quarta-feira, março 18, 2015

Democracia & corrupção

A gente defende liberdade de expressão pra uma multidão ir pras ruas protestar e pedir a volta de um regime que proibia manifestações e que punia com tortura, morte e sumiço do corpo qualquer um que tivesse uma opinião diferente. 
A gente defende o direito de manifestação de uma parcela da população que chama de burro quem não vota em seus candidatos e elege em primeiro turno animais que cagam epicamente com a educação, o fornecimento de água, o urbanismo. 
Pelo amor de Deus, gente que compartilha posts do Álvaro Dias! 
Gente que acha que militares armados são o suprassumo da civilização. Gente que lê a Veja e tem muito orgulho disso. Gente que é contra a corrupção e vai manifestar usando a camiseta da CBF. 
Gente que fala que estamos em uma ditadura e pressiona suas empregadas domésticas, porteiros, motoristas, jardineiros e qualquer um de classe social menos privilegiada a lutar por políticas que beneficiam madames e prejudicam pobres. 
Gente que é contra a roubalheira do PT e é incapaz de enxergar a sujeira do próprio rabo no dia a dia. 
Gente que acha que se Jesus Cristo voltasse hoje, ele iria apoiar latifundiários e ser contra os sem-terra. 
Gente... MULHER que segura placa dizendo "feminicídio sim". 
Enfim, democracia é isso. É você aceitar que há opiniões diferentes da sua. O grande problema é conciliar as expectativas de quem tem pretensões de viver como privilegiado em um grande campo de concentração com as expectativas de quem acredita que com toda essa riqueza não existe mais razão pra ninguém passar fome.

Escrevi isso pra um post no Facebook por causa da passeata de domingo.

Acho que as pessoas que foram pras ruas fizeram um protesto legítimo sim, acho que elas têm o direito de se manifestar e acho que esse ato de domingo pode até ter boas consequências.

Só que preciso dizer que há muitos problemas no discurso dessas pessoas. Preciso dizer que é um equívoco pensar que todos os problemas do país serão resolvidos com o fim de um partido, quando há outros partidos com altos índices de corrupção dentro de uma estrutura que parece funcionar na base da corrupção.

Também acho um equívoco orientar-se por uma mídia, seja Globo, Folha, Carta ou o que for, que claramente enfatiza certos aspectos e ignora outros, sem questionar os interesses dos grupos privados envolvidos. Não existe mídia neutra. Nenhuma. Eu não sou neutro. Dá pra perceber, né?

Daí um colega me acusou de querer invalidar a manifestação porque não aceito uma oposição ao governo. Outro equívoco: eu aceito uma oposição sim. Eu estou muito, mas muito decepcionado com o governo. Só que não vou pra rua me manifestar do lado de gente que quer a volta de um regime que torturava crianças na frente dos pais. Não vou pra rua me juntar a uma massa que acha que a "corrupção" vai acabar se a presidenta receber um impeachment.

Penso que precisamos compreender que a tal "corrupção" é uma prática encalacrada na cultura capitalista. Não falei cultura brasileira, falei cultura capitalista. Pedir 10%, 20% pelas "indicações" de trabalho é uma ação que já vi em escritórios de arquitetura e gráficas. Orçamentos de marceneiro ou de impressão que chegavam ao cliente com uma parcela a mais pra pagar a arquiteta ou o publicitário envolvido na "indicação". Um tributo, um "agrado" ao pessoal chique e criativo.

Lógico que a coisa ganha outra dimensão quando envolve dinheiro público. Lógico que os representantes da União envolvidos precisam ter uma postura ética diferente dos profissionais de mercado. Mas a meu ver o problema não é só a "corrupção". É a mentalidade predatória típica do capitalismo. Explorar o máximo que puder pra obter o lucro máximo.

E tem também toda aquela construção cultural de que se você trabalhar muito,muito mesmo, vai ficar rico. Tem a contribuição cristã de culpa e sofrimento, por isso o trabalho precisa requerer "sacrifício".Tem que sofrer. Tem que sofrer muito pra ganhar pouco.  Daí que é intolerável quando aparece alguém se "dando bem". Ódio pelos programas sociais que facilitam a vida de vagabundos, desprezo por quem trabalha pesado em obras, faxina, "subempregos". Joelhos dobrados e louvores diante de gente de bem, de donos de empresas, de pessoas que ganham muito mais do que precisam pra viver e ganham isso com o acúmulo de 10%, 20%, 50% em cima do trabalho de outros. Lógico que ninguém reclama disso, o mercado é assim, é natural. Na real, acho que as pessoas, digo, os trabalhadores que se sujeitam a essas regras de mercado, não reclamam porque simplesmente não param pra pensar. Ou não podem. Capitalismo é a escravidão cordial.

Por essas minhas considerações, você já deduz minhas inclinações ideológicas. Mas não me xingue. No fim tudo é utopia. No fim, na real mesmo, nenhum de nós tem ideia do tamanho do esquema. Nenhum de nós tem uma ideia clara do que está acontecendo, por mais que se ache esperto e bem-informado....

Blá.

Só ideias esparsas, nada sério. Não me leve a sério.

Vou começar a postar desenhos, é mais bacana.

Um comentário:

Jerri Dias disse...

Ótima reflexão sobre a situação atual. Só vale lembrar que corrupção é inerente ao ser humano e não foi criada com o capitalismo. Ditaduras comunistas também foram tão corruptas quanto governos de direita. Continue postando mais sobre política. E desenhos também :-)

Abraço.