando em cima do outro e achando que está tudo bem.

Daí eu fico pensando se a gente, cada um de nós, tem discernimento pra saber quando está montando, quando está sendo montado, quando parar e quando dar um basta.

Ah, as infinitas possibilidades de relações humanas...


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