segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Sobre mercado de quadrinhos

Tem essa matéria onde o Marcello Quintanilha fala sobre mercado de quadrinhos no Brasil.

Daí escrevi um comentário em uma discussão do facebook e achei legal de postar aqui também:

Eu acho que tem umas boas coisas pra pensar aí.
Primeiro, eu penso que crítica de quadrinhos é uma coisa, estratégias para ampliação de público leitor é outra. Acho que elas até podem se misturar às vezes, mas não são a mesma coisa.
Para ampliação do público leitor, matérias e entrevistas veiculadas em jornais, tv e meios com maior "visibilidade" podem ser muito úteis. Mas quando vejo o pessoal da Globo News falando sobre a criação da Academia Brasileira de Quadrinhos ou mesmo essa matéria da Época Negócios, eu fico com dúvidas se vão despertar em alguém que não tem familiaridade com quadrinhos o interesse por ler alguma obra. 
Quando alguém lança uma obra em quadrinhos e recebe atenção da imprensa, da mídia não especializada em quadrinhos, como é feita a cobertura desse acontecimento? Alguém já viu uma matéria em que o autor ou a autora fala sobre a obra que produziu, sobre por que ela é relevante? Eu não lembro de ter visto algo assim. Geralmente as entrevistas mostram o autor respondendo sobre como quadrinho "não é mais pra criança", sobre o que ele costumava ler quando era criança, sobre quadrinhos e educação e por aí vai. 
Será que isso colabora pra ampliar o público? Eu não sei e tenho muitas dúvidas a respeito. 
Já sobre a crítica de quadrinhos... Quem lê e curte quadrinhos procura resenhas, críticas, fóruns especializados em quadrinhos. Mas é preciso deixar claro que uma mesma obra pode receber qualificações completamente diferentes. Não acredito em uma "ciência exata" da crítica, seja de quadrinhos ou de qualquer outra forma de expressão. Cânones, tendências, regras formais, tudo pode ser rompido de acordo com uma contextualização maior da obra. Por isso, pra mim, crítica deve ser entendida com parte de uma discussão saudável e necessária sobre a produção cultural e não como uma "sentença" que decreta o que é "medíocre", "fraco" ou "genial". Crítica que mereça esse nome não pode ser guia de consumo ou aplicação de rótulos. Tem que ter análise e reflexão. 
Acho que os quadrinhos brasileiros tem duas características basilares: a paixão do leitor e a "camaradagem". 
As pessoas fazem quadrinhos primeiro porque amam quadrinhos. Sim, querem viver disso e fazer disso profissão. Daí precisam produzir em série, constantemente, porque quadrinhos é indústria cultural, consumo de massa. Podem aparecer coisas bem bacanas no meio dessa produção, mas em geral prevalecem as fórmulas narrativas que agradam o público: super-heróis, aventura, romance. Essas fórmulas narrativas facilitam a produção que visa o "sucesso de público". A lógica de trabalho pra produzir em quantidade pra atender demandas de mercado é diferente da lógica de encarar o trabalho de maneira autoral, buscando novas formas e temas que podem não ser sucesso de vendas. 
Daí, acredito que discutir a crítica de quadrinhos é uma coisa, discutir estratégias de divulgação e construção da imagem dos quadrinhos perante o mercado e o senso comum é outra. 
O senso comum ainda vê os quadrinhos como um produto cultural menor e engraçadinho. As matérias ainda usam artigos masculinos pra se referir aos quadrinhos (escrevem "o" HQ, "um" HQ pra uma sigla que é "história em quadrinhos", portanto feminina). 
Soluções pra fortalecer o mercado de quadrinhos eu não tenho nenhuma. Mas acredito que independente de estratégias e vendas, as pessoas vão continuar produzindo seus quadrinhos por aí. Acho que os quadrinhos tem um valor cultural e social que extrapola a lógica de mercado. Daí a importância de eventos como o FIQ, que considera essas dimensões sociais e culturais e não reduz os quadrinhos a um produto de consumo descartável. 
Esse é um assunto muito bacana e, acho que, inesgotável.
O lance é que eu entendo quadrinhos como uma atividade humana, cultural e social, e, portanto, maior que a lógica de mercado. Porque, vamos convir, a lógica de mercado é muito simples: você precisa acumular capital. Não importa como você faz isso. Essa é a medida de todas as coisas: acúmulo de bens, sem fim, sem limites. Acho que, enquanto seres humanos, perdemos um bocado ao reduzir todas as nossas expectativas de realização pessoal ao acúmulo de bens e à tal "competitividade" que isso implica.


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